Um ministro telefona a um membro do seu gabinete e diz-lhe que está demitido.
Degradação institucional é um ministro não saber que, sendo livre de nomear e exonerar quem quer no seu gabinete, não é livre de esquecer o formalismo das decisões, achando que demitiu alguém porque lhe telefonou a dizer isso mesmo.
O membro do gabinete resolve ir buscar a sua "caixa de ferramentas", como qualquer trabalhador que numa obra é despedido, que neste caso de traduz nos ficheiros pessoais que, com certeza, tem no seu computador profissional, eventualmente estando ainda dentro das suas funções, visto que, embora informado de que iria ser despedido, não tinha havido qualquer despedimento formal.
Outros membros do gabinete do ministro tentam impedir, fisicamente, o futuro despedido de levar a sua caixa de ferramentas alegando que é do Estado.
Degradação institucional é uma chefe de gabinete não saber que não pode impedir fisicamente a remoção de um computador e menos ainda determinar o sequestro de uma pessoa num edifício, com o argumento de que está despedido, quando sabe que não existe nenhum acto formal de exoneração.
O argumento é o de que o computador tem informação classificada a que o despedido deixa de poder aceder no momento em que é despedido.
Degradação institucional é o plano de reestruturação de uma empresa ser informação classificada, eu, que não percebo nada disso, não percebo por que razão para qualquer empresa a legislação sobre o segredo comercial é suficiente, mas para uma empresa em concreto o Estado decide classificá-la, isto independentemente de também não compreender qual é o risco, para a segurança nacional, de uma pessoa que tinha acesso a essa informação continuar a ter esse acesso mais 24 ou 48 horas.
Com base neste enredo de fancaria, fazem-se denúncias de roubo às autoridades policiais e ao SIS (que não é uma autoridade policial) e o SIS decide intervir.
Degradação institucional é não se perceber por que razão o SIS intervém num caso de perda de informação classificada, sem antes as autoridades policiais fazerem o seu trabalho de recuperação do computador, tanto mais que o risco de alguém ter acesso a informação por mais 24 ou 48 horas me parecer irrelevante no caso (a questão não é que a pessoa em causa tenha passado indevidamente essa informação a terceiros, a questão é meramente o fim de uma relação laboral e uma mera questão de lana caprina, a de saber se o trabalhador pode ir ao local de trabalho buscar os seus pertences, independentemente de esses pertences serem ficheiros informáticos ou chaves de fenda).
Com isto tudo, há umas questões relacionadas com mentiras ou não do ministro em causa, que resolve dar uma conferência de imprensa a avisar toda a gente, incluindo os que não lhe atendem os telefones, ou atendem mas lhe dizem que tratam do assunto daí a dias, de que não se vai demitir.
Degradação institucional é um ministro tratar destes assuntos no praça pública, por sua iniciativa, em vez de seguir as avisadas palavras do Presidente da República: «As coisas sucedem, vão sucedendo e depois verifica-se que sucederam».
O Senhor Presidente da República, em vez de seguir os seus próprios conselhos para não se tratar destes assuntos em praça pública, desata a pressionar o primeiro-ministro no sentido da demissão do ministro em causa.
Degradação institucional é isto, é o presidente da república a imiscuir-se publicamente nas competências do primeiro-ministro.
O primeiro ministro monta uma encenação para fingir que mantém o ministro por imperativos de consciência, contra tudo e contra todos, usando os mecanismos do Estado em vez de tratar de sufocar a conspiração do seu partido contra si com os instrumentos partidários adequados.
Degradação institucional é isto, um primeiro ministro a referir-se à conspiração partidária por meias palavras (não sabemos se a reacção do assessor é intempestiva ou voluntária), assumir o papel de juiz (houve um roubo) e fingir que está a tratar do país quando se limita a usar o poder que temporariamente exerce, em nome das pessoas comuns, para resolver a mercearia partidária.
O presidente da república faz uma nota a avisar, publicamente, o primeiro ministro de que a partir deste momento está por sua conta e risco.
Degradação institucional é isto, o presidente da república a fazer intriga em vez de se limitar a representar os interesses comuns da nação.
Se tudo isto resulta de Costa querer eleições o mais rapidamente possível, na posição de vítima, para obter uma derrota com um resultado honroso que lhe permita sair sem ser acusado de abandonar o barco e o presidente da república, pelo contrário, pretender cozinhar Costa em lume brando para o liquidar no momento menos favorável para ele, ou se tudo isto não passa de uma encenação a dois para "viver habitualmente", como tem acontecido até agora, isso eu não sei, o que sei é que nenhuma das pessoas citadas tem verdadeiramente problemas, os que têm um problema, e um problema sério, somos nós, as pessoas comuns, que insistimos em olhar para o lado para evitar ver a profunda degradação institucional em que estamos mergulhados, e a afundar-nos.
Está tudo dito (menos como sair deste labirinto).
ResponderEliminarAnálise perfeita.
ResponderEliminarA grande limitação verbal do senhor PM, só lhe permite usar chavões e palavras sem sentido e sem sinónimo.
Ele diz o que diz, não é por não pensar no que diz, mas porque não tem outro vocabulário.
É a esta gente analfabeta funcional que o país está entregue.
Degradação institucional é isto, é toda a oposição a fazer chincana política com qualquer caso ou casinho.
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ResponderEliminarComo sempre uma valiosa descrição da realidade, mesmo que sem eucaliptos.
Acrescentaria: pegar nesta batata quente não parece ser algo que agrade a
Montenegro...só agrada ao Ventura.
Consequências de um sistema político em que o complexo partidos/AR/PM funciona em completa roda livre desde o 1º dia e durante todo o mandato.
Consequências de um sistema político em que um PR no 1º mandato anda a namorar o PM para almejar um 2º mandato.
Será que agora Marcelo vai começar a ser PR de Portugal em vez da continuada prossecução da sua carreira de comentador/Santa Tereza de Calcutá?.
Só quando as comadres se zangam e o pão (da padaria UE) acabou....
Agora não sei mas antigamente rebentava-se com a "parede" quando não se encontrava a saída.
ResponderEliminarAdenda:
ResponderEliminarAntónio Costa, licenciado em Direito, e até foi Ministro da Justiça, ainda não sabe a diferença entre Roubo e Furto.
o socratismo continua vivo no ps.
ResponderEliminarao pm não interessa a continuação do inquérito à tap.
'' antes só que bem acompanhado''
ResponderEliminarDegradação institucional [...] é o presidente da república a imiscuir-se [...] nas competências do primeiro-ministro.
Exatamente.
O presidente da república não tem nada que exprimir publicamente qualquer opinião sobre os ministros, nem sobre se eles devem ser ministros ou deixar de o ser. Isso são competências exclusivas do primeiro-ministro. O presidente da república não tem nada que se imiscuir nas competências dos outros.
O presidente da república não deve ser uma analista político, que passa a vida a dar opiniões sobre aquilo que cada político faz ou deveria fazer.
Em suma, este presidente da república é uma porcaria. Ou um imbecil, como em tempos Rui Rocha lhe chamou.
Vocês querem é o Passos de volta. Com austeridade e pobreza. E o Chega.
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ResponderEliminarHenrique Pereira dos Santos,
O conteúdo do texto é óptimo. Até temos uma prova: a qualidade dos comentários.
Abraço
Vamos a ver daqui para a frente se realmente existem rabos presos ou se Marcelo vai dar a estocada final que é após findo o inquérito parlamentar da TAP, dissolver a assembleia, afundando assim qualquer credibilidade do Peiesse e impossibilitando assim num futuro próximo a sua ascensão ao poder.
ResponderEliminarEstá enganado, na parte que me toca, a minha frustração sempre foi não ter podido votar na troika para garantir um governo minimamente sensato.
ResponderEliminarO texto diz "cho o post muito bom e pertinente.
ResponderEliminarO que é quer dizer "chincana", que não aparece em nenhum dicionário?
ResponderEliminarAusteridade já temos de volta, pobreza também.
ResponderEliminarO Passos não quer de certeza voltar a ser o mau da fita, suceder ao Sócrates e ao Costa era masoquismo a mais.
O Chega depende do voto dos portugueses, esse não está garantido.
Em primeiro lugar, o senhor não está despedido, foi-lhe anunciado que será despedido.
ResponderEliminarEm segundo lugar, embora seja pouco habitual levar uma betoneira para casa, levar computadores portáteis para casa é normal, razão pela qual a metáfora que usei foi a da caixa de ferramentas e não a betoneira.
O patrão Costa diz, ele repete.
ResponderEliminarPapagaismo internético, como "é lidar" ou "resiliência ".
Cuidado que o Passos está a chegar, batam 3 vezes na madeira.