Um dia destes, depois de eu ter feito uns comentários favoráveis à coerência e consistência estratégica que os EUA têm vindo a demonstrar na guerra com o Irão (que dois artigos de Bernardo Ribeiro da Cunha me ajudaram a nomear, falando da vitória da contenção), um amigo meu disse ironicamente qualquer coisa sobre o meu apoio a Trump.
Acontece que reconhecer que a consistência estratégica dos EUA no Irão não tem qualquer relação com apoios ou desapoios a Trump.
As pessoas não são indiferentes, não será igual estar Trump ou Obama a tomar decisões nesta guerra, mas eu não acho que os governantes sejam inteiramente livres nas suas decisões, nem Trump, nem mesmo Khamenei, Putin ou Xi Ji Ping, todas estas pessoas, e mais as que governam países democráticos, como Trump ou Nethanyahu, tomam decisões dentro de contextos sociais e políticos que limitam a sua vontade de fazer isto ou aquilo.
A doutrina de contenção, para usar a expressão de Bernardo Ribeiro da Cunha nos artigos que citei, é visível na intervenção na Venezuela (Maduro é removido, mas não se mexe mais que o necessário para que o regime se alinhe com os interesses ocidentais), em Cuba (não há intervenção directa, mas um dos efeitos da mudança Venezuela é a capitulação do regime cubano que as reformas apresentadas pelos seu presidente representam) ou no Irão, não são possíveis de ser desenhadas e aplicadas porque um dia o presidente dos EUA, seja ele qual for, acordou e decidiu isto ou aquilo.
Atribuir a Trump a decisão final de lançar uma ofensiva no Irão é razoavelmente correcto - no topo do processo de decisão ele poderia decidir o contrário - mas pensar que é Trump que orienta todo o processo de decisão que culmina na sua decisão final, é achar que os governos mandam muito mais do que realmente mandam.
Achar que Trump pode acordar um dia e dar ordens para invadir o Canadá, sem que chefias militares se demarquem, se demitam, etc., etc., etc., é ter uma visão cesarista do poder que não entendo.
Há razões de Estado, que uns consideram certas, outras erradas, bem profundas para que a decisão de atacar o regime iraniano tenha surgido, ganho consistência, tenha sido planeada por todo um aparelho militar e executada de forma irrepreensível, independentemente do presidente que ocupa a Casa Branca em cada momento.
Achar que Trump é um génio que pensa e leva a cabo a alteração geoestratégica que está a ocorrer no Médio Oriente (com efeitos reais nas posições dos países do Golfo em relação a Israel e, mais ainda, no reconhecimento formal que o Líbano acabou de fazer da existência do Estado de Israel), ou que é um completo idiota narcisista que decide coisas tontas e evidentemente estúpidas como atacar o Irão, é atribuir-lhe poderes quase sobre-humanos que ele não tem.
Trump é simplesmente o presidente dos Estados Unidos, um homem comum que temporariamente ocupa um cargo político importante, não é totalmente irrelevante, claro, mas está muito longe de ter a liberdade de pensar, programar e executar uma intervenção geoestratégica como a que os Estados Unidos estão a executar na América Latina e no Médio Oriente.
Olhar para os resultados dessa estratégia, sendo um leigo como eu, e achar que as coisas estão a correr bastante bem para o Ocidente, não implica, da minha parte, qualquer alinhamento com Trump e afins.
HPS, que tem razão, parece ignorar que a decisão de atacar o Irão, foi proposta ainda na presidência Biden, já perto do final o que confirma a sua tese..
ResponderEliminarSim, não sabia, eu sou muito ignorante nestas matérias
EliminarInteiramente de acordo.
ResponderEliminarOs Chefes de Estado não são personagens solitários tomando decisões do alto da sua torre.
Estão rodeados de estados maiores que os assessoram técnica e politicamente, tem aconselhamento especializado nos campos mais variados, etc.
Pintam de Trump coisas estapafúrdias mas isso diz mais dos comentadeiros que de Trump
Trump já era um personagem de relevo, antes de ser Presidente, viajava no seu Boeing 757 pessoal, antes de ser Presidente, era milionário antes de ser Presidente, e personagem assíduo na Imprensa antes de ser Presidente.
E já provocava muita comichão e até dor em cotovelos antes de ser Presidente.
Trump não tem culpa absolutamente nenhuma, que haja gente pequenina por fora e ainda mais pequenina por dentro, neste mundo.
Eu não estranho que publiquem muitos textos cheios de nada que não precisamos ler. Parece que o objetivo é criar diversões e manter alguns ocupados e longe do que é importante.
ResponderEliminarNão acha que os comentários na TV sobre estes e outros assuntos já são demais e muitos deles também estão cheios de nada?
Exacto. Trump é o PR dos EUA. A administração Trump óbviamente tem dados sobre o invulgar desenvolvimento de armamento nuclear e balístico do Irão e conhecimento sobre a mandatória, expressa decisão de destruir o "pequeno e o grande Satã".
ResponderEliminarObama entregou, ingenuamente, uma fortuna aos aiatolas que, claro, continuaram a desnvolver o seu poder militar de características agressivas, não-defensivas.
Trump não é de esquerda, o que esplica certas matemáticas opiniões anti-Trump, sendo que o TDS, o doentio anti-Trumpismo, é apenas o actual produto, secondário, do anti-USA da esquerda simplória.