Esta é uma fotografia de filhos e sobrinhos, a que só falta uma das minhas filhas para quem foi impossível gerir a complexidade logística das famílias com várias crianças pequenas.
Tenho a certeza de que o meu irmão se riria do comentário de um dos filhos à fotografia “está com as cores da família Adams” e teria apreciado a ironia de ser preciso um enterro para ser possível uma rara fotografia dos primos todos, a reclamar da chuva, da falta de luz, da incerteza do esforço para ficar uma fotografia de jeito, da urgência para voltar à gestão das respectivas famílias.
É verdade que já há muito tempo que o João vivia num mundo fechado, só dele, onde ainda se encontrava, aqui e ali, o sólido humor que sempre teve, e breves ligações à terra, como quando o Alan lhe perguntou “are you thirsty?” e, para nossa surpresa, respondeu, sumidamente, “more or less”.
Tenho pena, e ele também teria, que só ele soubesse russo, o que nos impedia de ir a todas as línguas que falava para ver se alguma réstia de memória no-lo trazia de volta por segundos, como quando no último Natal espantou o nevoeiro das memórias para acompanhar brevemente as cantorias.
Mesmo a arma mais eficaz para furar a muralha de comunicação que ia crescendo, a presença dos netos, foi perdendo eficácia, para acabar nestes duros dias finais em que até o extraordinário estoicismo da minha cunhada abriu brechas.
Certo, certo, é que teria ficado satisfeito por ver a família com ele, ontem, mais os amigos também, anteontem, porque sempre soube que se é mais em conjunto, mesmo que no conjunto faltemos nós.
É certo que somos muitos, mas dificilmente qualquer um de nós disputaria este título, numa família em que estas coisas, habitualmente, não se dizem.
Ontem foi o enterro do mais amado dos meus irmãos.

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