terça-feira, 6 de outubro de 2026

Os delírios da imprensa

 Quanto mais se afunda a viabilidade eleitoral da extrema esquerda que promove sindicatos de inquilinas e manifestações pelo controlo dos preços, mais a imprensa delira com a sua propaganda, repetindo-a.

À medida que a extrema esquerda parece perder qualquer hipótese eleitoral em França, mais a imprensa delira com os números de liceus fechados que os sindicatos de estudantes indicam (e é fácil saber, é pegar nos números oficiais, multiplicar por três, e quase sempre bate certo), da mesma maneira que não perdiam uma oportunidade, durante a campanha contra Fernando Alexandre feita na altura das correcções das provas do secundário, para ouvir a "Missão Escola Pública", que ninguém sabe o que é, o que faz e quem representa, mas tem a grande virtude de dizer o que os jornalistas querem ouvir.

Gaza é a mesma coisa, agora são as imagens de satélite que mostram bairros terraplanados, como demonstrações do grau de destruição em Gaza e não como primeira condição para dar segurança a zonas onde abundam edifícios com danos estruturais perigosos, e condição sine qua non para a futura reabilitação.

Para variar, a imprensa podia pegar neste relatório.

É o relatório oficial do Ministério da Saúde de Gaza sobre mortalidade em 2025 e está na página oficial do Ministério da Saúde de Gaza (versão em Inglês, não sei verificar se está disponível também em árabe).

Escolhi um boneco para trazer para aqui:

Seria fácil eu dedicar-me à demagogia barata e fazer notar como a percentagem de crianças mortas em Gaza em 2025 é muito mais baixa (cerca de um terço) da de 2022, antes da guerra e pôr-me a tecer grandes considerações sobre a treta da mortalidade de bebés, mas eu não sou a Francesca Albanese e portanto recuso-me a fazer demagogias desse tipo, embora de sinal inverso ao da querida Francesca.

Sem ter estudado o assunto com profundidade suficiente, suspeito que se trata apenas de um efeito estatístico: antes da guerra a mortalidade era muito menor, muito menos dependente da guerra (o relatório fala em cerca de 70% das mortes atribuídas à guerra e acidentes) e, consequentemente, a mortalidade normal acaba por ter um peso relativo menor.

Sem surpresa, partindo do pressuposto acima, são as classes de maior mortalidade, os dois extremos (crianças com menos de um ano, revelando uma elevada mortalidade infantil antes da guerra, e que se deve ter mantido, e velhos a partir dos 50 anos, crescentemente até ao grupo dos que têm mais de 75% anos), que apresentam um peso relativo menor em 2025 quando comparado com 2022, sem que isso signifique uma mortalidade menor nesses grupos (à mortalidade normal soma-se a mortalidade decorrente da guerra com tudo o que implica).

O relevante do gráfico é que a diferença de peso na mortalidade decorrente da guerra se concentra sobretudo nos grupos a partir da faixa dos 10 aos 14 (o Hamas começa a recrutar por volta dos doze/ treze anos, depois da puberdade, isto é, quando as crianças deixam de ser biologicamente crianças, mas continuam a ser administrativamente crianças, até aos 18), mas sobretudo nas faixas entre os 15 anos e os 44, o que é tanto mais notável quanto a população de Gaza se caracteriza por ter uns 50% de pessoas abaixo dos 18 anos.

O relatório, como digo, do Ministério da Saúde de Gaza, diz "These successive waves of escalation made deaths resulting from military operations the leading cause of mortality in the Gaza Strip for the second consecutive year, with the number of deaths resulting from the direct targeting of civilians reaching 17,286 cases — 70.1% of all deaths registered during the year — claiming thousands of victims, the majority of them civilians, among them large numbers of children, women, and the elderly".

É uma típica frase de propaganda que seria repetida rapidamente no Ocidente se algum jornalista lesse este relatório, mas tem dois truques retóricos.

O primeiro, uma constante da propaganda do Hamas e aliados, a de insistir que são quase todos civis, sem que haja qualquer fonte fidedigna que permita verificar se são combatentes ou civis.

O segundo, a afirmação de que entre os mortos há uma grande quantidade de crianças, mulheres e velhos, quando os números do próprio relatório são o que está acima por idades, e por sexo, cerca de 70% das mortes são do sexo masculino.

Homens e rapazes entre os 15 e os 45 anos são o grosso da mortalidade da guerra e são todos civis?

O que é extraordinário não é que o Hamas, através das estruturas que controla diga isso, mesmo quando os números do próprio Hamas dizem o contrário, o que é extraordinária é a facilidade com que no Ocidente se engole esta propaganda barata, mesmo quando são os números do Hamas, disponíveis em qualquer sítio, que dizem que é treta.

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