A discussão sobre o Centro de Reprodução do Lince Ibérico arrisca-se a passar ao lado do essencial, como é habitual em questões de conservação.
Do que conheço do assunto, a decisão do ICNF é completamente errada, mas não pelas razões que têm sido invocadas.
O ICNF garante que vai continuar tudo na mesma (não, não vai, actualmente o ICNF tem uma capacidade de fazer alguma coisa com nexo e eficácia muitíssimo baixa, por questões de liderança, por questões de contexto social e pelo contexto inacreditável da administração pública que existe).
A generalidade das críticas assentam exactamente nesta falta de confiança no ICNF por parte dos principais agentes do sector e na defesa corporativa do uso dos recursos no sector da conservação, que depende, largamente, da ineficácia do ICNF e da sua permeabilidade ao lobbying.
Os mecanismos usados pelos prejudicados (as pessoas que tinham o seu ganha-pão assegurado pelo esquema de extracção de recursos ao sector que existia) é o habitual no sector.
Mobilização dos jornalistas amigos, exploração da habitual necessidade das organizações conservacionistas manterem pressão sobre a direcção institucional e política do ICNF para posteriormente estar em posição de vantagem quando for preciso discutir distribuição de recursos, apelo aos grupos de amigos internacionais e delimitação da discussão a aspectos morais e à escolha dos aspectos técnicos convenientes.
Por exemplo, o recurso aos grupos de peritos da UICN, é o habitual, já tive contacto directo com este método quando Luís Palma e Pedro Beja queriam financiar o seu projecto inútil de conservação da águia pesqueira, quando os técnicos do ICNF e seus amigos da academia não gostavam das orientações sobre a conservação dos morcegos, enfim, o habitual.
Estes grupos de peritos são grupos de amigos, de maneira geral bastante restritos (duas a três dezenas de pessoas) que se arrogam ser o farol científico do assunto e que, para usar uma terminologia de Fetussi, são autências lavandarias ideológicas, entram opiniões e sai conhecimento validado por pares.
Os argumentos são risíveis, sem qualquer fundamentação empírica, baseados em crenças de especialistas, não em informação validade empiricamente " “A reprodução de felinos destinados a serem libertados na natureza é, em muitos aspectos, muito diferente da reprodução em zoológicos”, explica.", como se não existissem muitos programas de reprodução em cativeiro com objectivos de conservação feitos em parceria com zoológicos (para não sair do tema dos gatos, é ver o que é feito na Escócia, mas existem programas do mesmo tipo em vários outros zoológicos).
É por isso que a questão central nunca aparece na discussão: neste momento, nas actuais circunstâncias, qual é a utilidade da reprodução em cativeiro de uma espécie em franca expansão e que produz umas oitocentas crias por ano na natureza (para ter termo de referência, entre 2011 e 2024 foram libertados 403 linces, ou seja, menos de 35 por ano)?
Como já escrevi muitas vezes, tenho as maiores dúvidas de que esta libertação de linces tenha tido um impacto relevante na recuperação da espécie, mas são dúvidas, não tenho problema em partir do princípio de que sim, terá sido fundamental, mas libertar 40 linces hoje quando na natureza nascem 800, serve exactamente para quê?
Assim sendo, se o Estado português tivesse uma verdadeira cultura de avaliação de cada cêntimo gasto em políticas públicas, há anos que este centro teria sido fechado e o dinheiro gasto reencaminhado para acções de conservação do solo e de invertebrados, que são muito mais relevantes, actualmente.
Dinheiro gasto pelo Estado e Cultura de avaliação de Resultados.
ResponderEliminarOra aí está uma excelente ideia e um excelente tema a merecer que o HPS desenvolva.
Cumprimentos
ResponderEliminaracções de conservação do solo e de invertebrados
Isso não tem pelo e não é nada fofinho. E os invertebrados são, ainda por cima, invertebrados.
Quero dizer: os programas de reprodução do lince são feitos, não para recuperar a natureza, mas para citadinos se encantarem com o que fazem em prol de coisas giras que há na natureza.
Esse e outros Centros nunca deveriam ter sido abertos.
ResponderEliminarA sociedade civil e os mercados fazem melhor trabalho de conservação, a menor custo, e em linha com as necessidades económicas e das populações.
Sobretudo quando cobrem os habitats de betão.
ResponderEliminarÉ um felicidade extraordinária
"Olhos de lince"
ResponderEliminar«tapetum lucidum
Se for a vontade da sociedade civil e a melhor decisao económica, que seja.
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