Toda a gente gostava de saber o que é o verdadeiro amor, e eu estou cá para ajudar.
Há dias lia uma reflexão que me ficou a ecoar na mente como
um relógio antigo: o amor exige um desprendimento cirúrgico do ego. Exige
conhecer o outro não pela moldura do Instagram, mas pela textura da pele, pelas
curvas e contracurvas da alma, pelo odor dos dias cinzentos e pelas fraquezas
que guardamos no fundo da gaveta trancada das nossas vaidades. É uma entrega
incondicional, um sacrifício glorioso.
Nestes dias supersónicos, contudo, confunde-se facilmente
uma "relação fantástica" com o amor. É perfeitamente possível manter
um excelente contrato de convivência, recheado de química e conveniência, sem
que haja uma gota de amor real ali dentro. E é precisamente aí que entra o
grande vilão mascarado de herói: o ciúme.
Porque há quem defenda, com uma ingenuidade perigosa, que o
ciúme tempera a relação, que acende o rastilho, que excita, reaviva. Tolice.
Enaltecer o ciúme é o equivalente a celebrar uma discussão violenta só pela
promessa lúbrica da reconciliação que se segue. Patologia danosa. O ciúme não é
tempero; é veneno de acção lenta. É a parte da história onde o amor capitula
perante a proeminência de um umbigo. É o rugido de um predador ferido dentro de
nós, que age como um paliativo existencial que mascara a mortal e gritante
solidão que nos espreita a existência.
David Mourão-Ferreira, com a precisão dos poetas que melhor lêem
as entrelinhas da vida, escreveu que um amor feliz não tem história. Isto dito
num romance é um paradoxo. As grandes histórias da literatura vivem do
obstáculo, do drama, do desencontro. O que seria se Romeu e Julieta tivessem
casado com a bênção das famílias e envelhecido a discutir a decoração da casa
ou o casamento dos filhos?
Mas na vida real de cada um não se quer uma tragédia. E no
fundo, bem no fundo, não ter história é a melhor coisa que nos pode acontecer.
O amor feliz sabota o enredo dramático porque escolhe a paz. A sua história não
se escreve nos picos de febre do ciúme ou nas sensações bombásticas de uma
paixão efémera. Escreve-se no silêncio fecundo do dia a dia. É um amor que não
faz barulho, mas que frutifica numa boa acústica.
No final das contas, o amor que vale a pena não precisa de
efeitos especiais. Basta-lhe a beleza desarmante de dois olhares que se
conhecem por inteiro e que, apesar de todas as curvas e contracurvas do
caminho, decidem manter o rumo. Sem drama, porque a música é boa.
Afinal, não terá sido o romance que veio dar cabo do amor?

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