quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Ainda sobre "O vício dos fundos europeus"

 Tenho reparado que há bastantes equívocos sobre o livro de Nuno Palma (alguns mesmo sobre Nuno Palma e o que tem defendido) mais recente.

Também havia sobre o anterior, "As causas do atraso português", mas esse foi um livro que vendeu muito e teve bastante discussão, ao contrário deste, o que permitiu que circulasse informação mais diversificada sobre o livro.

É natural que um livro com um âmbito mais restrito e mais técnico, como a discussão sobre os efeitos dos fundos de coesão europeus suscite menos interesse geral e, consequentemente, menos discussão.

O que não é natural é a forma frequente como o livro é tratado como se fosse uma defesa da ideia de que os fundos de coesão são o novo ouro do Brasil na economia portuguesa.

Repare-se no que transcrevo.

"A "indústria dos fundos" - o grande número de consultores, avaliadores e burocratas a nível nacional associados à existência, gestão e suposta monitorização dos fundos (nota minha, o livro argumenta longa e fundadamente sobre a monitorização, justificando de forma sólida o "suposta" desta frase) - é, em si mesma, uma indústria não transacional bastante dispendiosa. Em geral, a disponibilidade de oportunidades associadas aos fundos leva os indivíduos a investirem capital, e tempo, na tentativa de captar esses fundos, em vez de procurarem opções alternativas e, provavelmente, mais produtivas em termos sociais. O aspecto económico da maldição dos recursos é talvez a dimensão mais intuitiva deste fenómeno.

Os aspetcos políticos, que serão analisados de seguida, são mais subtis. No entanto, provavelmente, têm implicações mais profundas a longo prazo".

Muito longe da ideia de que o livro se limita, ou se dedica predominantemente, a tentar demonstrar que os fundos comunitários são o novo ouro do Brasil, o livro não descarta a analogia, mas a discussão é sobre os efeitos que se conseguem medir da política europeia de coesão, dedicando bastante atenção à discussão das condições institucionais que parecem beneficiar, ou prejudicar, os resultados pretendidos com política europeia de coesão.

Pessoalmente posso testemunhar o efeito institucional destrutivo que a facilidade de acesso a financiamento teve no movimento ambientalista, contribuindo fortemente para a sua actual dissonância cognitiva em relação à realidade e a sua quase completa falta de enraízamento social.

Repito o que já tenho escrito sobre Nuno Palma: não sei o suficiente para saber se tem razão em tudo o que escreve (estranho seria que alguém tivesse sempre razão em tudo), mas sou suficientemente ignorante dos problemas que estuda para beneficiar bastante com a sua leitura.

E lamento que a sua posição liberal e bastante iconoclasta em relação à nomenclatura do regime, em especial a da academia e do jornalismo, acabe por prejudicar o benefício social potencial que resulta de ler, discutir e contestar, se for o caso, o que tem escrito, em grande parte, parece-me, através de um ostensivo boicote por parte de alguma imprensa. 

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