Em 2015, em plena campanha eleitoral, António Costa convida uma jornalista do Expresso (Ângela Silva, se não me engano[pelos vistos, de acordo com um comentário a este post, a jornalista terá sido Luísa Meireles]) para ir com ele num percurso da caravana da campanha e, nessas circunstâncias, diz-lhe que se perder as eleições, votará contra um governo minoritário de Passos Coelho, confiando que vai conseguir acordos para uma alternativa à esquerda.
No entanto, embora lhe esteja a dar esta informação, é muito claro a dizer que se a jornalista disser que a fonte da informação é António Costa, ele desmentirá.
O resultado foi esta capa do Expresso, pouco tempo antes das eleições.

A manchete tem tudo o que interessa a Costa (fazendo acordos com a esquerda, posso fazer governo mesmo que perca) e não tem a única coisa que tem interesse para o público: quem garante que assim será?
Ao fazer isto, a jornalista está a assumir que a garantia é dada pela jornalista, que tem uma fonte à prova de bala, mas, para a decisão do eleitor, não é indiferente a garantia da jornalista (que não vale nada) ou a garantia de Costa (que é um compromisso político).
O que me leva a discordar de muitos jornalistas é a leitura disto: para mim, tal como foi publicada, esta página do Expresso é propaganda, enquanto para a maioria dos jornalistas é bom jornalismo assente em fontes à prova de bala. Para ser jornalismo, para mim, a fonte tem de ser identificada para se saber se se trata de uma coisa qualquer que alguém acha interessante, ou um compromisso político.
A demonstração de que só com a revelação da fonte a manchete é relevante para o leitor, é que essa é a única coisa que António Costa não quer ver publicada.
Lembrei-me disto a propósito da discussão em curso sobre quem disse quem eram os clientes da spinumviva.
Ao contrário do que tenho visto ser defendido por toda a esquerda e pelos comentadores de direita que só dizem coisas de esquerda, saber quem quis ver publicada essa informação, neste momento, é a única coisa relevante.
Não vale a pena virem com conversas para boi dormir, todos nós sabemos que se a imprensa quisesse publicar quem eram os clientes de Montenegro, há muito tempo que o teria feito, se há coisa que não é complicado é identificar clientes de uma empresa (estão identificados agora, e daí?), quando alguém quer mesmo saber quem são, o que está em causa não é o nome dos clientes de Montenegro, mas manter no ar uma bola que não se quer deixar cair.
A cultura instalada está tão entranhada que ouvi Helena Matos, uma das pessoas que andam no espaço público com mais bom senso e pés na terra, a dizer que lhe parece óbvio que Montenegro já deveria ter violado os seus deveres para com os clientes, divulgando-os, há muito mais tempo (é tão óbvio, que mais nenhum político o fez, e se o novo entendimento da Autoridade da Transparência se consolidar, é um instante enquanto a lei é alterada porque, com a interpretação feita, o exercício da actividade política pressupõe uma devassa completamente inaceitável, na ausência de qualquer suspeita sobre coisa nenhuma).
Ricardo Costa, que não viu nenhum conflito de interesses não só em manter-se nos cargos de informação que tinha quando o irmão era primeiro-ministro e que, mais que isso, chegou a comentar o caso Influencer como se uma das pessoas envolvidas não fosse seu irmão, também acha óbvio que qualquer político tem de fechar as empresas que detiver, se as tiver fundado e feito crescer com base no seu trabalho, mesmo que entretanto elas tenham autonomia para sobreviver sem ele.
O que estas histórias demonstram é que o jornalismo político, tendo abandonado o princípio de que informação política sem identificação da fonte é propaganda, não é jornalismo, é hoje muito mais político que jornalismo.
Exactamente.
ResponderEliminarSem fontes identificadas qualquer peça jornalística não passa de propaganda. Alguma dela paga.
Não há jornalismo político sério em Portugal.
ResponderEliminarHá inveja, há coscuvilhice e voyeurismo
Que o referido "jornalismo" (que tem claramente, com poucas excepções,uma agenda política e ideológica orientada)continue na mesma senda não deixa de surpreender,mesmo tendo em conta os poderes por trás das redações e administrações de jornais e tvs e etc.
ResponderEliminarNos EUA acontece o seguinte:
https://youtu.be/DMenKdnubF4?si=ECD2XYggmy1eZy9P
Obrigado pela partilha desta peça sem agenda e sem orientação política. O jornalismo "legacy" perde terreno para o jornalismo da internet, em breve os trauliteiros dos Observadores e SIC Notícias serão reduzidos à sua insignificância, e poderemos aceder livremente a informação factual através
ResponderEliminarde podcasts, canais de youtube e blogs.
DOGE em Portugal asap
Depois do João Miguel Tavares, a Helena Matos. Se as pessoas cuja opinião diz considerar têm, acerca deste assunto, o entendimento que têm (e já nem falo do Prof. Rui Ramos, que já em Fevereiro escreveu tudo o que era preciso), não pondera a hipótese de ser o HPS a circular em contramão na auto-estrada? Acha mesmo que o mais importante, no caso Watergate, foram a identidade do "garganta funda" e as preferências políticas esquerdistas dos jornalistas do Washington Post? PS: se "n
ResponderEliminarExcelente peça.
ResponderEliminarÉ por este tipo de conteúdo factual e isento que os blogs estão pujantes, enquanto a imprensa tradicional definha.
O que acho importante no caso watergate é que houve uma ilegalidade, ela foi denunciada por uma fonte cuja divulgação da identidade a punha em risco, e os jornalistas investigaram o assunto até identificarem os factos relevantes.
ResponderEliminarAcontece que na spinumviva não há ilegalidade nenhuma detectada, a informação é disponibilizada por Montenegro e depois o jornalismo entretém-se a fazer especulações estúpidas sobre a influência de ser cliente de Montenegro na facturação decorrente de concursos públicos lançados e com júris definidos antes da entrada em funções de Montenegro.
Em qualquer caso, o exemplo do post é o exacto inverso do watergate: uma fonte interessada disponibiliza uma informação do seu interesse e exige não ser identificada.
Nunca precisei de pedir a nenhum tribunal para saber quem são os clientes do café ao pé de minha casa.
A jornalista foi a Rosa Pedroso Lima.
ResponderEliminarEstá aqui a história contada pela jornalista: https://open.spotify.com/episode/48Qju8fKpASteR6Gzm8mBi
ResponderEliminarO podcast diz que foi Luisa Meireles
ResponderEliminarJá se sabe se os júris nos procedimentos de contratação públicos adjudicados às clientes da Spinunviva foram nomeados por este governo ou pelas administrações da SCML e da ULS Gaia/Espinho nomeadas por este governo? E já se sabe se foram concursos limitados por prévia qualificação? E, nesse caso, já se conhecem os restantes concorrentes? E já se analisou as suas propostas? Dado o desmazelo e desfaçatez evidenciados, até aqui, pelo PM na gestão dos seus assuntos pessoais (ou familiares, se preferir), temo pelas respostas a estas perguntas (que sim, devem estar, neste preciso momento, a ser esgravatadas por algum jornalista esquerdelho e/ou avençado do PS, não certamente pelo Luís Rosa, que, coitado, não "teve acesso" a estes clientes, nem ao trabalho desenvolvido para eles). E temo, não pelo PM, cujo destino, parece-me, já está traçado, mas pelo que virá a seguir, na melhor das hipóteses, uma vitória, sem maioria de esquerda, do PS. Na pior? É ver o que aconteceu ontem no Reino Unido (se alguém der a notícia).
ResponderEliminarO que sei é que a adjudicação da Santa Casa é de Julho de 2024, e sei o tempo que demora qualquer concurso deste tipo.
ResponderEliminarPor mim, fico esclarecido.
Vou achar imensa graça aos jornais de 19 de Maio.
ResponderEliminarDe resto, com tanto desmazelo, não se conseguiu encontrar, até hoje, qualquer ilegalidade.
ResponderEliminarA quantidade de perguntas que faz a propósito de coisa nenhuma e sem a menor suspeita concreta é uma coisa extraordinária.
Se contarmos desde a data em que abandonou o governo, demoraram 3 anos e meio até o MP "" nos actos do ex-PM Sócrates. Se contarmos desde que se associou o seu nome ao licenciamento do Freeport (onde, lá está, não se encontrou qualquer ilegalidade), demoraram 9 anos. O caso do PM tem dois meses e meio.
ResponderEliminarNão é complicado saber quais são os clientes de uma empresa privada, basta querer investigar
ResponderEliminarTantas dúvidas lançadas e duas certezas o destino do primeiro ministro está traçado e o melhor mesmo é uma vitória do PS, claro de quem havia de ser? Isto para discutir(ou antes fugir ) à questão pertinente lançada por HPS que é saber quem colocou a notícia no ar pois isso seria fundamental para se perceber o jogo sujo que está montado e quem quer ganhar com ele.
ResponderEliminarJPT acho o seu texto muito interessante na medida em que revela uma capacidade grande de fugir e torcer as questões de maneira a levar a água ao seu moinho...
A
ResponderEliminarO ponto não é saber se determinado blogger ou youtuber (etc) tem ou não orientação política(obviamente que tem o direito ao contrário dos média que supostamente deviam ser isentos)mas se tem por base os factos na sua narrativa.
ResponderEliminarA comparação com os tempos de Sócrates são profundamente desonestas, peço desculpa pela brutalidade.
ResponderEliminarAs notícias sobre as ilegalidades de Sócrates (é disso que se fala em relação a Montenegro, ou melhor, da hipótese de haver ilegalidades) começam ainda ele era engenheiro camarário com o esquema de troca de projectos entre ele o o técnico da câmara ao lado, e continuam ainda ele era secretário de estado com a adjudicação do tratamento de resíduos da cova da beira (processo que desapareceu num providencial incêndio no arquivo do ministério de que ele era dirigente).
Confundir isso com conversas estúpidas sobre especulação a partir de informação fornecida pelo próprio Montenegro é de uma desonestidade que poucas vezes tenho visto por aqui.
os jornalistas ou atuam por ideologia ou por dinheiro (com preço estabelecido), por vezes avenças, como no caso do Bes (a lista dos avençados sairá no próximo milénio).
ResponderEliminarnesta republiqueta socialista os jornalistas são seres superiores sem necessidade de escrutínio. políticos escrutinados só os do PSD.
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ResponderEliminarPenso que tem razão!
Mas tenho receio que, os serviços de "estufidicação das pessoas", feito ao longo dos anos, tenha sido eficiente.
Ouvido numa esplanada:
ResponderEliminar_ Ah!... Mas a empresa, apesar de ter passado para a mulher e filhos, continuava a receber uma avença de quase 5.000 euros dum cliente, do qual o Montenegro beneficiava e já era 1º Ministro! Grande falta de ética, usufruir indirectamente desse dinheiro, por ser casado em regime de comunhão de adquiridos!!! O que é dum é do outro. Ou despachava a empresa, ou despachava a mulher! __ rematou triunfante, de dedo em riste.
Subscrevo e aplaudo. Os blogs são hoje espaços de Liberdade, onde se pensa, se escreve e se comenta sem constrangimentos e livremente.
ResponderEliminarCabe aos esclarecidos ir contra a corrente, e tentar, com argumentação factual e intelectualmente honesta, convencer esses acéfalos que refere.
ResponderEliminarServiço patriótico.
Está confundido. As ilegalidades camarárias de Sócrates seriam (e eram mesmo) conhecidas de algumas pessoas do PS de Castelo Branco (e, por via destas, dos padrinhos dele no PS nacional, que não quiseram saber disso para nada), mas não eram de todo, "notícia" (nem no Jornal do Fundão). Aliás, até os casos e casinhos se começarem a empilhar, no final do seu primeiro mandato como PM, Sócrates ainda era visto, por quase toda a gente, como "vítima das calúnias da extrema-direita" do Independente (não havia Chega). Não era essa a única semelhança entre o que se lia na altura, e o que leio aqui - perdoe-me a brutalidade. E, pior, o que dizia o próprio, era quase igual (às vezes "ipsis verbis") ao que diz, agora, o Dr. Montenegro ("não admito sequer essa insinuação"). Não comparo a escala - até porque só PS pode aspirar ao nível de controlo das instituições que Sócrates teve - mas o estilo.
ResponderEliminarCortar frases a meio, para se imputar ao autor precisamente o contrário do que estes escreveu, é muito feio. Por muito que "queira levar a água ao meu moinho", não me há-de apanhar a fazer isso.
ResponderEliminarOra nem mais. É uma das "big 5" da consultoria: Deloitte, EY, KPMG, PWC e Spinunviva (por ordem alfabética, naturalmente).
ResponderEliminarSe o Rui Pinto estiver disponível, admito que sim. Mas se é tão fácil apurar os clientes duma empresa, fica difícil perceber a insistência em não os divulgar.
ResponderEliminar"JoséSócratesJoséSócrates
ResponderEliminarNa área da protecção de dados? Sim, é, e já foram aqui colocadas provas disdo mesmo. A Solverde nunca iria adjudicar serviços numa área sensível a uma empresa de vão de escada.
ResponderEliminarQuem escreveu "na melhor das hipoteses, uma vitória sem maioria de esquerda do PS" não fui eu , pois não?
ResponderEliminarSe teme o que vem a seguir, porque se empenha tanto em contribuir para destruir a credibilidade de LM lançando dúvidas e suspeitas absurdas (comparando-o até com Sócrates)igualzinho aquilo que faz o Chega o PS e toda a tralha esquerdista? não será isto gato escondido com o rabo de fora?
Lá está: a primeira notícia é de Abril de 2010, e a segunda de Maio de 2009:
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