sexta-feira, 8 de maio de 2020

"Viver como habitualmente"

Sei bem que ter como título de um post uma frase de Salazar imediatamente me desqualifica para um monte de gente.


Aliás, quando estava a acabar o meu doutoramento, uma das pessoas que o leram (não, não foi nenhum dos meus orientadores), fortemente enraízada na academia, fez-me notar que ter um capítulo intitulado "O triunfo de Salazar" era um grande risco.


Por mais que eu me risse e explicasse que o título era irónico, a resposta era sempre a mesma: "compreendo, mas não sei se a academia está preparada para aprovar uma tese que tem um capítulo com esse título". Já sem o poder de Salazar, o período a que o capítulo dizia respeito descrevia como as ideias do Salazar académico de 1916, que tinha escrito uma tese sobre a questão do trigo, se estavam a impôr à prática política do Salazar presidente do conselho e responsável pela campanha do trigo, de que eram o exacto inverso.


Como era eu que pagava as propinas do doutoramento (muito obrigado a quem me ajudou nisso) e queria era despachar o assunto - um doutoramento feito por pura recreação e sem qualquer interesse para a minha vida profissional - mudei o título do capítulo e ficou bem claro, para mim, como funciona o condicionamento ideológico.


Sei portanto a asneira que é fazer um post com uma frase de Salazar para título.


Mas é tudo o que as regras das praias, dos restaurante, dos supermercados, da rua, dos festivais, das missas, das escolas e do raio que os parta me fazem lembrar.


Do que precisamos é de viver habitualmente, sabendo que entre nós circula um vírus do qual convém que cada um se defenda como entender, num "simples mundo,/ onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém/ de nada haver que não seja simples e natural./ Um mundo em que tudo seja permitido,/ conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,/ o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós" (jorge de sena). 

7 comentários:

  1. O título não o desqualifica. Aliás, o que surpreende no texto foi não ter insistido em manter o título irónico na sua tese. Não acredito que houvesse qualquer problema se o título tivesse permanecido. Na pior das hipóteses, seria confrontado com a sua escolha durante a defesa e teria a oportunidade de a explicar. Mas admito que a academia que conheço é menos politizada que as áreas da economia, direito e sociologia. 

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  2. O doutoramento era na faculdade de ciências da Universidade do Porto

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  3. As regras que fizeram para os restaurantes (dois metros de distância entre os clientes, etc) fazem todo o sentido, mas significam na prática matar o setor da restauração. Matar. Inviabilizar financeiramente 2/3 das empresas, e mandar todo o pessoal que nelas trabalha para o desemprego. É evidente que, com dois metros de distância entre as mesas, os restaurantes perderão 70% da clientela e se tornarão financeiramente inviáveis. Incluindo, já agora, os restaurantes nos quais desejarão comer os turistas que se deseja atrair este verão.
    Ou seja, isto é apontar uma pistola à cabeça de dezenas de milhares de trabalhadores portugueses, e premir o gatilho.
    Estas regras vão causar muito mais mortes e muito mais miséria do que o coitado do vírus alguma vez seria capaz.

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  4. Agora proibiram liminarmente todos os festivais de verão, o que causará a ruína de muito boa gente, sem lembrar o facto óbvio de que a imensa maior parte dos frequentadores desses festivais são pessoas jovens, que são imunes à covid e que até teria toda a vantagem em que se infetassem todas, para começarem a construir a imunidade da sociedade.
    Este governo está, pura e simplesmente, louco!

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  5. http://www.francesoir.fr/anatomie-dune-crise-interview-exclusive-de-jean-dominique-michel-anthropologue

    Peço desculpa por ocupar espaço, mas não resisto a transcrever esta passagem da entrevista, sobre o papel dos "media", que lá como cá, tanto nos preocupa.

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  6. Preocupante e perigosa também _ à margem da pandemia _  é a possibilidade de o mundo se ter tornado um imenso observatório / laboratório, sendo todos nós as cobaias,  objecto de observação de "comportamento de massas" onde são testados quais os nossos limites e até onde podem ir as nossas "cedências".  
      

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Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...