segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Uma seca

Um dias destes ligaram-me da rádio Observador, para me perguntar se eu estaria disponível para no dia seguinte, de manhã, entrar num programa sobre a seca.


Argumentei que secas não era bem um tema sobre que soubesse muito, se não seria melhor falarem com pessoas que estudam o assunto a sério, mas pela hora a que me estavam a ligar e pela relativa insistência, que indiciavam alguma dificuldade em ter gente para o programa (sei bem a dificuldade em ter sempre gente disponível para falar num programa diário), e pela consideração que tenho por quem me convidava, depois de me assegurar que era só um bocadinho do programa e que me ficaria pela generalidades sobre secas e paisagens, acabei por dizer que sim.


O resultado está aqui para quem tiver curiosidade em ouvir (eu entro ao minuto 41, mais coisa, menos coisa e digo asneiras como que a secura é baixa em vez de dizer que a humidade é baixa, que é o que acontece quando se fala de assuntos sobre os quais se fala menos frequentemente, um bom improviso demora muito tempo a preparar).


Acontece que entretanto Capoulas Santos fez umas declarações em que diz é preciso relativizar o problema da seca e os meus amigos ambientalistas imediatamente reagiram com a resposta previsível (e que eu tinha antecipado na minha intervenção, ali pelo minuto 48): como é possível querer relativizar o assunto e, por exemplo, expandir regadios com as secas a aumentar?


Aí pelo minuto 56, eu respondo à pergunta que me fizeram (a que está no parágrafo anterior) e que na verdade tinha conseguido evitar responder desde o princípio da minha intervenção (já tenho anti-corpos suficiente no movimento ambientalista, a que pertenço, para não os querer aumentar): parece-me claro que o regadio aumenta o risco dos produtores nos anos secos, mas também me parece evidente que aumenta muito a produção nos anos bons.


Globalmente, o critério deveria ser económico e o Estado deveria abster-se de apoiar as vítimas da seca (ou pelo menos limitar os apoios a situações limite de sobrevivência), deixando ao produtor a gestão dos seus riscos.


Ou seja, o regadio não deveria estar a ser orientado para a diminuição dos preços dos alimentos, que já hoje são extremamente baixos, mas deveria incorporar o risco do produtor nos anos secos, através do aforramento de excedentes nos anos bons.


Ser contra o regadio não faz sentido, mas também não faz o menor sentido manter este sistema em que privatizamos os lucros do regadio e socializamos os prejuízos decorrentes da seca.


Do que precisamos é de mais regadio, sim, mantendo os riscos da seca na esfera do produtor.


O que, inevitavelmente, vai fazer subir os preços da alimentação e das fibras: a sustentabilidade tem custos e talvez seja o tempo para dizermos, com clareza, que precisamos de transferir rendimentos dos outros sectores para o sector primário, e que o preço e os mercados são a forma mais eficiente de o fazer, muito mais eficiente que a intervenção coerciva dos Estados.

7 comentários:


  1. o regadio aumenta o risco dos produtores nos anos secos


    É questão de saberem com quanta água podem contar.


    Os meus sogros têm uma herdade com regadio no vale do Sorraia. Há umas dezenas de anos fazia-se lá arroz. Depois começou a haver menos água, deixou de se fazer arroz e passou a fazer-se milho - que exige menos água. Agora há ainda menos água, deixou de se fazer milho e plantou-se amendoal, que exige um mínimo de água.


    Ou seja, não há risco, desde que se saiba com quanta água se pode contar e se saiba fazer a cultura adequada.


    Parece que há uma grande aflição porque no vale do Sado os agricultores estão habituados a cultivar arroz e tomate e não sabem fazer outras culturas, e agora não têm água suficiente para o arroz. A solução passa evidentemente por trocar esses agricultores por outros que saibam cultivar, talvez milho, talvez oliveiras, em vez de arroz e tomate.

    ResponderEliminar
  2. A  meteorologia em Portugal continental é condicionada pelo posicionamento e extensão do anti-ciclone dos Açores. No que à precipitação diz respeito, é este centro de altas pressões que impede, quando se centra mais a norte, que sejamos atingidos pelas superfícies frontais que dão origem à chuva, normalmente desde o Outono até ao final da  Primavera. 


    Recordo-me de anos muito chuvosos e de outros de seca. Num desses anos a precipitação tinha sido escassa até Abril e os sinais de alarme começaram a soar para as bandas do governo. O ministro do ambiente de então, que mais tarde se viria a "demitir" em consequência duma anedota sobre alentejanos e tabuleiros de alumínio, anunciava medidas de emergência e já chovia nesse dia. Uma chuva que apenas parou já durante o mês de Julho e que nesse mês me custou uma das maiores molhas que apanhei até hoje enquanto viajava de moto de Lisboa para o norte. Ainda parei em Aveiras para vestir o impermeável, mas faltavam as calças. Desde Aveiras até Santarém foi sempre a chover. E de Santarém para cima foi sempre a evaporar e a arrefecer.


    Globalmente, segundo o último Assessment Report do IPCC, o AR6 (https://www.ipcc.ch/assessment-report/ar6/), não há sinal de aumento no que respeita a meteorological drought e a hydrological drought. Há sim sinais de ecological drought (seja lá o que isso for) e de agricultural drought. Curiosamente, há também sinais de aumento de heavy precipitation. Mas não há sinais de aumento de flooding. Desenganem-se os activistas eco-apocalípticos, jornalistas da propaganda, políticos e otários avulso.


    A agricultura é uma actividade que comporta riscos que escapam ao nosso controlo. Muitos desses riscos advêm da meteorologia e da variabilidade climática que, por exemplo, impede que na actualidade se cultive tudo o que é necessário para o fabrico de cerveja na Gronelândia, muito embora no Período Quente Medieval assim não acontecesse.


     

    ResponderEliminar
  3. Excelente post. Desenvolvendo, outra questão não despiciente é que a intervenção do Estado além de exigir ao agricultor perdas de tempo e deslocações para preencher os requisitos das candidaturas, assegura mais uns tantos empregos para monitorizar as situações e propor medidas e outros tantos, aliás mais, para gerir as ajudas.
    Não creio que a situação vá mudar. Há uns bons anos, é certo, eu era obrigado a "set-aside" a produzir milho em terras de regadio e de grande capacidade produtiva e recebia o respectivo subsídio enquanto outros agricultores em areias desadequadas à produção de milho, recebiam subsídios para instalar "pivots" para o produzir. Garantiram-me - vendo como comprei - que as repartições que geriam o "set-aside" e os subsídios ao equipamento funcionavam no mesmo andar do mesmo edifício de Bruxelas.
    Creio - é possível estar desactualizado de vários anos - que os agricultores recebiam entre 66 e 70% do custo total dos subsídios, isto é, que mais de 30% suportava a burocracia. A isto, adicionavam-se as idiosincrasias portuguesas. Vou contar noutro comentário. 

    ResponderEliminar
  4. O parcelário (identificação das SAU superfícies agrícolas úteis) entrou em vigor por decisão de um secretário de Estado e durante anos, esteve em vigor, desactualizado sempre que havia uma alteração estrutural. No meu caso, além das áreas culturais serem variáveis, a referência, uma linha de distribuição de água foi desactivada e substituída por canalização enterrada. A partir daí era impossível fazer corresponder as áreas semeadas ao parcelário e eu - não era caso único - diminuía de 5 a 10% as área comunicadas porque o IFADAP, quando detectava um pedido com área em excesso eliminava o subsídio para a área total.
    Mas era fiscalizado quase todos os anos. Num desses anos, vieram duas muito jovens engªs agrónomas, uma a sério do ISA outra que antigamente se chamaria engª técnica agrária. Munido do levantamento topográfico expliquei a situação localmente - o "set-aside" estava dividido por duas parcelas do desactualizado parcelário e o avião inspector detectara a falta de área apenas numa delas - e depois convidei-as para almoçar. Explicaram-me que pertenciam a uma empresa que prestava serviços ao ministério e, quando ingenuamente (ou talvez não) lhes perguntei se o ministério não tinha técnicos para fazer esse serviço a mais faladora riu-se muito e explicou que a verba para gasóleo se esgotava nos primeiros 3 ou 4 meses e depois já não podiam sair. Continuei a fazer perguntas e fiquei a saber que a empresa era de formação recente e um dos dois patrões era um dos subdirectores-gerais do ministério da agricultura. Quando perguntei se a empresa era uma empresa comercial e quem eram os sócios, finalmente percebeu que já estava a falar demais e não consegui adiantar mais nada.
    Considero quase impossível a quem tenha sido empresário e seja honesto não ser defensor do liberalismo económico. Quer subsídios quer taxas, aumentam a burocracia improdutiva e são geradores potenciais de corrupção.

    ResponderEliminar




  5. Isso parece um excelente conselho, mas na prática é extremamente difícil.


    O que acontece na agricultura (e não só) é que é difícil os produtores coordenarem-se para aforrar os excedentes dos anos bons. Ademais, os produtos agrícolas têm tendência a estragar-se.


    A tendência é, quando há um ano bom, todos os agricultores quererem vender a sua grande produção e os preços baixarem de tal forma que, por vezes, os agricultores ganham menos dinheiro do que num ano mau.


    Para que haja aforramento dos anos bons é precisa muita coordenação entre os agricultores [e o Estado], e grandes estruturas de conservação da produção excedentária, para que ela possa ser conservada até aos anos maus e só então ser vendida. Na prática, isso raramente existe, exceto para alguns produtos.

    ResponderEliminar
  6. Podem aforrar as moedas depois de venderem, ou as notas ou, para os mais modernos, usar contas bancárias, onde a probabilidade de se estragarem os ganhos é mais baixa.

    ResponderEliminar

Quantos são? Quantos são?

Tenho cada vez menos paciência para o jornalismo (onde incluo o comentário, até porque está cada vez mais difícil separar notícia de opinião...