segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Mito e realidade

O título deste post é de um livro de Mircea Eliade que li há muito tempo (tanto tempo que tive de ir verificar, porque estava convencido de que era de Cláude Levi-Strauss) e apareceu-me naturalmente na cabeça depois de mais umas conversas sobre cheias e afins.


E surgiu-me na cabeça a propósito do mito de que se mantivermos ocupações de solo permeáveis nas bacias hidrográficas, evitamos o problema das cheias rápidas de bacias torrenciais (penso que terá sido aqui nos comentários que alguém lembrou que no deserto da Namíbia se diz que morre mais gente afogada que de sede, talvez a ilustração mais rigorosa de até onde esse mito nos pode levar para políticas de gestão do território erradas).


A infiltração no solo é um processo de velocidade relativamente baixa, embora em circunstâncias particularmente favoráveis possa ter velocidades que até poderiam fazer alguma diferença. Em solos arenosos, com topografia especialmente favorável, a velocidade básica de infiltração pode chegar aos 30mm por hora, o que já é uma grande chuvada. Claro que o efeito dessa velocidade no controlo do escoamento que está na origem da inundação das zonas de acumulação depende de não haver perfis de solo de textura diferente que diminuam o volume disponível com essa velocidade de infiltração.


Acontece que não são estas as características dos solos que temos, na sua maioria, à volta de Lisboa, nem são estas as características que queremos para melhorar o solo, preferimos solos com teores altos de matéria orgânica para que sejam capazes de funcionar como esponjas que retêm longamente a água em circunstâncias que permitam a sua utilização das plantas.


O que faz com que a velocidade básica de infiltração caia rapidamente, podendo ter valores abaixo dos 5 mm/ hora, em solos mais argilosos, valores de velocidade de infiltração que os tornam pouco eficazes para encaixar precipitações de 20, 30, 40mm/ hora, que raramente ocorrem de forma uniforme (por exemplo, a 7 de Dezembro, registou-se 47,8 mm numa hora, mas em dez minutos foram 17,1 mm, o que compara com menos de 1mm de velocidade de infiltração nos mesmos dez minutos para um solo que tenha uma velocidade básica de infiltração de 5mm/ hora. Vale a pena ler este artigo de Carlos da Câmara, que tem estes dados, mas é, do meu ponto de vista, uma crítica muito bem feita ao jornalismo que está na moda).


Uma ressalva para explicar um mal-entendido com um colega meu sobre as minhas afirmações acerca da pouca relevância da discussão da infiltração para a gestão da cheias rápidas de bacias torrenciais (escrevo sempre isto porque a gestão desse tipo de cheias é muito diferente da gestão sobre as cheias das grandes bacias hidrográficas).


Estou a falar da infiltração natural dos solos, aquela que poderia apontar para se evitar a impermeabilização a montante como instrumento de controlo de inundações a juzante, não estou a falar das tecnologias de base natural que, sabendo tudo isto que descrevi acima, dão origem à criação de poços drenantes, isto é, à criação de vazios subterrâneos através da escavação de poços verticais que depois são cheios de brita ou outros materiais grosseiros e permitem, até ao limite do volume de encaixe desse poços, ter velocidades de infiltração elevadas (dependendo do substrato geológico, o esvaziamento desses poços drenantes poderá ser mais ou menos rápido, claro).


Essa é uma solução que foi usada no Parque Eduardo VII, nas obras recentes, e que, dependendo do seu custo face ao benefício, pode ajudar qualquer coisa quando existem fenómenos de precipitação muito intensa e de relativamente curta duração, sendo seguramente úteis nas precipitações pequenas e médias, enquanto não se der a sua colmatação, claro.


Esta solução pode perfeitamente ser usada em tecidos urbanos perfeitamente consolidados, podendo ser uma ajuda muito relevante para evitar inundações de caves, desde que o seu custo seja razoável para o retorno que será de esperar, ou seja, não depende da existência de corredores verdes e outros slogans do mesmo tipo.


O que verdadeiramente me interessa nesta discussão não é a discussão tecnológica (para a qual me falta conhecimento) que remeto para quem sabe, desde que as soluções técnicas venham acompanhadas das adequadas avaliações de custo benefício.


O que me interessa é a discussão dos processos sociais que constroem paisagens, tal como na questão dos incêndios.


Já referi que a solução dos túneis para evitar as cheias é uma solução desenhada para determinadas circunstâncias, portanto, menos útil se a realidade se materializar em circunstâncias diferentes.


Também já escrevi noutro post que o risco maior deste tipo de soluções essencialmente tecnológicas é o de alterarem a percepção de risco (por serem bastante eficazes em circunstâncias médias), levando-nos a desvalorizar o risco das circunstâncias extremas, criando condições de risco que geram tragédias maiores quando a solução tecnológica falha (penso que toda a gente percebe facilmente que o combate aos fogos funciona muito bem 98% das vezes, mas 90% da área ardida e praticamente todas as maiores tragédias resultam dos outros 2% em que o combate não consegue conter o problema).


Por isso me faz alguma confusão que não haja debate sobre alternativas.


Lembro-me de ter ouvido Sá Fernandes dizer que enquanto foi vereador, uma situação como a do dia 7 de Dezembro teria motivado reuniões de coordenação, o fecho imediato dos túneis da cidade e etc..


Aceitar que procedimentos de segurança perfeitamente tipificados dependam da atenção ou vontade do vereador em cada momento (ou do ministro) é aceitar uma organização das coisas públicas completamente errada: se é adequado fechar túneis quando existe uma determinada situação meteorológica, então esse fecho deve estar perfeitamente identificado em procedimentos que não dependem de ninguém, no sentido em que são desencadeados por qualquer pessoa que tenha a responsabilidade de o fazer, quando se verificam as condições para que tal aconteça.


Também vi uns jornalistas a perguntar como era possível que a Praça de Espanha, em Lisboa, tenha ficado mais uma vez alagada (e depois a discussão faz-se entre os tecnocratas que respondem que isso vai ficar resolvido com os túneis e os líricos que reclamam contra a urbanização e os negócios imobiliários), sem que aparentemente se pergunte qual é mesmo o problema da Praça de Espanha alagar?


Só há problema quando alguém confunde uma poça de água com uma estrada, mas nada nos impede de aceitar que a Praça de Espanha pode ser uma poça de água em meia dúzia de dias num ano, fazendo o trânsito divergir para outros sítios durante as horas em que as Praça de Espanha é uma poça de água e não um encontro de estradas.


Provoca perturbações? Sim, mas é muito mais barato (e, na verdade, mais seguro) que andar a fazer túneis para evitar que a Praça de Espanha seja uma poça de água meia dúzia de dias ano sim, ano não.


Do mesmo modo, o que é mais barato, desenhar e executar programas de aviso, treino e capacitação para gerir as inundações nos pontos críticos, ou umas dezenas de milhões de euros em túneis?


Eu não sei, até acho que, se calhar, as duas coisas não são mutuamente exclusivas, o que me faz confusão é estarmos cegamente a confiar que vai correr tudo bem por causa dos túneis, em vez de identificarmos com clareza os pontos em que há problemas com inundações e dizer às pessoas potencialmente afectadas que é melhor manterem o sistem tradicional de ter umas tábuas para evitar a entrada de água, que os projectos de edifícios devem contar com essas inundações (as soluções tecnológicas a adoptar para isso é outra discussão, por exemplo, o hospital da CUF, em Alcântara, terá sido construído um bocadinho acima da envolvente, para evitar que a água entrasse, não confirmei esta informação, uso-a a título de exemplo possível, como antes usei o dos poços drenantes), que há procedimentos que devem adpotar em determinadas circunstâncias, que a protecção civil deve desenhar modelos de aviso e actuação melhores e mais eficientes que os actuais, etc., etc., etc..


Há quem acredite que conseguimos vencer as forças da natureza, ou que todas as intervenções humanas são necessariamente más (sobretudo se for possível no meio do discurso falar de interesses económicos, o que acontece quase sempre porque a vida e a economia, não sendo a mesma coisa, estão intrinsecamente ligadas), a mim parece-me sempre que a resposta mais prudente é a que mais vezes uso, acho eu: depende, vamos lá perceber o problema e fazer umas contas, depois se vê.

8 comentários:


  1. sem que aparentemente se pergunte qual é mesmo o problema da Praça de Espanha alagar?


    Nunca pensei nisso, mas, olhando para o caso, parece-me muito natural que a Praça de Espanha alague, uma vez que ela está rodeada por todos lados por terrenos mais altos que ela.


    O problema de a Praça de Espanha alagar é muito simples, ninguém quer deixar de andar de carro por causa de uma chuvada, da mesma forma que ninguém quer deixar de andar de carro por causa de um incêndio. Ninguém quer ser forçado a encostar o carro na berma e ficar fechado nele durante umas horas enquanto desanuvia. E portanto protesta-se que a estrada não devia ficar alagada.


    (Lembro-me de no dia seguinte aos grandes incêndios de 15 de outubro de 2017 ter lido na internet as queixas de pessoas que tinham viajado nesse dia de carro de Lisboa para o Norte, tendo ficado cercadas por chamas nalguns pontos do trajeto. A minha réplica a essas pessoas foi, por que raio tinham decidido viajar de Lisboa para o Norte naquele preciso dia, naquela precisa tarde, quando nele já era bem sabido, pela hora do almoço, que o país estava todo a arder. Uma pessoa racional e prudente teria permanecido em Lisboa durante a noite e viajado somente no dia seguinte.)

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  2. em 2km2 de charneca meu filho tem afloramentos graníticos, zona de terra arável profunda, areia. 3 charcas, uma delas em zona de barro, uma ribeira. no quintal da minha ex-2ª casa o poço não aguentava 10m de água.
    cidades como Lisboa não têm solução, porque se construiu ad hoc (pé na tábua e fé em Deus)  

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  3. Eis a fonte de inspiração do psitacídeo celoricense para o pedido que, no pretérito Verão, fez aos portugueses para que naquele período se esforçassem por não adoecerem, de forma a não sobrecarregarem o melhor SNS do mundo.


    É sempre óptimo,  e uma honra, privar com os conselheiros da sáfara criatura.


    Amanhã vou deixar o carro na garagem e vou deliciar-me com os esforços debalde do S.Pedro para alagar ali a rua.


    Chiça penico!

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  4. Não direi que é a lógica da batata porque, na realidade, a batata tem mais lógica.

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