terça-feira, 13 de outubro de 2026

França; as chamas de ontem e os incêndios de hoje

A festa nacional francesa, celebrada a 14 de Julho, evoca a Tomada da Bastilha, um dos episódios fundadores da Revolução Francesa e, por extensão, da mitologia política moderna. Ficou consagrada como o momento em que o povo de Paris derrubou um dos grandes símbolos da «opressão monárquica».

A multidão cercou a fortaleza-prisão e a situação tornou-se progressivamente mais perigosa. Bernard-René de Launay, marquês de Launay, era o governador da Bastilha. Quando a resistência se tornou insustentável, acabou por negociar a rendição. A capitulação ocorreu na sequência de conversações e de garantias de que os defensores seriam poupados à violência da multidão.

O que aconteceu a seguir é particularmente perturbador.

De Launay foi capturado e conduzido sob escolta em direcção ao Hôtel de Ville, a sede do governo municipal de Paris. Pelo caminho, foi insultado, agredido e espancado. Nas imediações do edifício, a situação degenerou num linchamento.

O governador foi esfaqueado repetidamente e morto. Depois, um homem separou-lhe a cabeça do corpo com uma faca. A cabeça foi espetada numa lança e exibida pelas ruas de Paris, transformando a execução sumária de um homem rendido num espectáculo público de barbárie.

A imagem popular da Tomada da Bastilha apresenta-a como a libertação de um povo oprimido pelo despotismo real. A realidade daquele dia foi bastante menos grandiosa.

Quando a fortaleza foi conquistada, os revoltosos encontraram apenas sete prisioneiros. Não eram centenas de vítimas de tortura à espera de libertação, como a lenda da Bastilha poderia sugerir. Entre eles encontravam-se quatro falsificadores, dois homens com perturbações mentais e um nobre internado por decisão da família.

A dimensão lendária do acontecimento contrasta, assim, com a realidade encontrada no interior da fortaleza. Mas a verdadeira herança da Tomada da Bastilha não se esgota nesta desproporção. Está também na violência que acompanhou a vitória revolucionária e na facilidade com que a barbárie se transfigurou em heroísmo aos olhos da História.

Seguiu-se o Terror, com dezenas de milhares de pessoas guilhotinadas, e a guerra da Vendeia, onde mais de uma centena de milhar de pessoas foi chacinada.

A propósito da Vendeia, vale a pena recordar o extraordinário discurso de Aleksandr Soljenítsin, em que o escritor russo traçou um paralelo entre a repressão dos vendeanos e a violência revolucionária que, em nome de um futuro radioso, justificou os maiores crimes. É uma lição de História e de lucidez moral que deveria ser de leitura obrigatória para qualquer conservador.

A Revolução Francesa legou ao mundo uma mitologia política que ainda hoje condiciona a forma como interpretamos a História. Sob as palavras liberdade, igualdade e fraternidade, consagrou-se uma narrativa na qual a violência revolucionária surge frequentemente revestida de legitimidade moral, enquanto os seus crimes são remetidos para as margens da memória colectiva.

A França fez da Tomada da Bastilha a sua festa nacional. Há escolhas simbólicas que dizem muito sobre a forma como os povos decidem recordar o seu passado. E há mitos que, de tanto serem celebrados, acabam por tornar invisíveis os crimes que os fundaram.

Por vezes, somos vítimas dos heróis que cultivamos.

1 comentário:

  1. Muitos parabéns pelo texto. É um grande problema os franceses não saberem fazer mudanças de forma pacífica.

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