"Nós queremos é justiça,
E dinheiro para o bife,
E não esta coboiada
Em que é tudo do sherife"
Sérgio Godinho, em Quatro Quadras Soltas, define com absoluta lucidez o que é comum nas pessoas comuns, vivam elas no ocidente, na Rússia, no Japão, na Coreia do Norte, em Moçambique, ou em Pasárgada.
Vem isto a propósito das dezenas de coisas que vou lendo sobre a especificidade russa (ou eslava), que culminha nas referência ao Rus de Kiev, a propósito de um facto simples: a Rússia invadiu a Ucrânia.
Há até quem argumente que os russos isto e os russos aquilo, sem que eu perceba como se consegue saber o que querem os russos se aquilo não é uma democracia e uma sociedade aberta.
Pessoalmente, é uma fé que tenho, acho que devem ser muito poucos os russos que acordam de manhã e sonham com o Rus de Kiev, ou que haverá muitos soldados mobilizados para frente da batalha entusiamados pela ideia da grande Rússia.
A treta de que os valores ocidentais não são universais não deixa de ser uma treta assente em duas premissas falsas: 1) os valores implícitos na quadra acima são ocidentais, e não apenas humanos; 2) existem sociedades em que as pessoas comuns sejam indiferentes à justiça e ao dinheiro para o bife, vivendo a sua vida à procura redenções metafísicas em que a justiça e o dinheiro para o bife sejam pormenores irrelevantes.
Os russos, no sentido das pessoas comuns que se reconhecem como russas, podem ter informação diferente da minha, ou dar importância diferente à informação que temos em comum, mas seguramente serão sensíveis à injustiça e à falta de dinheiro para o bife.
Discutir a invasão da Ucrânia pela Rússia como se as pessoas que estão de um lado ou do outro da frente de batalha quisessem coisas intrinsecamente diferentes, a mim parece-me uma tolice.
Só ultrapassada pela tolice de achar que o que pensam essas pessoas concretas, de um lado e do outro da frente, não interessam nada porque é tudo determinado pelas grandes forças que governam o universo.
ResponderEliminarMas há que saber distinguir entre "os russos", população, e "os russos", dirigentes políticos.
Tal como em todos os países a população quer paz, justiça e dinheiro, também em todos os países há uma classe dirigente - que geralmente já à partida tem paz, justiça e dinheiro - que quer outras coisas.
Quando alguém fala daquilo que "os russos" querem, é preciso tentar perceber se ela está a falar do povo russo, ou dos dirigentes russos.
Se é evidente que tanto o povo russo como o povo ucraniano querem basicamente a mesma coisa - paz, justiça e dinheiro -, parece que também tanto os dirigentes russos como os dirigentes ucranianos querem basicamente a mesma coisa - serem eles a mandar na Crimeia e no Donbass.
ResponderEliminarAquele que se julgava a grande e única força que governava o Universo está morto e bem morto naquilo que à sua sacrossanta imagem diz respeito; e, fisicamente, ao que se diz, não tardará?
Morre apenas ele, ou arrasta-nos na queda? Elaborei um pouco sobre o tema em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2022/03/vladimir-putin-morreu-leva-nos-com-ele.html, que convido a visitar e a comentar.
Não nos esqueçamos que, nesta aberração que lançou, apenas os espíritos racionais e lúcidos afastam - porque nem nisso querem pensar... - a ideia de um ataque nuclear, opção única para quem já não sabe, depois do enorme fiasco, o que fazer para ressuscitar.
Bom fim-de-semana.
Há boa e má gente em todos os países. Todos temos direito à liberdade e isso é um facto. Todavia há sempre alguns que tentam não concordam com isso. Aguns para quem não interessa que se saiba os 2 lados da moeda. Só interessa A SUA PERSPECTIVA. Isso impede que os outros possam opinar. Oh sim, opinar! Lá diz um certo autor cujo nome não recordo :" Os livros são cultura e por isso inimigos da ignorância". Uma pessoa que possa pensar é um perigo para alguns certos senhores políticos neste planeta. Se opinar e a sua opinião não coincidir com o dito senhor, então o opinante pensador é um criminoso.
ResponderEliminarComo podemos dizer o que os outros pensam se nós não estamos nas suas cabeças? Pode-me dizer quantas mães não sofrem sem saber se os seus filhos voltam ou jazem em valetas, pois alguém se recusa a trazer mortos?
Como se pode falar em democracia em países onde impera a censura? onde opinar diferente é proibido? Onde os media independente são perseguidos? Diga!
HPS:
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ResponderEliminarSe me é permitido fica aquim um canal telegram em português, directamente da Ucrânia, com muitas imagens que não passam na tv muito menos no obervador:
https://t.me/UkraineNowPortugese
obrigado
Desta vez não concordo com HPS. Sérgio Godinho tem pouca testa. A quadra é verdadeira mas não é a verdade toda.
ResponderEliminarSe fosse a verdade toda, o povo russo estaria maioritariamente contra Putín. Têm um PIB "per capita" de metade do português, que já de si é miserável. E liberdade, nem vê-la. Tudo é do sheriff aplica-se que nem uma luva a Putín que de longe ultrapassou os soviéticos pois estes tinham um Politburo.
No entanto, com enorme contrariedade ocidental, Putín continuava com taxas de aprovação acima dos 60% mesmo depois da invasão (admito que a situação mude rapidamente à medida que forem conhecidas as mortes).
Por isso a noção de uma Rússia imperial ou, se quiser, não humilhada por estrangeiros, também é aspiração popular russa.
Sim, essa jornalista refere frequentemente esses 13 mil ou 14 mil mortos nos cerca de oito anos da guerra de secessão no Donbass.
ResponderEliminarE o número é um número bastante fiável e sólido.
O que essa jornalista se esquece de dizer - e é por causa dessa falta de rigor que ninguém lhe liga nenhuma, não é por dizer verdades inconvenientes - é que cerca de 10 mil desses mortos são combatentes de um lado e do outro (não em números iguais, mas para não complicar vamos partir do princípio de que são mais ou menos fifty/ fifty, e os outros 3 mil, civis, tanto são das áreas libertadas como das áreas por libertar, mas essencialmente são civis que foram apanhados entre dois fogos.
Como sabe, num mês de invasão russa esses números de oito anos já foram muito ultrapassados.
Eu não entendo a estupidez de repetir coisas pensando que os outros são incapazes de fazer a crítica das fontes.
Temos que ír um pouco mais longe nessa sua análise económica.
ResponderEliminarO PIB per capita é de facto metade do nosso (ou até um pouco menos) mas o PIB per capita em paridade do poder de compra está entre 80% e 85% conforme as fontes.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_PIB_(Paridade_do_Poder_de_Compra)_per_capita
Portanto não me parece que esse aspecto conte muito.
Eu apostaria mais nas outras vertentes todas que refere.
É claro que não encaixa "
ResponderEliminar«In the big lie there is always a certain force of credibility; because the broad masses of a nation are always
ResponderEliminarEu também "não entendo a estupidez de repetir coisas pensando que os outros são incapazes de fazer a crítica das
E agora vou dar-lhe uma novidade, que apesar de não o ser parece que ignora: depois da assinatura dos acordos de
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/presidente-da-ucrania-pazes-neonazis/ , num artigo intitulado "Como o presidente da Ucrânia fez
Como vai sendo habitual, "Elvimonte" assume uma claríssima opção pró-russa, disfarçando-a como diferente opinião e diferentes fontes de informação.
ResponderEliminarJá por duas vezes tive de desmontar o argumento de que os americanos orquestraram manifestações que levaram à deposição do presidente Ianukóvitsch em 2014
https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/e-tudo-impensavel-mas-vai-provavelmente-7619684?thread=37738596#t37738596
Hoje em mais dois flagrantes exemplos de desinformação, insiste no incumprimento pela Ucrânia dos acordos de Minsk, como se fosse uma verdade bíblica e insofismável e deixa um link para um artigo, subscrito por dois jornalistas ligados (um é funcionário, outro colaborador) à RT America, antes "Russian Today", uma plataforma criada nos Estados Unidos pela rede internacional da televisão russa, fundada pelo governo.
https://en.wikipedia.org/wiki/RT_(TV_network)
Um deles, Max Blumenthal, foi mesmo convidado para uma festa de aniversário do partido, com a presença de Putín e com viagem paga pela Rússia.
O artigo é uma perfeita peça de propaganda. Faz afirmações simples e com impacto que podem ser repetidas mas não as substancia. No caso mais flagrante. como repetiu "Elvimonte" o batalhão Azov foi integrado no exército ucraniano. Mas, linhas abaixo, deixa escapar que o ministro do Interior tem acompanhado o processo. Ora a verdade é que, numa tentativa de controlo, essa milícia foi enquadrada no ministério do Interior. Nem foi integrada no exército nem os seus chefes receberam patentes militares.
Estamos na verdade, na presença de desinformação profissional
O batalhão Azov nem é hoje a maior milícia armada da Ucrânia. O seu protagonismo deve-se a servir de propaganda pela sua origem neo-nazi que estará ou não hoje atenuada, não tenho informação actual credível. Foi a milícia que retomou Maríupol, expulsando as milícias pró-russas apoiadas por elementos, se não unidades, das forças especiais russas, enviadas para o Donbass em 2014 e que explicam como duas pequenas bolsas pró-russas se têm mantido contra milícias apoiadas pelo exército ucraniano. Os seus elementos sabem bem que estão nas célebres listas dos alvos a abater e que, para eles, a rendição não é opção. O próprio Lavrov, em declarações na Turquia, disse que a maternidade bombardeada em Maríupol, já não tinha grávidas porque era o quartel-general da brigada Azov, facto cabalmente desmentido com fotos de um jornalista internacional que ficara em Maríupol.
De resto o absurdo é evidente. Será que a população de Maríupol apoia neo-nazis? Mas, se estava contra eles, porque não fugiu para a Rússia quando essa oportunidade lhes foi dada?
Independentemente de narrativas, os factos são simples. A extrema-direita, - que não é toda neo-nazi e o senso comum diria mesmo que estes são minoritários - representa 2% do eleitorado ucraniano e elege zero deputados.
Já exprimi a minha adesão à opinião que a ameaça para o regime russo não era a Ucrânia aderir à NATO mas aderir à UE.
ResponderEliminarPara tentar compreender um dirigente, é necessário conhecer o seu percurso pois as experiência pessoais que viveu são muitas vezes determinantes. Por exemplo S. João Paulo II, quando arcebispo de Cracóvia sob ocupação soviética, viu-se confrontado com imensas acusações de pedofilia a sacerdotes, pois essa era uma directiva política de Moscovo, para diminuir a influência da igreja católica na Polónia. E com tantas mentiras lidou que mais tarde, já Papa, deu sempre o benefício da dúvida aos acusados que negavam as acusações. Sem essa circunstância, o enfrentamento da questão, que se iniciou com Bento XVI embora só tenha saltado para a praça pública com Francisco, ter-se-ia certamente iniciado mais cedo.
Vem isto a propósito de Putín em 1989, oficial júnior do KGB, estar colocado em Berlim e ter visto o muro ser derrubado. E não foi por mísseis da NATO mas por pessoas que queriam melhores carros, melhores casas e a possibilidade de viajar.
Putín na Rússia, abriu o comércio de bens de consumo do Ocidente e com isso, não só satisfez uma aspiração das classes médias, como proporcionou lucros a apaniguados, sobretudo com "franchisings". Mas não tinha nem tem economia para assegurar boa habitação nem permitir turismo externo.
Um professor universitário russo pode viver num T1 ou T2 longe do centro, com a qualidade de construção como temos nos arrabaldes de Lisboa E não vejo excursões russas em Cascais ou no Algarve.
Turismo externo, não entra nos cálculos da paridade do poder de compra e a habitação entra pelo custo, não por qualidade comparada e creio que nem, salvo correcções básicas, por índices de localização.
Isto não invalida ao seu argumento, apenas lhe retira algum peso.
Engana-se, a maioria do povo russo está com Putin e orgulha-se tanto do seu ímpeto "expansionista" (digamos), como do seu projecto imperial de reconstrução da grande Mãe Rússia. Só uma minoria, a camada mais culta, (quase todos intelectuais e/ou com profissões diferenciadas) abandonou o país. Estive a ouvir os testemunhos impressionantes de alguns deles, há momentos, numa reportagem da CNN. Aconselho-o a ouvi-los também sobre o que eles dizem da lavagem ao cérebro que fazem ao povo na Rússia, equipararam-na à da Alemanha nazi. Não esqueça de que a informação é fortemente controlada e com uma feroz a censura. O Balio não desconhece certamente o que acontece àqueles mais ousados que "resolvem" ter a ousadia de se expressar livremente.
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ResponderEliminarQueira vossa mercê Elvimonte comparar a 2ª Grande Guerra e Blitz Kireg com o que se passa agora. concordo com que o anónimo disse e mais! Arrisco que seja 2ª conta para V. exª se auto defender. Na Blitz Krieg, invadiu-se, bombardiou-se e levaram-se as pessoas à força das suas casas. Quer-me dizer que em Mariopol, as pessoas não foram transportadas para a Rússia quando queriam ir para outro lado? Que a Ucrânia foi invadida porque quis?
ResponderEliminarMais ainda! O que se passa é um ataca 1º e falamos depois quando te quizeres render! Mariopol e outras terras estão a sofrer a versão moderna do cerco de Massada. Justifique-me isso. Que mal fizeram as crianças mortas? Os que estavam no hospital sinalizado e bombardiado? V. Exª quer é uma 2ª guerra fria onde a Rússia escravize o resto do mundo! Acaso sabe que eles têm 2 armas com o nome do Demo? Satã 1 e 2? Não sabe???? Mas têm. Disse!