segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A desigualdade e a injustiça relativa

Na gestão do processo de transição da classificação de exames para o digital, há um argumento recorrente que me remete para uma constante recordatória do meu pai: o óptimo é inimigo do bom.

O argumento é de que tudo isto foi muito mau, e não há vantagem final para o futuro que o justifique, porque era possível fazer essa transição sem os erros cometidos.

Não poderia estar mais de acordo, em tese, parece-me incompreensível que não tenha existido um help desk de apoio aos professores, mesmo sabendo que não seria de grande utilidade prática, provavelmente - os problemas dos classificadores não eram tecnológicos, mas estavam a montante na forma como os exames entravam na plataforma de classificação -, entre outras coisas que, visto de fora, à posteriori, parecem revelar alguma fé excessiva no processo que tinha sido montado, esquecendo a famosa lei de Murphy: tudo o que pode correr mal, tende a correr pior (o senhor Murphy trabalhava mesmo em rocket science, ou melhor, na segurança da aplicação da ciência de foguetões à prática da sua construção, sabia bem quantas vezes as melhor ciência e engenharias esbarravam com os mais estúpidos e banais erros humanos).

O que o ministério tem dito é que nenhum aluno será prejudicado, isto é, um erro detectado é sempre corrigido da forma mais favorável ao aluno.

Acontece que como um grande número de erros será detectado por intervenção directa do prejudicado, que tem direito a reclamar, num ano em que há um número de erros excepcionalmente alto, muitos erros poderão não ser detectados porque os beneficiários de um erro raramente reclamam.

Num caso desses, como se trata de um processo de seriação, ou seja, de comparação relativa para saber quem é o primeiro que não cabe nas quotas disponíveis, o prejudicado pode não ser um aluno que é vítima directa de um erro de que pode reclamar, mas sim a vítima indirecta, e indefesa, de um erro que beneficiou outro aluno que não reclamou e, com isso, lhe passou à frente.

Este contexto justifica as posições amargas de muitos alunos e famílias que acabam a concluir, com alguma razão, de que se é para comparar resultados, então nunca houve um resultado tão mau do processo de classificações de exames nos últimos dez anos.

A razão que lhes assiste é a mesma que assiste a uma mulher que espera um parto sem dor e, afinal, acaba metida num parto de mais de 12 horas, sem epidural, que só muito mais tarde se convence, se alguma vez fica convencida, de que o nascimento da criança compensa largamente as dificuldades do processo.

Se se pretender discutir o que se passou, tendo como termo de referência o óptimo, não há defesa possível para o que se passou com os exames deste ano, tendo em atenção a tranquilidade dos últimos dez anos.

Isso, no entanto, implica desvalorizar dois aspectos relevantes para comparar o antes e o depois do processo de transição, sobretudo para quem, como eu, achar que o meu pai tinha razão: o óptimo é inimigo do bom, e quem só aceitar o óptimo, dificilmente fará alguma coisa boa (se é que fará alguma coisa).

O primeiro aspecto, muito relevante, é que a tranquilidade dos últimos dez anos assentava, em grande medida, na ignorância, a existência de erros era muito mais difícil de detectar e, consequentemente, a tal injustiça relativa de se ser prejudicado porque alguém foi indevidamente beneficiado, existiria com certeza, mas era muito menos visível (com certeza que quanto maior for o número de erros, mais provável é que isso aconteça).

O segundo aspecto é que, como a segunda fase parece demonstrar, para o futuro, há ganhos relevantes.

Repito, se era possível fazer a transição sem erros da dimensão dos que foram cometidos?

Sim, em tese, era.

Se é isso que se verifica habitualmente na administração pública?

Não, não é, o que se verifica, muito frequentemente, é que o medo dos erros, em parte resultantes de uma administração pública muito fragilizada, paralisa a decisão, em especial a decisão política, pelo que alternativa mais frequente ao que aconteceu não é obter o mesmo resultado com menos erros, a alternativa tem sido não fazer evoluir os processos, com medo dos custos inerentes aos erros.

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