quinta-feira, 24 de março de 2022

O que é de mais, é moléstia (uso este título vezes a mais)

Que o Público queira fazer um especial sobre o 25 de Abril, nada contra.


Mas custará muito um mínimo dos mínimos de profissionalismo?


Ana Sá Lopes escreve esta coisa absolutamente extraordinária: "Em 1926 ... a taxa de analfabetismo horroriza qualquer cidadão nascido depois do 25 de Abril: 66,5% ... A educação começa a mudar um ano antes do 25 de Abril, com a reforma Veiga Simão".


Na página anterior  do jornal está um gráfico com a taxa de analfabetismo - que tem sempre alguma inércia temporal porque os adultos analfabetos apenas se tornam alfabetizados numa pequena percentagem - e que demonstra de forma clara a queda brutal entre 1926 e os anos 70, o que torna a frase que citei ainda mais absurda, de tal forma revela a total alienação da realidade sobre a qual Ana Sá Lopes escreve.


O resto do artigo repete as asneiras habituais sobre a evolução do país durante o Estado Novo, incluindo sobre a pobreza e etc.. É extraordinário que para fazer comparações sobre a mortalidade infantil Ana Sá Lopes não vá buscar os números em 1974, mas em 1960, deixando de fora o período económica e socialmente mais dinâmico do país nos últimos duzentos anos, exactamente a década de 60, até 1973 (quando se dá o primeiro choque petrolífero).


Não admira, por isso, que não falte a referência habitual "uma das leis mais humilhantes era aquela que obrigava as mulheres a terem autorização dos maridos para sair do país", sem referência ao facto de leis desse tipo serem frequentes naquela altura em muitos países com sólidas democracias e ter sido o Estado Novo a revogar essa legislação, em 1969.


Que a Democracia e as sociedades abertas precisam de ser defendidas todos os dias, é mais ou menos consensual, mas caramba, torcer a realidade para descrever realidades negras para contrapor a realidades cor-de-rosa, quando a realidade real é sobretudo feita de cinzentos, não me parece que seja a melhor maneira de defender as virtudes da democracia.


Ao ler artigos deste tipo (e o tal caderno especial do Público está cheio disto), só me lembro do ministro da propaganda de Saddam Hussein, que continuava a dizer que não havia guerra nenhuma, ao mesmo tempo que atrás desfilava tudo o que caracteriza uma guerra.


Por mim, isso não reforça minimamente a confiança que eu deposito no jornalismo feito por quem escreve panfletos absurdos a propósito de coisas que até são largamente consensuais.

17 comentários:

  1. Chato e repetitivo : preferir os produtos da " Fábrica de Papel Renova"  a este folhetozeco...
    E  não pôr os pés, nem o resto da anatomia, nas merdearias e  demais "estaminés" do grupo, por uma questão de coerência...e higiene mental/moral...
    JSP

    ResponderEliminar
  2. O que diria a Ana Sá Lopes disto, caso fosse anterior ao 25/04/1974. Mas não é. É de 24/03/2022.

    ResponderEliminar
  3. nasci em 1931 numa aldeia alentejana e em 37 havia escolaridade obrigatória
    o país era pobre e analfabeto: ainda hoje não sei o significado de certas palavras
    não estava endividado e mal administrado
    a minha geração forneceu 5 licenciados
    a desgraça iniciou-se em 1974 com a generalização do ódio
    despovoou-se e quem fugiu morreu de fome
    os sociais-fascistas trataram-me como fascista
    passei por lá há 30 anos e não volto nem morto
    o interior mete dó
    trabalhei inutilmente por isso aconselho que sejam vadios e sobrevivam de subsídios
    este governo não criará riqueza e merece desobediência civil porque só 1 em cada 4 votou nele. Dos milhões espalhados pela Europa votaram menos de 100 mil  
    só aumentará a dívida
    a minha pátria é o lugar onde moro

    ResponderEliminar
  4. Exacto! E que diria a Ana Sá Lopes da "intolerância esquerdista" de estudantes maoístas ou do BE que exigiu (com ameaças de violência) o cancelamento de uma palestra do Prof. Jaime Nogueira Pinto na U.Nova de Lisboa?

    ResponderEliminar
  5. Até 1974 construíam-se escolas, agora vendem-se escolas. EM 1946 o meu irmão partiu uma perna e o meu Pai fazia uma caminhada com ele às costas para não faltar á escola. Hoje  vão de carro.

    ResponderEliminar
  6. A Ana Lopes é um caso perdido. Tenho muita pena da senhora e de quem a atura!

    ResponderEliminar
  7. Não percebo o comentário: em que é que não apliquei o mesmo no caso da Ucrânia?

    ResponderEliminar

  8. "uma das leis mais humilhantes era aquela que obrigava as mulheres a terem autorização dos maridos para sair do país"


    Deve-se acrescentar que os maridos também não podiam sair do país sem autorização do Estado. Homens com menos de 45 anos de idade não podiam sair do país sem autorização das Forças Armadas.

    ResponderEliminar
  9. É espantoso que a esta jornalista tenham passado ao lado as intervenções recentes (2021) e as  publicações do professor e investigador da Unv.de Manchester Nuno Palma, exactamente sobre a questão do analfabetismo (entre outros temas) durante o Estado Novo, uma das áreas em que é especialista e que suscitou tantos debates e polémicas na sociedade "instalada" tanto na imprensa, como nos meios políticos e académicos. Os estudos e os resultados da investigação de N.P. sobre o Estado Novo foram divulgados, foram conhecidos os  recolhidos com a precisão dos números, desse período, gerando enorme estupefacção na sociedade, pois desfizeram-se _ ou contrariaram-se!_ os "mitos" bolorentos criados e consolidados pelas "anasálopes" serviçais do regime, permeáveis ao viés político, coadjuvadas por outras tantas anasálopes (têm um incrível poder de multiplicação!!!) o que gerou enorme desconforto nas elites do mainstream "bem pensante". 
    Porque voltou ela aos "clichés" ideológicos que inquinam o dever de imparcialidade na informação? Onde andava a Ana Sá Lopes na altura em que foi divulgado o resultado da investigação de NP?! Talvez de ouvidos tapados para não ouvir desfazer a "narrativa" gasta com cheiro a mofo.



    https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/outra-vez-o-estado-novo-7489120



    https://nofuturepast.wordpress.com/2021/10/07/stunting-and-wasting-in-a-growing-economy/



    https://observador.pt/programas/do-8-ao-80/portugal-cresceu-durante-o-estado-novo/



    https://nunopgpalma.wordpress.com/2021/06/08/cortinas-de-fumo-a-industria-de-falsificacoes-e-deturpacoes/

    ResponderEliminar
  10. Aprecio muito séries policiais. Há tempos segui a série "O Inspector Maigret" ("Le Comissaire Maigret") filmado e rolado no início dos anos 60, ainda a preto e branco.
    Posso afiançar que a condição da mulher na sociedade francesa e o seu "lugar" na família e perante o marido era em tudo idêntico ao que viviam as mulheres portuguesas na mesma década. Era o mesmo modelo de sociedade patriarcal, a mulher desempenhando os papéis pré- "destinados" de esposa, mãe, dona de casa, etc. Enfim, causou-me certo espanto, atendendo aos "chavões" que ouvimos sobre as "leis humilhantes" do Estado Novo, que relegavam a mulher para um papel de subalternidade em relação ao homem... 
    Outro aspecto que a série mostrava _ pois a acção, muitas vezes, decorria em meios rurais, onde o sector agrícola é a principal fonte de rendimento e de subsistência das comunidades_  é que o tão proclamado "atraso" português também não revelava diferenças flagrantes entre os "paysans da la campagne" e os nossos camponeses. Semelhantes formas de pensar, de se organizarem, de se vestirem, de viverem e até de se divertirem  eram idênticas. Os trabalhos no campo em ambas os casos (Portugal ou França) eram feitos do mesmo modo, comunitário, com o contributo de toda a família, incluindo a participação os filhos ainda menores (de lembrar e salientar que o trabalho infantil é uma das principais acusações feitas ao Estado Novo... e no entanto, na desenvolvida França...) 
    Recomendo vivamente, já que mais não seja, para se fazer uma comparação sociológica... dentro da mesma época.   

    ResponderEliminar

  11. Não lhe deu muito jeito escrever sobre tal.

    ResponderEliminar
  12. Se me permite, coloco dois documentário sobre a vida dos camponeses em França nos anos 60. 
    I) -  O 1º tem cerca de 15m. (Sobre a vida doméstica da mulher recomenda-se a visualização  :
     
    https://www.youtube.com/watch?v=zr_VVDyYybo



    II) -  O 2º documentário, mais longo, cerca de 39m, contém elementos interessantes sobre a vida no campo numa pequena localidade francesa e destacam-se as muitas semelhanças com o mundo rural português durante o mesmo período (por ex. a matança do porco, logo no início).
    Sobre o trabalho da Mulher pode visualizar-se  Segue-se o "bailarico" popular, tradicional nas aldeias.


    Que diria a Ana Sá Lopes se visualizasse estas imagens? Veria nelas apenas o retrato social, transversal, de uma época "tal como ela é" (ou foi) ou também seria "culpa" do Estado Novo? Fosse qual fosse a sua "interpretação" destas imagens, o certo é que esses anos em Portugal corresponderam ao período de maior convergência, de crescimento económico e de aproximação à média europeia, como qualquer gráfico o comprova. "Dados são dados, números são números e são indesmentíveis" como repetia o saudoso (e insuspeito) Dr.Medina Carreira que não fazia propriamente a apologia do Estado Novo... limitando-se a ser sério e isento_ coisa de que nunca seria capaz o jornalismo militante e virolho das anasálopes.
     

    ResponderEliminar
  13. https://www.youtube.com/watch?v=_YayPDbxjAE



    (um dia numa família comum em França, cerca de 11 min.))

    ResponderEliminar

  14. (Corrijo o meu lapso):


    II) -

    ResponderEliminar
  15. Em 1974 seguimos o canto das sereias, e corremos com os homens honestos.


    Agora até as tão enaltecidas liberdades vão todas por água abaixo, uma a uma com aplauso geral da turba intoxicada pela comunicação social.


    Que repete assíduamente mentiras até se tornarem verdade.

    ResponderEliminar

O Naufrágio das Ilusões

O Ocidente escolheu a cegueira voluntária. Durante décadas, embalado pelo entorpecimento da globalização e pelo mito do livre-trânsito unive...