Procuro não escrever mais que um post num dia, mas este assunto anda a irritar-me profundamente.
Há anos e anos que defendo ideias diferentes sobre a conservação do lince, em Portugal, que são diferentes das que são esmagadoramente dominantes.
A minha posição é tão, tão minoritária que dificilmente estará certa, com tanta gente, e tão qualificada, a dizer coisas radicalmente diferentes das que eu digo.
Resumindo, o lince é um predador com elevada especialização na sua presa favorita, o coelho.
O coelho é uma espécie muito abundante na Península Ibérica, ao ponto de um dos seus nomes, aparentemente, estar relacionado com coelho.
Toda a gente sabe que os coelhos se reproduzem como coelhos e é uma peça chave nas cadeias tróficas peninsulares, embora não exista outro predador tão especializado como o lince.
O problema é que as populações de coelho, da mesma maneira que crescem rapidamente em condições favoráveis, arrastando para cima as populações de Lince, grandes rapinas e muitos outros predadores, são periodicamente assoladas por epizootias (é como chamamos às epidemias em populações de outros animais que não nós), chegando a ter decréscimos de 90% ou mais nas populações, como aconteceu com a mixomatose e pneumoria hemorrágica viral.
Existe evidência genética de que as populações de Lince já tiveram, no passado, outros apertos de quase extinção por causa destas quebras bruscas das populações de coelho, e foi o que aconteceu primeiro com a mixomatose e, cerca de trinta anos depois, com a pneumonia hemorrágica viral.
O lince esteve numa destas fases de ultra rarefacção na sequência da mortandade nos coelhos provocadas pela pneumonia hemorrágica viral, chegando aos menos de 200 animais no mundo (há outras espécies de linces noutros lados, mas esta que existe no SO da Península Ibérica não existe se não aqui).
Nesta altura moveram-se mundos e fundos (muitos fundos) para evitar a extinção do lince, sobretudo em Espanha, onde se concentrava a população que ainda resistia.
Foi aqui que eu divergi da esmagadora maioria dos meus amigos, colegas, conhecidos e inimigos, no que diz respeito à adopção de medidas de conservação do lince ibérico.
Para mim a prioridade seria adoptar medidas de apoio à darwiniana evolução da população de coelho, ao mesmo tempo de se geria o habitat para preparar a futura expansão do lince, nomeadamente no sentido de Portugal.
As minhas razões é que isto seria mais eficiente, mais barato e com impactos na conservação bem mais alargados (nomeadamente noutras espécies) que andar a fazer complicados e caros programas de reprodução em cativeiro para largar animais que não tinham o que comer.
Como a incerteza destes processos é sempre grande, parecia-me sensato ter animais em cativeiro para, no caso de tudo correr mal, se iniciar então um programa de reintrodução, quando as populações de coelho recuperassem, aproximando-me dos meus colegas neste ponto, para voltar a divergir imediatamente: os programas com animais em cativeiro, e eventualmente fazer a sua reprodução para reintrodução, não precisam de estruturas dedicadas, uma espécie de aviários de linces, há jardins zoológicos em todo o mundo que fazem isto eficientemente por um décimo dos custos de ter estruturas dedicadas.
Rapidamente fui ostracizado no que diz respeito aos processos de decisão, e depois também aos de discussão, ao mesmo tempo que o processo foi adoptado pelos políticos por cumprir os critérios de visibilidade e tracção social positiva, como seria de esperar tendo gatinhos a ser salvos pela boa vontade da humanidade, devolvidos à liberdade no meio de batalhões de jornalistas.
Meti a viola no saco, sem que até hoje tenha mudado de opinião (tanto mais que uma perturbação de pequena amplitude por volta de 2011, na população de coelho, demonstrou que a população de lince reage quase imediatamente), à espera de que a próxima epizootia venha a pôr todas estas pessoas que dizem que a recuperação do lince se deve às acções de conservação, a dizer que a sua diminuição se deve à diminuição da população de coelho provocada pela doença que aparecer.
Mesmo que eu não tenha razão nenhuma e que a reprodução em cativeiro tenha tido algum papel relevante na recuperação das populações de lince (do que duvido), mesmo que não seja verdade que os programas de reprodução em cativeiro seja mais eficientemente executados em jardins zoológicos, é uma evidência a inutilidade de andar a manter aviários de linces supranumerários neste momento: os bichos reproduzem-se muito bem na natureza sem gastar dinheiro aos contribuintes.
Qual é o busílis da questão?
Quatro veterinários, seis tratadores e quatro etólogos (especialistas em comportamento animal) dependem do centro de reprodução do lince para ter ordenados, e a gestão desse centro é feito pela mesma empresa há uns 17 anos, sempre, sempre tendo como responsável a mesma pessoa, cuja competência nunca ouvi ninguém questionar (muito menos eu, a quem me faltam competências para fazer essa avaliação) e que, coincidentemente, é filho (esta informação é um erro meu, por qualquer razão que não entendo, numa conversa de rua com Pedro Serra, fiquei convencido de que teria confirmado esta informação, o que só pode ter resultado de um mal entendido meu em relação a qualquer resposta que me tenha sido dada a uma pergunta ou comentário) do então Presidente das Águas de Portugal, a holding que detinha as Águas do Algarve, quando se iniciou o financiamento desta estrutura por esta entidade.
Durante este tempo, que eu saiba, nunca houve qualquer processo aberto para a gestão desta infraestrutura pública (terá havido os habituais concursos, consultas e essas coisas a que formalmente a contratação pública obriga, mas a situação era tão tranquila e previsível, que nunca vi ninguém preocupado com a hipótese da gestão deste centro mudar).
O ICNF, que é o dono do problema e que estabeleceu recentemente mais um protocolo com as Águas do Algarve de cerca de 350 mil euros anuais para a gestão deste centro, decidiu que estava na altura de mudar a situação.
Não faço a menor ideia se a decisão está certa ou errada, não tenho qualquer relação profissional com este assunto há muitos anos, e tudo o que escrevi aqui é baseado em informação pública, mas é extraordinária a reacção do mundo da conservação, pessoas, associações, jornalistas, a gritar aqui d'el rey, que vai acabar o lince se deixarmos de largar uns dez por ano em cima duns dois mil por ano que nascem na natureza.
Espantar-me-ia se o ICNF tomasse decisões ponderadas e sensatas, porque esse não é o seu padrão actual, mas confesso que me espanta muito mais o clamor social na defesa de um processo de contratação completamente opaco, que dura há 17 anos, para a realização de uma tarefa que até pode ter sido útil num determinado momento, mas hoje é seguramente dispensável.
Se Samuel Fitussi conhecesse este assunto, seguramente acrescentaria mais um capítulo prático sobre o efeito da prevalência da racionalidade social sobre a racionalidade epistémica, no seu utilíssimo "Porque se enganam os intelectuais", que estou a ler com gosto.
Capacidade critica.
ResponderEliminarUm bem haja por toda esta informação. "Graciosa"!!!!!!!!!.................
« En Occident, de nombreux intellectuels de premier plan agirent en compagnons de route du régime soviétique»
ResponderEliminarLopium des intellectuels Raymond Aron
ResponderEliminarOs intelectuais emganam-se, de acordo com Noam Chomsky, porque têm um interesse egoista em enganar-se.
Mais especificamente, os intelectuais obtêm, em grande parte, os seus empregos no Estado, e os que não os obtêm frequentemente estão desejosos de os obter, porque consideram que são eles, os intelectuais, quem tem mais e melhores conhecimentos sobre como gerir a sociedade. Por isso, devido a esse interesse egoista em que o Estado lhes dê emprego, os inteectuais idolatram e elogiam o Estado, e é esse o seu grane engano.
Claro, límpido e muito esclarecedor este texto, expondo a situação mostrando como as coisas são, como deviam ser e os tiques do estado burocrata.
ResponderEliminarMuito bom. Parabéns
Olá Henrique,
ResponderEliminarSó para lhe agradecer os seus posts e para lamentar a sua auto-disciplina, que nos priva de o ler mais vezes.
Muito obrigado!
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