quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A literalidade e a substância

 A propósito das famosas declarações em que Itamar Ben-Gvir dizia discordar do primeiro-ministro do governo que de faz parte por entender que os combatentes anti-Israel deveriam ser mortos a um ritmo de 30 a 40 por noite, em vez de os assassinatos selectivos estarem restritos a ameaças iminentes (que é a política oficial do governo israelita), há muito quem se encarnice a garantir que ele não fala de combatentes (ou membros do Hamas), portanto está a falar de civis (que ele refere tanto como combatentes).

A substância do que diz nessa entrevista é clarinha como água, e pode-se discutir e condenar racionalmente as ideias que defende, quer porque o conceito de assassinatos selectivos, forçosamente extra-judiciais, são mais que discutíveis (e de muito difícil discussão num cenário de guerra), quer porque o risco de adoptar uma política de eliminação sistemática de colaboradores da agressão palestiniana é enorme, havendo uma probabilidade gigantesca de se assassinarem, extra-judicialmente, inocentes.

O que acontece é que na discussão sobre Israel, não basta a discussão racional, quem defende uma Palestina Livre do Rio Até ao Mar, isto é, quem defende o genocídio dos judeus no médio-oriente (o que não faltam são declarações nesse sentido de responsáveis políticos e militares na região, incluindo países que adoptam esse princípio como política de Estado, como o Irão) não está interessado em discussões racionais e negociações, está interessado em esmagar Israel e, preferencialmente, expulsar os judeus da região (já foram expulsos, ou convidados a sair, de quase todos os países do Médio-Oriente, por exemplo, o avô de Bem-Gvir era um judeu iraquiano que resolveu mudar-se para um sítio onde os riscos para os judeus fossem menores).

Para isso precisa de minar o apoio do Ocidente à única democracia da região, visto que nas inúmeras vezes que tentaram destruir o Estado de Israel pelas armas, perderam sempre.

Parece-me que a generalidade dos israelitas sabem que Golda Meir estava carregada de razão quando disse que se os árabes depusessem as armas a guerra desaparecia, mas se os israelitas depusessem as armas era Israel que desaparecia, o que torna todas as guerras em que os vizinhos forçaram Israel a participar, em guerras existenciais.

É por isso que apesar de ser evidente que Ben-Gvir estava a falar de combatentes (do Hamas ou não, há mais grupos armados por ali), a generalidade da imprensa ocidental e seus consumidores insistem em dizer que ele estava a defender o abate indiscriminado de 30 a 40 palestinianos por noite, sem que ninguém tenha uma explicação lógica para alguém defender essa barbaridade.

Esta opção pela literalidade é uma opção política assente num critério duplo (para os inimigos de Israel a literalidade não é relevante, para o outro lado a literalidade é usada sempre que dá jeito para criar animosidade contra o governo israelita) e está muito, muito difundida (os jornalistas são viciados na leitura de jornais e, com o tempo, passam a reproduzir-se uns aos outros, sem o mínimo cuidado em relação ao viés de confirmação que todos temos).

Um outro bom exemplo, mais relevante porque não são declarações de um mané qualquer, mas decisões do Estado de Israel, é o que se passa com a aprovação de legislação que permite aplicar a pena de morte aos participantes no 7 de Outubro.

Sou contra a pena de morte e por isso discordo radicalmente da aprovação dessa lei.

Mas isso não é suficiente para aceitar o que tem sido escrito sobre essa lei pela generalidade do jornalismo.

O mais suave é classificar-se a lei como controversa, sem explicar que a lei foi aprovada sem votos contra, com 90 votos a favor, do Governo e da oposição, havendo vinte e picos deputados que ou se abstiveram ou saíram da sala no momento da votação, portanto não se entendendo por que razão se diz que a lei é controversa.

O mais comum é ver gente a escrever que Israel aprovou uma lei que permite condenar palestinianos à morte.

É um facto, a lei permite condenar palestinianos à morte, porque a generalidade dos participantes no 7 de Outubro são palestinianos, só que dizer que o governo israelita aprova uma lei para condenar palestinianos à morte é o mesmo que dizer que as leis anti-máfia são leis dirigidas a descendentes de italianos.

Francamente, esta literalidade de leitura, a mesma que passa a vida a falar no número de crianças mortas em Gaza, sem explicar que o conceito de criança aqui usado não é o conceito canónica (a pessoa antes da puberdade) mas o conceito administrativo de pessoa até aos 18 anos.

Ora sendo a percentagem da população de Gaza até aos 18 anos à volta dos 50%, e tendo os grupos armados uma política de recrutamente que começa por volta dos 12 anos, é evidente que haverá sempre muitas crianças (no conceito administrativo descrito) mortas numa guerra urbana, numa zona de elevada densidade populacional e em que não existe um exército formal mas grupos armados que adoptaram uma estratégia de mistura dos seus combatentes com os civis, para proteger os combatentes e potenciar o número de vítimas civis, o que é usado amplamente na sua propaganda no Ocidente.

Perder tempo a discutir a literalidade do que cada maluco diz na região é uma perda de tempo.

11 comentários:

  1. Absolutamente
    Aliás, quem conhece o percurso político e social de Ben-Gvir, tal como o hps ( e ao contrário dos JMT, que se limitam a ver uns vídeos e ler umas entradas na wiki), sabe que essas interpretações literais estão desprovidas de qualquer base factual.
    Excelente texto

    ResponderEliminar
  2. Tento contorcionismo até faz impressão.
    Matar pessoas sem julgamento é assassínio, quem promove assassínios é um assassino, independentemente de ser do Hamas ou do Governo de Israel.
    O modo que Israel tem de acertar sempre só e exclusivamente em terroistas com as suas bombas é infalível: Bombardeia as pessoas e depois diz que todos os que morreram são terroristas, mesmo que sejam mães e recém-nascidos em maternidades.
    É a única explicação que Ben-Gvir tem para saber antecipadamente quem as bombas vão matar.
    O atual governo israelita já disse, através de vários ministros, incluindo o primeiro ministro que é contra a solução de dois estados separados. Considera que isso é uma prova de terrorismo, ou o raciocínio só se aplica a palestinianos?
    Não percebi o seu último parágrafo, parece que diz que é legítimo bombardear qualquer pessoa com mais de 12 anos. Incluí pessoal médico e jornalistas, ou é só para a população em geral?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Matar pessoas sem julgamento é assassínio"
      Porquê? È guerra.
      Sim eu sei que pretendem fazer lawfare. Os PalestinIanos não usam farda para ao mesmo tempo porem em perigo os próprios civis e os seus apoiantes poderem reclamar que não fazem guerra.
      O que demonstra a venalidade.

      "Considera que isso é uma prova de terrorismo, ou o raciocínio só se aplica a palestinianos?"
      A partir do momento em que todas as concessões de Israel - Gaza é um bom exemplo, o Sul do Líbano outro - tem como retorno ainda mais violência obviamente que só um doido vai deixar nascer ao lado um estado para o destruir.
      A França e os Aliados nunca teriam deixado de ocupar a Alemanha se os Nazis tivessem o poder de volta caso saíssem de lá.
      Como você não está interessado em 2 estados obviamente que esse facto é irrelevante para si.

      Eliminar
    2. Se matar pessoas é legítimo porque há uma guerra está a justificar o Hamas.

      Se o assassínio de pessoas indiscriminadamente pelo Hamas justifica que se recuse a solução de dois estados, está mais uma vez a justificar o Hamas quando este diz que não pode haver um estado junto a eles governado por assassínos.

      Neste momento a diferença entre o Hamas e o Governo Israelita está apenas no número de armas que possuem.

      Dois estados soberanos significa que é o povo desses estados que decide quem os governa, é essa a definição de soberania. Israel parece pretender uma Palestina livre com um governo escolhido por Israel, o que é idiota.

      Eliminar
    3. Não foi só o meu último parágrafo que não percebeu, aparentemente não percebeu nada do que se passa na região, o que não é de estranhar porque se de um parágrafo tão simples consegue extrair uma interpretação tão exótica, calculo que numa situação complexa como a do médio-oriente, a sua cabeça comece a doer a sério.

      Eliminar
    4. Hps tem de perdoar o A(s)nónimo anterior, nem todos têm formação em geopolítica, para lá da wikipedia e tiktok.

      Eliminar
    5. "Se matar pessoas é legítimo porque há uma guerra está a justificar o Hamas."

      Então quando os Aliados quiseram matar o Rommel (operações Clipper e Gaf) ficou justificado o Nazismo.

      Escusa de usar desculpas esfarrapadas para o seu apoio á barbarie do Hamas.

      Eliminar
  3. E assim mais uma vez se demonstra que o ódio aos Judeus é em boa parte provocada por uma boa jornalistas ocidentais.

    ResponderEliminar
  4. Aliás, o facto dos jornalistas darem relevo ás declarações do Ben Gvir, neste caso até as manipularam.
    Mas ao mesmo tempo escolherem estar calados sobre das declarações dos Palestinianos: Hamas,Jihad, Fatah.. demonstra mais o vez que não fazem jornalismo mas activismo.

    E tal é uma escolha dos jornalistas. E torna-os como um dos causadores do ódio aos Judeus.

    ResponderEliminar
  5. A censura é uma forma de cobardia, mas não acontece por acaso, nem se reduz a uma questão de carácter. Neste caso, é a melhor prova de que o autor do post anda, deliberada e conscientemente, a encobrir um genocídio.

    ResponderEliminar

Obituário

  Esta é uma fotografia de filhos e sobrinhos, a que só falta uma das minhas filhas para quem foi impossível gerir a complexidade logística ...