O Jornal de Notícias tem hoje como manchete "Há mais de duas décadas que o país não ardia tanto".
E quando eu esperava que isto fosse uma entrada para a excelente notícia de que este ano já se conseguiram queimar 5 mil hectares, eis que afinal não, parece que a notícia existe porque alguém acha dramático terem ardido cinco mil hectares desde o princípio do ano até agora.
Camaradas, vamos lá fazer umas continhas de algibeira.
Portugal tem cerca de 9 milhões de hectares que podemos dividir, grosseiramente, em três partes mais ou menos iguais: 3 milhões para usos agricolas, urbanos, sociais e por aí, 3 milhões de povoamentos florestais e 3 milhões de matos.
Para ganharmos controlo sobre o fogo, isto é, termos essencialmente fogo que não provoca prejuízos sociais, económicos e ambientais de maior, precisaríamos de queimar no Outono/ Inverno mais ou menos um quinto das áreas de maior risco, isto é, os seis milhões de hectares de matos e povoamentos, para ter os fogos de Verão sob controlo e sem danos de maior.
Ou seja, seis milhões de hectares a dividir por cinco, 1,2 milhões de hectares.
Vamos agora considerar que há um terço desta área que gere os combustíveis com recurso a outras técnicas (uma hipótese mais que optimista, visto que haverá uns duzentos mil hectares de eucalipto e pouco mais que é gerido com recurso a outras técnicas de controlo de combustível), e sobram 800 mil hectares.
Vamos admitir que afinal conseguimos obter resultados razoáveis de controlo do fogo com metade desta área, quer porque resolvemos que o controlo de combustíveis deve ser feito com intervalos maiores, quer porque podemos ter uma percentagem menor gerida, quer porque se encontram outras formas, como pastoreio, para gerir combustíveis, e chegamos a 400 mil hectares.
Arderam cinco mil hectares do princípio do ano a meio de Fevereiro?
Temos de dar corda aos sapatinhos, mandar os bombeiros para os quartéis e atacar com tudo o que temos para ver se conseguimos queimar os 395 mil hectares de que precisamos para ter descanso no Verão.
Infelizmente, não tenho a menor esperança de que isso seja possível, portanto lá vamos tendo que alimentar o espetáculo dos fogos de Verão com a acumulação de combustível que o Jornal de Notícias, e a esmagadora maioria da população, acha óptima.
Palpita-me que dentro de pouco tempo, quem insiste em fazer contas, acabará banido de toda a comunicação social
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