terça-feira, 13 de maio de 2025

A saúde é um negócio ... felizmente

Na discussão de políticas públicas há assim uma espécie de santo e senha que se tem de aceitar, para que a coisa siga normalmente em relação a alguns assuntos.


Um dos bons exemplos é o que hoje trata João Miguel Tavares, é-se obrigado a aceitar, sem contestação, que não há vida para lá da defesa da escola pública, liquidando, mediaticamente, qualquer político que resolva dizer que é o acesso público que importa discutir, não o dono das paredes da escola.


O mesmo se poderá dizer da dificuldade que terá um político que resolva dizer, com razão, que a saúde é um negócio, independentemente das nossas opiniões sobre o negócio e o acesso universal aos cuidados de saúde.


O mais curioso é que a saúde já foi um negócio muito mais pequeno do que é hoje, não porque houvesse menos doentes, claro, mas porque havia menos médicos, enfermeiros e tudo o resto.


Naquele tempo, os muito ricos poderiam recorrer aos poucos médicos existentes e a esmagadora maioria dos que precisavam de cuidados de saúde recorriam ao que podiam, fossem feiticeiros, bruxos, vizinhos ou, o que era mais frequente, às instituições filantrópicas ou de caridade (apesar do mau nome que foi sendo criado à custa da crítica à "caridadezinha", para um cristão "a caridade passa sempre pelo respeito do próximo e da sua consciência", sendo essa a base da extensão da acção social de muitas igrejas, no nosso caso, a católica).


As razões pelas quais havia poucos médicos é simples de explicar: o conhecimento sobre nós e o nosso corpo era, em muitos aspectos limitado e o mercado, isto é, o conjunto de pessoas com vontade e recursos para pagar serviços de saúde de elevada diferenciação, era igualmente limitado.


O resultado deste modelo de saúde, que não pretende ser um negócio, é a existência de poucos recursos para o desenvolvimento dos cuidados de saúde, e uma legião de cuidadores de primeira linha (de parteiras a simples apoio logístico) assente esmagadoramente em religiososos que dedicam a sua vida ao cuidado dos outros.


Se a profissão de médico tem a sua origem muito atrás no tempo, o reconhecimento da enfermagem como uma profissão especializada é relativamente recente: só em 1860 Florence Nightingale funda a primeira escola não religiosa de enfermagem.


De resto, em Portugal, no princípio do século XX, terá havido uma discussão interessante entre os jacobinos que queriam afastar as religiosas do trabalho de enfermagem, profissionalizando-o, e os que defendiam que o carácter voluntário dos cuidados a prestar os tornava mais humanos (é Pedro Almeida Vieira que me chama a atenção para a similitude entre esta discussão e a discussão  sobre o voluntariado e profissionalização no combate ao fogo florestal).


Quando a sociedade assume que a filantropia não é suficiente para garantir um acesso universal a cuidados de saúde, entrega ao Estado a responsabilidade de assegurar que todos os que precisam têm acesso a cuidados de saúde, alargando enormemente o mercado de cuidados de saúde ao determinar que o Estado deve assumir os custos desses cuidados, quando as pessoas não têm recursos para isso.


Claro que nisto tudo há uma imensa evolução de conhecimento e tecnologia que altera toda a relação que temos com a medicina, às vezes até por caminhos muito estranhos: hoje temos uma quantidade enorme de gente a defender o direito absoluto do indivíduo sobre o corpo de cada um, a propósito do aborto ou da mudança de sexo, ao mesmo tempo que temos muita gente, os mesmos ou outros, a dizer que é inaceitável que sejam as mulheres a decidir livremente se preferem fazer cesarianas ou ter partos como sempre se fizeram.


Os partos sempre foram um momento de risco elevado para as mães e os bebés (para estes, o risco elevado mantinha-se durante um ano ou dois), lembrando-nos de que a civilização é a luta constante que travamos contra a natureza.


Neste caso, travamos uma guerra sem quartel contra a mortalidade relacionada com os partos e a primeira infância, para a qual convocamos a profissionalização dos que assistem os partos e acompanham as crianças, a artificialização através da medicalização e hospitalização de um processo natural e a panóplia tecnológica, incluindo farmacêutica, que hoje rodeiam o nascimento de crianças.


Pretender que tudo isto se faz melhor voltando ao voluntariado e ausência de mercado, apenas substituindo a filantropia pelo Estado, não faz qualquer sentido para mim, o mercado, isto é, o ponto de encontro entre quem procura e quem oferece, é incomparavelmente mais eficiente a produzir soluções para os problemas de cada um.


O que cabe ao Estado é, o que já não é pouco, assegurar que esse mercado funciona tão bem quanto possível, e que ninguém fica para trás por falta de recursos.


Sim, a saúde é um negócio, um negócio crescente, e ainda bem.


As políticas públicas de saúde deveriam partir desta ideia base, e não da tolice, nunca demonstrada, de que a saúde não pode ser um negócio para que seja possível garantir cuidados de saúde adequados para todos.

15 comentários:

  1. '4 milhões com seguro de saúde'. Arrium porrium!
    inventaram o 

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  2. Nada contra o privado desde que não seja o Estado a sustentar os "empreendores" liberais à conta do Estado.
    Essa teoria da  escolha é uma treta. Querem que o Estado financie projetos educativos diferentes dos do Estado, mas depois querem escolher os alunos. Ou seja, a escolha nunca será para todos, o que é para todos é o pagamento do que supostamente será para todos.
    Na saúde idem, quando o parto corre mal lá vai quem tem esse azar parar a um estabelecimento publico senão se calhar "parte" para outro lado. O mesmo acontecerá aos pacientes que se tornem dispendiosos, serão enxotados para o publico sem a tal escolha prevalecer. Basta ver o numero de originários oncologicos do privado que chegam ao publico quando o dinheiro acaba.
    As parcerias publico privadas tem resultado muito bem em situações deterministicas bem delimitadas nos custos, como por exemplo exames, análises e situações simples.
    Aliás, não é à toa que os famosos cheques cirurgia são muito pouco utilizados a quem são propostos. Tenho conhecimento de situações que correram bem porque tudo correu dentro do previsto (custos previstos) e conhecimento de situações em que os custos contratualizados revelaram-se insuficientes e as pessoas foram despachadas sem estarem em condições de terem alta.
    Portanto o modelo de empreendorismo à conta do Estado para ser a apregoada boa solução terá de ser revista em muitos aspectos.
    Sei que não se pode fazer, mas já viram a origem das mães das crianças mortas precocemente?
    Já que gostam muito de copiar o que lá fora se faz e dão como exemplo, basta ver que os que foram emigarntes em França, quando voltam para Portugal continuam periodicamente a ir a França para usufruir de cuidados médicos, mas não conheço (se calhar é desconhecimento meu) situações similares para quem foi emigrado na Holanda ou Alemanha.
    Descubram as diferenças?

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  3. Não seja marxista.
    Educação e saúde são negócios, a diferença é que os privados são obrigados a orientar o seu serviço para o lucro, como qualquer empresa, enquanto que o público faz concorrência desleal à custa do erário público, ou seja o dinheiro dos contribuintes.
    Deixem o mercado funcionar, e os cidadãos, todos eles, terão os melhores serviços aos melhores preços.
    Temos rapidamente de abandonar o modelo estatista lusitano e avançar para mercado livre. Todos sairão a ganhar, profissionais (que irão receber mais) e cidadão.

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  4. Se um doente não tiver dinheiro ou tiver uma doença muito cara de tratar não dá lucro aos privados. Morre e pronto

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  5. Relembrar que:


    alguém só se torna médico (em que a formação é longa e cara) porque quer vir a ter um emprego bem remunerado (e com estatuto, se bem que já foi melhor)


    as empresas farmaceuticas gastam milhões em R&D porque esperam retorno no seu investimento


    Sim, é um negócio.

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  6. Não sou marxista.
    Parece-me é que se o modelo fosse o que elogia, o numero de pessoas sem acesso à saude e educação, com o minimo de condições, ainda seria maior.
    "




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  7. Há muitos anos numa consulta num Centro de Saúde, chocou-me quando o médico no final me disse; você agora passa a ser meu cliente. Foi a última vez.
    Há dias ao pagar uma fatura no hospital da Luz chocou-me  ver no topo Cliente nº tal.
    Porque não chamar de Doente ou Paciente? Na verdade são pessoas doentes, não vão fazer um negócio, vão curar-se.
    Doenças são uma mercadoria? Balha-me Deus
    Porque não chamar de Doente nº X ou Paciente nº Y ?

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  8. Também está na moda chamar "Utente"

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  9. É desconhecimento seu.
    Dá muito a quem não só conhece emigrantes velhos.

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  10. A habitação depende da oferta e procura. E do Estado deixar o mercado funcionar, o que não acontece.

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  11. Utente é a designação habitual.
    Porque alguém será sempre um utente, mas nem sempre paciente. 

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  12. Sim, eu sei, embora na prática essa designação só seja usada no contexto de serviços de saúde.

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  13. Portanto deve ser fã da ideia da IL de retirar todos os impostos à construção. Depois de construídas sem impostos, as casas irão ser compradas pelos habituais que neste momento compram e os que não conseguem comprar ou alugar assim continuarão.
    Neste momento os terrenos já estão livres de PDM's, os ipostos a baixar estarão perto, portanto vamos ver.
    Mas será que ainda ninguém percebeu que o problema de tudo, habitação saude, educação são os baixos salários e não podermos competir globalmente com os restantes que vem para Portugal com os bolsos cheios?

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  14. Bem, os emigrantes novos estão emigrados, e tratam-se onde estão deslocados como podem. Só os velhos que voltam para Portugal é que retornam, ou não, para os países onde foram emigrados para se tratarem se nisso tiverem vantagens.

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  15. https://rr.pt/especial/economia/2025/05/14/atrasos-nos-comboios-batem-recordes-em-2024/425422/

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