Encalacrado pelo trânsito, subo lentamente a turvada Avenida Almirante Reis num fim de tarde outonal. A chuva cai copiosa por cima duma paleta de cinzentos donde se destacam as luzes dos carros, brancas e encarnadas dependendo do sentido da marcha, num vagaroso pára-arranca. O cenário é-me familiar, reporta-me a sensações antigas com quarenta anos: o cheiro a húmido do autocarro quase cheio, os neons que rebrilham nas poças de água, os vultos apressados, escondidos nos chapéus e agasalhos pardacentos, por entre o fumo do assador de castanhas que se mistura com baforadas dos escapes impacientes. De que me servem a banda larga, as tendências da moda, as redes sociais, a modernidade e a literatura ou um estúpido smart phone? Com um calafrio perco-me momentaneamente numa Lisboa bárbara e sem idade, que é de hoje como da minha infância. Revejo-me num grupo de miúdos encarapuçados e de mochilas às costas, que no passeio me ultrapassa em eufórica algazarra disputando aos pontapés uma lata amolgada. Uma velha espreita desconfiada à porta duma loja deserta e mal iluminada: quantas gerações de incógnitos malandrins já terá ela visto passar e crescer daquela soleira? Se as memórias antigas são a preto e branco, nada como um cinzento e chuvoso fim-de-tarde para uma viagem a um tempo que parou. O tempo parou como se vivêssemos um eterno retorno, escravo das estações do ano, das horas do dia, como se não houvera sentido, se não a rotação outra vez e outra vez. Mas por estranho que pareça, do meio deste bloqueio temporal, mais tarde ou mais cedo, todos irão chegar aos seus misteriosos destinos. Subitamente tenho saudades de casa.
Não há tempo, meu caro. Há sequências. Virar de página. Depois, Lisboa fala, e manda-nos sempre com aquela «energia» de outrora, escondida nos dias de hoje...é a dita da sensação «déjà vu». É o espirito a organizar-se, ou a pôr alguma dúvida.
ResponderEliminarHaveria vagabundos e excluídos e delinquentes e drogados na Almirante Reis de há 40 anos? No lo creo.
ResponderEliminarSabes lá tu? Consegues distingui-los? Percepcioná-los? E tu onde estás?
ResponderEliminarMas a ditadura actual - moderna - tem muitos delinquentes, a começar pelo seu mandante primeiro. Ele só não usa brinco na orelha porque o armani não deixa. Mas aposto que usa piercing numa certa ponta. Parece também que gosta do pó de Chavez, de cacao e outras coisas mais.
ResponderEliminarGostei muito. E, coincidência, esta visão do tempo cíclico fez-me lembrar um capítulo (Sol de Inverno) do meu romance Entre Cós e Alpedriz. Gostaria de lho oferecer, sem que por tal se sinta obrigado a lê-lo, embora me pareça que haveria de gostar do referido capítulo. Se aceitar, pode enviar-me por mail um endereço?
ResponderEliminarjccatarino(arroba)hotmail.com
E desculpe a publicidade.