segunda-feira, 22 de junho de 2026

"A guerra correu mal"

Li esta frase num texto de um comentador que leio habitualmente com gosto e proveito, no meio de outras como "segundo qualquer observador vagamente sensato, esta guerra não foi outra coisa se não uma absoluta inutilidade".

A análise feita ao actual momento da guerra do Médio Oriente segue o habitual modelo de esquecer a realidade no terreno e focar-se na contestação à retórica de Trump.

Na base deste tipo de análises está uma obsessão excessiva com Trump e com a sua retórica e ideias que se compreendem melhor em algumas peças que supostamente não são de opinião.

"Esta decisão é tomada depois de a missão da ONU no Líbano ter anunciado que não se registou qualquer ataque das forças israelitas no Líbano pela primeira vez desde março, o que parece indicar que o cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah parece estar a ser cumprido.

Também o Hezbollah não lançou qualquer ataque este domingo contra território israelita."

Aparentemente, o jornalista que escreve isto acha que no Sul do Líbano é Israel de faz ataques de que o Hezbollah se defende, e não o contrário, é o mais poderoso exército irregular do mundo, armado, treinado e financiado pelo Irão que, há anos, não reconhece a autoridade do Estado libanês e usa o Líbano para atacar de forma reiterada Israel com o objectivo de destruir o Estado de Israel (ou a entidade sionista, como se prefira chamar, o que é inequívoca é a vontade de destruir o Estado judaico, libertando todo o território do rio até ao mar, através da expulsão dos judeus).

Netanyahu, aparentemente, tem uma visão diferente destas visões centradas na retórica de Trump e numa ideia de que Israel está a atacar e não a defender-se.

"as operações das Forças de Defesa de Israel (IDF) no Irão “mudaram a doutrina de segurança do país”. De agora em diante, Israel atacará primeiro.

“Nós começamos, nós atacamos, nós surpreendemos e atacamos os inimigos que procuram a nossa destruição, que nos querem matar. Nós atacamo-los antes que eles tenham a hipótese de o fazer. Matamo-los primeiro”, sublinhou Netanyahu, citado pelo Haaretz, durante um discurso na conferência do Sindicato da Imprensa Judaica.

“Durante anos, disseram-nos que não podíamos atacar o território iraniano. ‘Sim, podem realizar operações com a Mossad’, e fizemos várias. Eu autorizei muitas, mas não podíamos enviar as nossas forças armadas para Irão. Mas mudámos isso”, realçou o chefe de governo israelita, acrescentando que as forças israelitas destruíram diverso material militar iraniano e mataram cientistas nucleares.

“Decapitámos a liderança do regime terrorista. Destruímos sua indústria de mísseis. Acabámos com a marinha. Acabámos com a força aérea. Atacámos as indústrias militares. Atacámos as pontes”, realçando vai demorar “muito tempo” até que o Irão consiga recuperar dos danos causados pelos ataques israelitas."

Mesmo descontando a retórica, é um facto que o Irão perdeu quadros relevantes, quer políticos, quer no domínio da física nuclear, é um facto que a liderança iraniana perdeu coesão e coerência, é um facto que a indústria militar foi muito afectada (será um evidente exagero dizer que foi destruída), é um facto que a marinha e aviação iranianas, incluindo o sistema de defesa aérea, estão praticamente destruídos e é muito provável que demore bastante tempo até que o Irão se recomponha e refaça a sua rede de marionetes que desestabilizaram vários países nas últimas décadas, representando uma ameaça crescente para a segurança de Israel, protegidos por uma doutrina de contenção que levou Israel a apenas agir depois de atacado (ao contrário do que aconteceu agora no Irão), a retirar de Gaza, a fazer acordos de devolução de territórios ocupados (ocupados depois das guerras desencadeadas pelos vizinhos) como o Egipto, Síria, Líbano e etc..

E é um facto que a influência crescente da China na região sofreu um abalo profundo, e sofrerá com a reentrada do Irão no mercado do petróleo.

Falar nesta guerra no passado parece-me manifestamente imprudente, a guerra não acabou, mesmo opções estratégicas que o Irão usava como ameaças, como o fecho do estreito de Ormuz, vieram a revelar-se desastrosas para o Irão quando a marinha dos Estados Unidos impôs um bloqueio naval que tornou a opção de fechar o estreito difícil de sustentar por parte do Irão.

Dizer que correu mal, quando quase não existem baixas nem perdas de equipamento relevantes (existe sim uma questão com a produção de munições em que o Ocidente pareceu frágil) para os EUA e Israel, e o Irão passou a ter muito limitadas as suas opções militares e, consequentemente, políticas, acho que só mesmo esquecendo a realidade e discutindo a retórica de Trump.

A mim, francamente, a retórica de Trump interessa-me tanto como a retórica do Irão, isto é, nada.

23 comentários:

  1. não reconhece a autoridade do Estado libanês

    Deixa-me perplexo como é que há pessoas que em termos de política interna são liberais e contra o Estado, já quando passam à política internacional se tornam verdadeiros adoradores do Estado.

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    1. A mim deixa-me perplexo a tua necessidade de dizer parvoíces só para parecer a estrela da companhia

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  2. é um facto que a liderança iraniana perdeu coesão e coerência, é um facto que a indústria militar foi muito afectada, é um facto que a marinha e aviação iranianas, incluindo o sistema de defesa aérea, estão praticamente destruídos

    Não sei de onde conhece o Henrique todos estes "factos".

    Eu, que não tenho ligação a quaquer serviço secreto e que não acredito naquilo que os Estados dizem, não sei se estes "factos" o são ou não.

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    1. Pois, quando eu fecho os olhos, também tenho dificuldade em saber se o Sol existe

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  3. a marinha dos Estados Unidos impôs um bloqueio naval que tornou a opção de fechar o estreito difícil de sustentar por parte do Irão.

    quase não existem baixas nem perdas de equipamento relevantes


    As guerras regem-se por objetivos. Não interessa muitos saber se as baixas e as perdas de equipamento foram muitas ou não, o que interessa é saber se os objetivos foram atingidos ou não.
    (O caso mais relevante para ilustrar isto foi a guerra do Vietname. O Vietname terá sofrido nessa guerra umas 50 vezes mais baixas do que os EUA. No entanto, quem ganhou a guerra foi o Vietname, na medida em que foi esse Estado quem alcançou o seu objetivo.)
    Ora, olhado para os objetivos, eu diria que o principal objetivo de Israel e dos EUA era destruir ou domesticar a liderança do regime iraniano, ou seja, promover uma operação de mudança de regime. Esse objetivo não foi alcançado - embora muitos dos anteriores líderes iranianos tenham sido mortos, o regime manteve-se. Nesse sentido, que a meu ver é o principal, a guerra foi vencida pelo Irão.

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    1. O principal objectivo do Irão (em política externa), há quase cinquenta anos, é destruir o Estado de Israel.
      Hoje está mais longe desse objectivo do que estava no dia 1 de Janeiro deste ano.

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  4. Parece-me muito bem que Israel opte por uma Estratégia, claramente ofensiva.

    Os judeus e o Estado de Israel tem passado a vida a levar porrada.

    Os Árabes e outra "gente de bem" daquela Zona, agem como se Israel, por Decreto Divino, tivesse nascido para Bombo da Festa, e certa Esquerda tipo "flotilha" manifestamente acha o mesmo.


    Israel tem todo o Direito de Existir.

    Israel tem todo o Direito de se Defender e isto inclui atacar sempre que necessário.

    Os "Bem Pensantes" esquecem deliberadamente que os Israelitas foram vítimas de um ataque, nojento, cobarde, não provocado e traiçoeiro.

    Mas esse ataque dá a Israel o Direito de retaliar, e parece-me bem que o faça com força, porque é infelizmente, a única Linguagem que os peçonhentos entendem.



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  5. A forma como os Estados Unidos lidaram com a tomada do Estreito de Ormuz pelo Irão levou os líderes mundiais, especialmente os da Ásia, a concluir que a opinião pública americana não está disposta a suportar os transtornos da guerra e que os EUA não dispõem dos recursos necessários para travar guerras em duas ou mais frentes, pelo que não têm o que é preciso para lutar pela manutenção do seu império. Esta situação assemelha-se muito à forma como os britânicos lidaram com a tomada do Canal do Suez pelo Egito, o que marcou o fim do Império Britânico. Mais especificamente, é agora inconcebível que a opinião pública americana apoie uma resposta militar dos EUA às pressões chinesas a) dirigidas a Taiwan ou b) contra países que estão a tentar conter a China. Isto alterou o pensamento e as ações dos líderes de países que são aliados dos EUA e que acolhem bases americanas como contrapeso à China, partindo do pressuposto de que os EUA os protegerão. Obviamente, isto tem grandes implicações para a ordem geopolítica mundial, especialmente para Taiwan, o Japão, as Filipinas e, em menor grau, outros países asiáticos. Esta mudança tem-se refletido nas numerosas visitas a Pequim por parte de chefes de Estado e das suas delegações, com o objetivo de estabelecer relações de tipo tributário com o Presidente Xi, mas o reflexo mais significativo desta mudança foi o facto de o Presidente Xi ter deixado claro ao Presidente Trump, sob a forma de uma ameaça velada, que as vendas de armas planeadas pelos EUA a Taiwan não seriam bem vistas pela China.

    The Tribute System: The New World Order
    https://www.linkedin.com/pulse/tribute-system-new-world-order-ray-dalio-kraac

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    1. Li, reli, procurei, voltei a procurar e não encontrei um único facto relevante nesse comentário. Pode ser tudo verdade, claro, mas é apenas a opinião de um mané qualquer

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    2. O que é relevante é que, ao contrário do que escreve, a China ganhou poder com esta guerra, não só em termos geopolíticos (com o enfraquecer da dependência de países do Médio Oriente e dos países asiáticos nas proximidades em relação à proteção providenciada até aqui pelos Estados Unidos, e consequente aproximação à China) mas também económicos (com o aumento da exportação de tecnologias não depedentes de combustíveis fósseis, p.e. painéis solares, baterias carros elétricos, etc.). Aqui um exemplo: https://abcnews.com/International/wireStory/high-oil-prices-drive-surge-chinese-electric-vehicle-134086569

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    3. Não consigo colar aqui o gráfico, mas veja o último boneco deste link: https://www.rbc.com/en/thought-leadership/climate-action-institute/energy-reports/red-power-how-the-hormuz-crisis-is-accelerating-chinas-clean-tech-dominance/

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    4. Tudo opiniões de analistas (que já dizem isso há anos).
      Os factos é que a China comprava petróleo iraquiano com desconto (cerca de 12% das importações chinesas e 80 a 90% das exportações iranianas), em moeda chinesa e contra troca do fornecimento de bens e serviços.
      E agora não.

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    5. Olhando só para a parte energética, é o mesmo que estar a dizer que os Estados Unidos conseguiram aceder a uma cascalheira no fim da Idade da Pedra, quando a China já entrou na Idade do Bronze com o domínio na cleantech.

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    6. Fantasias. A cleantech, como lhes chama (é mais chique que Maria Albertina) depende dos quatro elementos em que assenta a nossa vida económica: petróleo, fertilizantes, aço e betão, sendo que os três últimos dependem igualmente do petróleo para a sua produção em larga escala.
      Um dia calcule a intensidade energética que consegue obter para fazer um avião voar com base em "cleantech" e depois tire as suas conclusões.
      Volto a dizer, tudo fantasias de analistas, a base concreta é a que descrevi (e nem discuto isso de que os países aceitam bases americanas em torno de protecção, quando aprendi isso eram tudo manifestações do imperialismo americano impondo a sua vontade)

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    7. Isso é estar agarrado ao passado. A tecnologia elétrica é muito mais eficiente do que os equipamentos a combustíveis fósseis que substitui. Uma bomba de calor, um veículo elétrico, um fogão de indução — cada um deles realiza a mesma tarefa com uma fração da energia.

      Não conhece o conceito de electrofficiency cunhado pelo professor Jan Rosenow de Oxford?

      "A tecnologia elétrica, segundo o Prof. Jan Rosenow, da Universidade de Oxford, está agora pronta para uma adoção generalizada e oferece eficiências três a cinco vezes superiores às das suas contrapartes a combustíveis fósseis. «Chamo-lhe “eletroeficiência”», afirmou. «É a eficiência inerente à tecnologia elétrica em comparação com os combustíveis fósseis.»

      Rosenow estimou, num artigo a ser publicado em breve, que uma transição global para a eletrificação reduziria para metade a procura de energia. Isso geraria poupanças que atingiriam rapidamente biliões de dólares a nível global, libertando recursos financeiros para que governos, empresas e consumidores os gastassem em fins mais úteis, desde a saúde e a educação até à defesa."

      https://www.theguardian.com/environment/2026/jun/20/electrification-takes-centre-stage-bonn-climate-talks

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    8. Quantos aviões eléctricos conhece? Quantos porta-contentores eléctricos conhece? Quantos altos fornos eléctricos conhece? Quantas fábricas de betão conhece que se baseiem em produção eléctrica?
      Escusa de vir com a conversa da China, cujo crescimento assenta no aumento de consumo de carvão e petróleo (a energia eléctrica não representa um quinto do uso de energia, e nenhum crescimento eléctrico se faz sem primeiro fabricar os equipamentos que precisam do aço e do betão, para já não falar da síntese da amónia, que alimenta a humanidade.).

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    9. Quanto ao senhor Jan Rosenow, não consegui encontrar nenhum produto que tenha desenvolvido para tirar partido da superioridade eficiência energética da electricidade

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    10. A China está no top-5 mundial em termos de eletrificação e já corresponde a quase um terço do total: https://www.linkedin.com/posts/janrosenow_which-countries-lead-the-global-electrification-activity-7460600746720395264-Vxty

      Mas é muito mais do que isso, é o domínio em termos internacionais da tecnologia: https://www.linkedin.com/posts/janrosenow_asia-built-three-quarters-of-the-worlds-activity-7474741657448624128-aN9b

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    11. Deixo-lhe mais 2 imagens para perceber o fenómeno:

      https://www.linkedin.com/posts/janrosenow_in-the-global-electrification-race-china-share-7395096209037885440-BUJ6/

      https://www.linkedin.com/posts/international-trade-in-clean-technologies-share-7278399333874417664-o3Io/

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    12. Preferiu não responder a uma única das minhas perguntas, optando por repetir o que diz um analista de que gosta muito, mas que nunca criou um produto comercial viável.
      Para mim, já chega, tenho pouca paciência para o proselitismo.

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  6. Estive a ler com muito interesse os posts anteriores e peço que me permitam acrescentar;

    Talvez a Electricidade vinda de fontes Renováveis seja o Petróleo do Futuro mas por agora, ainda tem vulnerabilidades e insuficiências.

    A Electricidade Solar, por exemplo, mesmo em condições óptimas só produz 12 Horas em 24.

    Mas é óbvio que em sendo resolvido o problema do armazenamento (e será) então as coisas mudam de figura



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  7. Na década de 80, os basbaques embascavam-se com a URSS. Eram lideres em tudo ... viu-se. Agora, esses mesmos basbaques e os seus sucedâneos, e descendentes, embasbascam-se com a China... veremos.

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    1. Em boa verdade já estamos a ver e o saldo é largamente favorável á China.

      Penso aliás, que nos próximos 20 anos, eles estarão á frente em todos os Indicadores.




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