Qualquer marxista clássico sabe que a primeira responsabilidade de um adulto capaz é prover-se a si próprio, daí conhecer o princípio básico de a cada um segundo as suas necessidades, de cada um de acordo com as suas capacidades.
A esquerda actual, que trocou Marx por uma vulgata de defesa cega do Estado, pelo contrário, acha que admitir o princípio de que um adulto capaz que recebe prestações sociais deve dar um retorno de 15 horas semanais à sociedade é um ataque aos mais pobres.
Marx bem dizia que a libertação dos trabalhadores seria obra dos próprios trabalhadores, esta esquerda estatista, pelo contrário, acha que uma opção que depende da vontade dos trabalhadores é um ataque que o Estado deve impedir, como no caso do banco de horas.
Não admira, por isso, que onde Marx entendia que o Estado era um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes, que desapareceria numa sociedade comunista, esta esquerda actual ache que o Estado é o garante do bem comum que deve ser defendido, mesmo contra os trabalhadores.
A esquerda está a desaparecer em muito lado, e por boas razões.
o princípio de que um adulto capaz que recebe prestações sociais deve dar um retorno de 15 horas semanais à sociedade é um ataque aos mais pobres
ResponderEliminarNão é um ataque aos mais pobres, mas creio que trabalho prestado de má vontade e sem motivação só pode dar mau resultado.
A Esquerda, vasse lá saber Porquê faz o que pode e o que não pode para ser irrelevante.
ResponderEliminarO Bloco das Mortáguas já foi, o PS está quase.
Força irmãos.
Já falta pouco pouco para a insignificância absoluta
Unidos conseguiremos
"Qualquer marxista clássico sabe que a primeira responsabilidade de um adulto capaz é prover-se a si próprio." Não sabe nada disso, porque isto não é Marx. Fazer da auto-suficiência o primeiro mandamento moral é naturalizar exactamente aquilo que Marx passou a vida a desmontar: o trabalho assalariado como horizonte único da existência. O trabalhador de Marx não se "prove a si próprio" — está separado dos meios de produção e por isso obrigado a vender a força de trabalho, a única coisa que lhe resta. Quem transforma a auto-suficiência em dever primeiro está a citar o patrão, não Marx.
ResponderEliminarDepois vem o pior. "A cada um segundo as suas necessidades, de cada um de acordo com as suas capacidades" é da Crítica do Programa de Gotha, e Marx não deixa margem para equívoco: descreve a fase superior do comunismo, quando o trabalho deixou de ser meio de vida e se tornou a primeira necessidade da vida. É a descrição de um estado de abundância emancipada, não uma condição a impor a quem recebe subsídio. Pegar nesse princípio e lê-lo como "dá cá as 15 horas senão não comes" é inverter-lhe o sentido — transformar a divisa de uma humanidade liberta num chicote para desempregados.
E há a contradição que passa despercebida ao texto. Invoca, e bem, Marx para quem o Estado é instrumento de repressão de classe, destinado a definhar. Só que a condicionalidade que defende — o retorno obrigatório das tais horas — é Estado. É o Estado a disciplinar o pobre sob ameaça de fome. Critica a esquerda por estatista e propõe um estatismo punitivo. Não é menos Estado que aqui se quer, é um Estado que aponta para baixo.
Quanto à "libertação dos trabalhadores [como] obra dos próprios trabalhadores", vem dos Estatutos da Internacional e significa acção colectiva e organizada contra o capital. Não é o indivíduo a aceitar trabalho coagido em troca da subsistência, com o Estado a fazer de capataz. Chamar a isto "uma opção que depende da vontade dos trabalhadores" é a parte mais desonesta de tudo: não há vontade nenhuma onde a alternativa é não comer. Escolha sob coacção não é escolha.
Existe uma discussão séria algures por baixo disto — a tensão entre o assistencialismo incondicional e uma tradição laboral que desconfiava da dependência, o debate entre garantia de emprego e rendimento incondicional. Mas o texto não faz esse argumento, faz o barato. Troca "todos têm direito a trabalho digno" por "prova que mereces comer". Cada citação aparece amputada das condições materiais que lhe davam sentido, Marx reduzido a um stock de máximas avulsas prontas a servir uma conclusão decidida antes de se abrir o livro.
A frase final — "a esquerda está a desaparecer em muito lado, e por boas razões" Está a desaparecer, sim. Mas não por recusar workfare. Desaparece quando deixa de distinguir um argumento de uma fantasia, e quando deixa que textos como este lhe roubem o vocabulário sem dar pela falta. O problema não é defender o Estado. É já não saber para que serve.
Obrigado pela demonstração prática da treta sofística da esquerda, começando logo na primeira frase, visto que prover-se a si próprio não tem qualquer relação com a autossuficiência.
EliminarDa mesma forma, não há qualquer referência ao trabalho assalariado.
As duas distorções servem para depois vir com as aldrabices do costume: em lado nenhum está escrito "dá cá as 15 horas se não, não comes", o que está escrito é que o princípio de dar retorno à sociedade, quando se tem capacidade para isso, é um bom princípio que Marx subscreveria sem margem para dúvidas, ao contrário desta esquerda que substitui a libertação dos trabalhadores pela obrigação do Estado conduzir, paternalmente, a vida das pessoas comuns.
Não admira, por isso, que onde se fala da vontade dos trabalhadores a propósito do banco de horas, se pretenda aldrabar os outros fingindo que se refere às quinze horas de trabalho em troca do apoio que a sociedade dá numa altura de fragilidade.
A esquerda está a desaparecer exactamente por causa deste tipo de desonestidade.