sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Tudo o que gostaria de saber sobre o amor e nunca teve coragem de perguntar


Toda a gente gostava de saber o que é o verdadeiro amor, e eu estou cá para ajudar. 

Escrevemos sobre o amor como quem descreve um filme de Hollywood. Queremos a banda sonora em surround 5.1, as reviravoltas no argumento, as portas batidas a meio da noite e as pazes feitas sob uma chuva torrencial. Há quem confunda a vertigem da montanha-russa com a profundidade do sentimento. Mas o verdadeiro amor é para audiófilos e melómanos exigentes: tem uma acústica discreta, cheia de subtilezas. Não precisa de pólvora seca. Carece, isso sim, de tempo, de conhecimento para crescer.

Há dias lia uma reflexão que me ficou a ecoar na mente como um relógio antigo: o amor exige um desprendimento cirúrgico do ego. Exige conhecer o outro não pela moldura do Instagram, mas pela textura da pele, pelas curvas e contracurvas da alma, pelo odor dos dias cinzentos e pelas fraquezas que guardamos no fundo da gaveta trancada das nossas vaidades. É uma entrega incondicional, um sacrifício glorioso.

Nestes dias supersónicos, contudo, confunde-se facilmente uma "relação fantástica" com o amor. É perfeitamente possível manter um excelente contrato de convivência, recheado de química e conveniência, sem que haja uma gota de amor real ali dentro. E é precisamente aí que entra o grande vilão mascarado de herói: o ciúme.

Porque há quem defenda, com uma ingenuidade perigosa, que o ciúme tempera a relação, que acende o rastilho, que excita, reaviva. Tolice. Enaltecer o ciúme é o equivalente a celebrar uma discussão violenta só pela promessa lúbrica da reconciliação que se segue. Patologia danosa. O ciúme não é tempero; é veneno de acção lenta. É a parte da história onde o amor capitula perante a proeminência de um umbigo. É o rugido de um predador ferido dentro de nós, que age como um paliativo existencial que mascara a mortal e gritante solidão que nos espreita a existência.

David Mourão-Ferreira, com a precisão dos poetas que melhor lêem as entrelinhas da vida, escreveu que um amor feliz não tem história. Isto dito num romance é um paradoxo. As grandes histórias da literatura vivem do obstáculo, do drama, do desencontro. O que seria se Romeu e Julieta tivessem casado com a bênção das famílias e envelhecido a discutir a decoração da casa ou o casamento dos filhos?

Mas na vida real de cada um não se quer uma tragédia. E no fundo, bem no fundo, não ter história é a melhor coisa que nos pode acontecer. O amor feliz sabota o enredo dramático porque escolhe a paz. A sua história não se escreve nos picos de febre do ciúme ou nas sensações bombásticas de uma paixão efémera. Escreve-se no silêncio fecundo do dia a dia. É um amor que não faz barulho, mas que frutifica numa boa acústica.

No final das contas, o amor que vale a pena não precisa de efeitos especiais. Basta-lhe a beleza desarmante de dois olhares que se conhecem por inteiro e que, apesar de todas as curvas e contracurvas do caminho, decidem manter o rumo. Sem drama, porque a música é boa.

Afinal, não terá sido o romance que veio dar cabo do amor?

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