Comecemos pelo fim: "o problema não é gerir melhor a espiral; é travá-la".
Este é o argumento de quem vive numa zona de cheias e defende que as suas opções e acções não devem ter como objectivo ter uma relação positiva com as cheias - um dado do problema - mas sim que se deve impedir as cheias (ou os fogos, ou a inflação, ou os baixos salários, ou os lucros excessivos, as doenças, a natureza humana, o que se quiser escolher), isto é, que se deve alterar administrativamente a realidade.
Não há qualquer possibilidade do simpático comentador, com o coração cheio de fúria e boas intenções, ficar convencido com os meus argumentos, e vice-versa, porque partimos de convicções profundamente diferentes.
O simpático comentador acha que o preço de uma casa (medido pelo contrato de venda ou de arrendamento) é uma questão administrativa que depende da vontade do governo, eu acho que o preço de uma casa é o ponto de encontro entre a oferta e a procura, sendo uma peça central num sistema de informações que alimenta o conhecimento que as comunidades têm do valor de um bem ou serviço.
O simpático comentador acha, consequentemente, que se os preços são difíceis face ao rendimento, é preciso que o Estado imponha preços mais baixos, dito de outra maneira, que o Estado prejudique o vendedor a favor do comprador, eu acho que quando o preço está abaixo do que o dono da casa acha que vale a pena, deixa de haver casas à venda (ou para arrendamento), criando-se escassez.
"A habitação aparece ali menos como lugar para viver do que como activo financeiro".
O simpático comentador explica aqui a sua falácia, o que é muito útil porque existe experiência histórica mais que suficiente para demonstrar os efeitos da ideia delirante de que existe uma oposição, mesmo uma contradição, entre valor social "o lugar para viver" e valor económico, incluindo os efeitos de um bem se financeirizar.
Um dos meus irmãos viveu em Moscovo, no tempo da transição de Brejnev para Andropov, como funcionário do Estado português, o que lhe dava acesso a lojas onde havia de tudo, incluindo caviar barato (de que beneficiei bastantes vezes quando vinha a Portugal) ao ponto do meu sobrinho mais velho, nascido em Moscovo, comer caviar à colherada (é muito nutritivo, o miúdo gostava, um alimento ideal para criar crianças, resolvida a questão do preço).
É verdade que ele poderia ir às outras lojas, com preços muito mais baixos para produtos essenciais, só que tinham o problema de não ter grande coisa à venda, os preços eram tabelados de forma diferente.
A razão para o Estado soviético, que tabelava os preços de todas as lojas, ter algumas com preços mais altos (ainda assim, em alguns produtos, como o caviar, bastante mais baixos que no Ocidente) era a necessidade de divisas estrangeiras, pelo que a moeda russa não era aceite nessas lojas, eram lojas para estrangeiros.
A razão para ter lojas com preços mais baixos, era que a alimentação é essencial, portanto havia lojas em que os alimentos eram para alimentar, não era um produto financeiro, resultando em preços bastante baixos para produtos inexistentes, como é evidente, quem tinha o poder de dispor de produtos vendia-os no mercado negro, com base em sofisticados, mas profundamente ineficientes, esquemas para fugir à tabelação dos preços.
Tabelar preços, sejam de alimentos, sejam de habitação (e não me parece defensável dizer que o valor social da alimentação seja menor que o valor social da habitação, apesar de hoje pouca gente defender a aplicação à comida do modelo que defendem para controlar preços na habitação) não resolve o problema de acesso à habitação, apenas substitui o preço legal por outro mecanismo qualquer, administrativo ou de mercado negro, para controlar esse acesso, mecanismos esses que são incomparavelmente menos eficiente que o mecanismo dos preços inerente a mercados abertos.
"a subida brutal do preço das casas quase como fenómeno natural, até desejável, desde que permita aos velhos “capitalizar” património".
Sim, é mesmo isso, o preço que existe em mercados abertos (mercados perfeitos apenas existem nos livros de economia, e mesmo assim, só em alguns, nos livros de economia de Rafaela Burd Relvas, os impostos não são um dos componentes de formação do preço que será sempre pago pelo consumidor final, mas existem impostos para proprietários ou para inquilinos) é um fenómeno natural no sentido em que é o ponto de encontro entre quem quer uma coisa e quem a tem. E é importante que a subida do preço de um bem como uma casa, que corresponde objectivamente ao aumento do capital do dono da casa, possa ser usada pelo beneficiário da maneira que ele entenda que é a mais favorável para si.
O que o post comentado defendia é que as políticas públicas deveriam orientar-se no sentido de tornar o mais fácil possível a adaptação da riqueza às necessidades do seu dono o que, no caso dos donos de casas mais velhos, pode passar por trocar a casa que têm, e que não está adaptada à vida que pretendem, por uma outra situação que lhes é mais favorável, é isso que está em causa nesse post.
Como Fernando Santo escreveu, fundadamente, sobre as vantagens para os proprietários, eu escrevi sobre os muitos arrendatários que estão presos a uma renda baixa, quando a casa em que vivem já não é a melhor para a vida que pretendem.
"quem precisa de comprar que aguente o garrote de um empréstimo absurdo durante 40 anos. A espiral de preços deixa de ser problema social e passa a ser oportunidade de gestão patrimonial".
Exacto, os preços não são um problema social, são informação para vendedores e compradores tomarem as decisões que querem e podem, face ao contexto em que vivem. Decisões essas que incluem a gestão patrimonial, como acontece com o resto das coisas no nosso dia a dia.
"E depois há uma ingenuidade enorme na ideia de “vender a casa e ir viver para algo mais adaptado”. Adaptado onde? Com que comunidade? Com que rede afectiva? Há uma diferença entre mudar de casa e ser lentamente arrancado do bairro, do café, dos vizinhos, da farmácia onde te conhecem o nome. A velhice não é só uma questão logística; é também geografia emocional".
Uma velhota (as mulheres vivem mais, mas com pior qualidade de vida) presa num segundo andar sem elevador, proibida de subir escadas pelo médico, a menos que descanse três minutos em cada degrau, devem achar esplêndia, este naco de poesia barata.
Uma das características mais complicadas da velhice é que não há comunidade nenhuma, sobretudo nas grandes cidades, uns porque foram morrendo, outros porque moram longe, outros porque simplesmente perderam os laços que existiam quando trabalhavam juntos (se é para discutir poeticamente assunto sérios, ao menos que se usem coisas de qualidade).
Mais importante, o que interessa não é a opinião de cada um de nós sobre o assunto, mas a opinião dos próprios, não se trata de deportar pessoas para libertar casas, trata-se de diminuir as dificuldades e aumentar as oportunidades para que, quem queira, o possa fazer com ganhos de qualidade de vida que sejam reconhecidos pelos próprios como tal.
Tudo o resto é paternalismo com base em poesia de má qualidade.
"Boa sorte a encontrar vagas, preços comportáveis ou respostas minimamente dignas sem listas de espera intermináveis".
O que se defende é que isso seja feito, que se dêem passos nesse sentido. Pretender que está errado fazer alguma coisa que hoje não existe, eu acho uma argumentação cómica.
"O texto fala como se ainda vivêssemos num país de instituições benevolentes e mercado moderado, quando na realidade muita da “solução” social já foi comida pela financeirização da própria velhice".
Antigamente é que era bom, só faltava isto.
"o raciocínio aceita demasiadas premissas do desastre actual: casas como activos, cidades como mercados, mobilidade forçada como racionalidade económica".
Desastre era a situação da habitação até aos anos oitenta, o que existe agora é uma situação complicada gerada por uma procura que aumentou repentinamente e uma oferta limitada por razões económicas, financeiras e administrativas.
Se deixar de se olhar para as convicções de cada um para olhar para a situação concreta das pessoas, incluindo dos velhos, talvez não fosse pior.
Claro que se todos os velhos fossem riquíssimos muita coisa ficava resolvida.
ResponderEliminarE o Estado ? E que tal um Programa Nacional de Primeira Habitação, sustentável, decente e digno ??
O Estado até tem um estrutura, terrenos que sei lá e Banca para financia-lo.
Nem precisa de ir á Irlanda ou Inglaterra, só para falar em dois casos de sucesso, pode espreitar o que fez Alberto João Jardim na Madeira.
Vão lá ver e perguntem já ágora, a opinião dos Madeirenses.
Aliás nem precisam, olhem o voto dos Madeirenses porque no voto está a Opinião
sempre distingui a diferença de preços entre estar '' à venda'' ou ''à compra''.
ResponderEliminaras casas citadinas verticais envelhecem conjuntamente com os residentes. quanto custaria instalar ascensores internos ou externos?
nos anos 60 emigrante de região onde passo férias comprou no Printemps um casaco comprido de astracán numa exposição de venda da URSS em vez de adquirir um de tecido.
ResponderEliminarConcordo.
É deixar o mercado funcionar, laissez faire, laissez passer.
Um dos problemas na construção são uns planos mal amanhados por câmaras, só porque um doutor qualquer tem uma vivenda e quer manter a sua vista, eu não posso investir no meu terreno construindo um prédio de 8 andares. há que acabar com estas intervenções estatais em terrenos privados
ResponderEliminarExcelente texto, assertivamente refutando teorias marxistas sem nexo ou lógica com FACTOS. Venham mais destes.
Note que em matéria de Paisagismo e Ordenamento do Território deixar as coisas irem ao gosto de cada um, pode muito facilmente dar em desastre.
ResponderEliminarAcredito que até um mau ordenamento é melhor que nenhum
É uma fé sem qualquer base empírica: as cidades e paisagens mais bonitas do mundo não foram planeadas, salvo alguma excepção de que não me esteja a lembrar agora
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