terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Quebrar cadeias de contágio

Há já muito tempo, quando Graça Freitas ainda não estava possuída pelos espíritos da nova epidemiologia (dizendo, inclusivamente, que as máscaras, tal como os testes, acrescento eu agora, criam uma falsa sensação de segurança), foi muito clara a explicar as diferentes fases de uma epidemia e de como a estratégia de gestão do problema deveria estar ligada a essas fases.


"Esta é a última fase de resposta ao surto e é ativada no momento em que as autoridades de saúde reconhecem que as fases anteriores de combate, a Contenção (fase um) e Contenção Alargada (fase dois), são já insuficientes para descrever a evolução da propagação do surto. É também aí que são tomadas as medidas de resposta mais drásticas para que o país consiga responder à propagação de uma epidemia — neste caso, também pandemia —, antes de entrar na fase última de gestão de um surto como estes: a fase de recuperação".


Isto era o que Observador (e todos os outros) escrevia logo no dia seguinte aos idos de Março de 2020.


Já várias vezes Graça Freitas tinha referido as fases clássicas de resposta a uma epidemia, primeiro procurando contê-la (quando ainda existe numa pequena unidade geográfica que possa ser eficazmente isolada), depois procurando contê-la num âmbito geográfico mais alargado, procurando limitar imediatamente os focos que apareçam fora da área geográfica inicial e restringindo fortemente as deslocações a partir do foco principal ou dos secundários e, por fim, a fase de mitigação, quando existe disseminação comunitária, em que, como é dito sensatamente acima, as medidas de contenção são largamente ineficazes.


Infelizmente, a nova epidemiologia, assente em testes laboratoriais e modelos matemáticos que simplificam excessivamente o desenvolvimento de uma epidemia, eliminando da análise tudo o que é difícil de matematizar (a heterogeneidade das populações em relação à imunidade, os padrões geográficos de evolução que dependem de factores ambientais externos aos hospedeiros e transmissores, a reacção social à percepção pública dos riscos, etc.) impôs-se como uma bíblia sobre a qual todas as dúvidas deixam de ser dúvidas para ser heresias.


A ideia central é a de parar o contágio: "you need to go after the virus, you need to stop the chains of transmission", é a lição trazida por Michael Ryan, director executivo do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde.


Lição essa explicitamente aprendida com os surtos de ébola e que, estranhamente, se acha normal aplicar à epidemia de covid, uma doença substancialmente diferente da ébola.


E quando se diz substancialmente diferente, quer-se dizer que uma transmite-se por contacto, outra por aerossóis, uma mata em média 50% dos infectados, outra 0 vírgula qualquer coisa, portanto transferir os princípios de quebra de cadeias de contágio nos surtos de ébola para uma epidemia de covid é um salto mortal encarpado com tripla pirueta.


Essa obsessão com a quebra das cadeias de contágio, que na prática é a defesa de covid zero, parece-me um absurdo e nunca, em lado nenhum, teve êxito, fossem quais fossem as medidas adoptadas em qualquer parte do mundo.


Já agora, a ideia de que em todo o mundo se convergiu para as mesmas abordagens da gestão da epidemia é uma ideia totalmente falsa, cada país e, nos países com maior autonomia de comunidades sub-nacionais, cada região, foi adoptando medidas que sob o mesmo chapéu da quebra das cadeias de contágio, são na realidade medidas completamente diferentes (basta, para quem tiver dúvidas, dar uma volta pelas medidas adoptadas em cada país nos respectivos sistemas de ensino, mesmo que essa volta seja complicada pelo facto de poucos ou nenhuns jornalistas se dedicaram a fazer o benchmark dessas medidas. Faz sentido mandar miúdos de 3 anos, ou vacinados do 11º ano, 14 dias para casa, porque alguém na turma testou positivo, e mantê-los 14 dias em casa, mesmo após teste negativo posterior, como acontece em Portugal? (Adenda: num comentário fazem-me notar que em algumas escolas, pelo menos, basta um irmão de alguém da turma testar positivo) Se faz, por que razão a generalidade dos países não procede assim?).


Mais ainda, há países ou regiões que não adoptaram esse modelo de gestão da epidemia, poucos, mas há. Não vale a pena referir a Suécia, mas vale a pena referir a Florida, entre outros estados americanos.


Os seus resultados são piores que nos países que adoptaram medidas radicais (prudentes, chamam-lhes eles)?


Até o mito da excelência da gestão alemã dos contágios (questão diferente é a da gestão das consequências da epidemia) caiu há semanas, quando os Alemães, com todos os seus cuidados, ultrapassaram a incidência do Reino Unido que deveria estar a afogar-se num mar de casos depois do levantamento das medidas de restrição em 19 de Julho.


Não, os resultados não são piores e, do ponto de vista da gestão estrita da doença (não confundamos com a gestão da epidemia), também não se pode dizer que sejam melhores, são o que são, sem os prejuízos inflingidos à sociedade como os que resultam da forma acéfala e estúpida como estamos a gerir, por exemplo, as escolas.


Ou seja, como diria a Graça Freitas dos Santos dos Primeiros Dias, quebrar cadeias de contágio de epidemias por doenças altamente contagiosas e disseminadas na comunidade é muito pouco útil, e todos os dias a realidade vai demonstrando isso.


Claro que haverá sempre uma Raquel Duarte qualquer a dizer "Continua a existir um crescimento de novos casos, mas a velocidade tem vindo a abrandar nas últimas semanas, fruto das medidas implementadas e da percepção do risco", como faz hoje no Público. E daí não vem mal ao mundo.


O que não há é jornalistas que lhe perguntem que evidências tem de que esse abrandamento se deva às medidas e à percepção do risco quando o padrão de evolução é exactamente o mesmo dos surtos anteriores, com um tempo de subida rápida que é semelhante ao de outros surtos (quatro, cinco semanas).


Que nos concentremos na protecção individual (vacinas, em especial dos grupos de risco, medicação quando justificado, melhoria do estado geral de saúde, em especial controlo da obesidade e da tensão alta, redução de contactos físicos no caso dos mais vulneráveis, sem o absurdo de inventar regras desumanas e estúpidas, etc.) com certeza, de acordo, agora persistir em querer quebrar cadeias de contágio isolando sete países do mundo por causa de uma variante que está pelo mundo todo e que não terá matado quase ninguém, isso, francamente, parece-me absurdo.


E não, isso não resulta de uma vontade dos governos controlarem as pessoas, isso resulta da vontade dos governos ganharem eleições fazendo o que os eleitores querem.

16 comentários:

  1. A última frase explica tudo, infelizmente - cabendo apenas acrescentar que o mesmo sucede com os media, que dizem às pessoas o que elas querem ouvir. PS: sugiro um ajuste à frase: "

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  2. Muito bem.
    É um crime desumano que este país, que tanto se orgulha de ser a pátria do secretário-geral da ONU, António Guterres, o qual até é do mesmo partido do atual primeiro-ministro, faça completamente o oposto daquilo que o secretário-geral ordena, ou seja, que proíba os vôos de e para sete países da África austral.
    Portugal devia ter vergonha na cara e fazer aquilo que António Guterres disse (e que a França, por exemplo, já fez), restaurando os vôos comerciais para esses sete países.

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  3. os Alemães, com todos os seus cuidados, ultrapassaram a incidência do Reino Unido


    Sim, mas já estão em descida, tão rápida quanto a subida. Tal como a Áustria, que também está em descida rápida de casos.


    O que só mostra que esta "quinta vaga" é um papão como as outras vagas todas: primeiro sobe muito depressa e depois desce à mesma velocidade com que subiu.

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  4. Para quem está realmente interessado neste tema.


    https://www.zerohedge.com/covid-19/casedemic-hideous-scandal-irredeemably-flawed-pcr-test

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  5. Está tudo louco. 
    Será que já não há direitos humanos?
    Será que já não há protecção de dados?
    Será que o novo normal é uma ditadura sanitária?
    Que raio de vírus tão perigoso é este que para saber se o tenho, preciso fazer um teste?
    E que raio de pressão é esta para tomar uma vacina que não evita o contágio, não impede a doença e pode potenciar a morte?
    Que é que escondem? O que é que está por detrás desta pressão mundial?

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  6. Enfim. Pressionados por uma opinião pública que deixou de confiar nas opiniões de "cientistas" que trabalham na "Bigpharma", ou nos arredores destas, inicia-se -após 2 inenarráveis anos(!)- o atribuir a devida atenção a tratamentos, a terapias, dos sintomáticos e a deixar em paz os, felizmente, assintomáticos.
    (Vacinar os auto-imunizados assintomáticos é contra-producente).


    A Glaxo

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  7. Excelente artigo. 
    Não sei se é do seu conhecimento, mas o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa 1783/20.7T8PDL.L1-3, de Novembro de 2020, já se referia aos testes RT-PCR da seguinte forma:

    «




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  8. (https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa1491/5912603)
    (file:///C:/Data/fj52976/Desktop/1783-20%20versa%E2%95%A0%C3%A2o%20citius.%20Detenc%E2%95%A0%C2%BAa%E2%95%A0%C3%A2o%20ilegal%20competencia%20da%20autoridade%20de%20sau%E2%95%A0%C3%BCde%20MARGARIDA%20-%20Covid%20Habeas%20Corpus%20docx.docx#_ftn2)

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  9. (https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(20)30453-7/fulltext)

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  10. (file:///C:/Data/fj52976/Desktop/1783-20%20versa%E2%95%A0%C3%A2o%20citius.%20Detenc%E2%95%A0%C2%BAa%E2%95%A0%C3%A2o%20ilegal%20competencia%20da%20autoridade%20de%20sau%E2%95%A0%C3%BCde%20MARGARIDA%20-%20Covid%20Habeas%20Corpus%20docx.docx#_ftn3)

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  11. Vamos falar da Madeira?

    No dia 1 de setembro de 2021 a Madeira já tinha a vacinação dos maiores de 12 anos praticamente completa. 
    Até essa data, em 547 dias de pandemia a madeira tinha tido 11744 casos de covid19 com 72 mortos. Uma taxa de letalidade de 0,61%. Bons números.
    E de lá para cá? 
    de 1de setembro até 7 de dezembro, em 97 dias, a Madeira teve 3637 casos de covid19 e 38 mortos. 1,045% de letalidade. Com quase toda a gente vacinada. Pior que os números nacionais.
    E desde 20 de novembro entraram em situação de contingência. Mascara em todo o lado, mesmo na rua. Testes a rodos mesmo para vacinados. Segregação dos não vacinados. São as medidas mais radicais que algum território nacional teve desde o inicio da epidemia: deve ter bons números, com tanto controlo.
    17 dias passaram. Em 17 dias, 1669 casos e 29 mortos com 1,7% de letalidade - muito, muito pior que a média nacional. Com quase toda a gente vacinada, restrições a torto e a direito a Madeira tem números péssimos. É verdade que no acumulado os números são ainda muito melhores que a média nacional, mas são a demonstração ABSOLUTA, que a vacina não é um "game changer". A vacina protege bastante os que já tem baixo risco e que passa a ser quase nulo e muito pouco os que tem muito risco.
    É a crua realidade que poucos querem ver.
     

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  12. "E não, isso não resulta de uma vontade dos governos controlarem as pessoas, isso resulta da vontade dos governos 

    Se não houvesse toda uma "fantástica" oportunidade de negócio envolvida, coberta por biliões de receitas, umas já 

    Mas, mesmo nesse caso, convém não esquecer que os eleitores são permeáveis à publicidade, à propaganda e a todo um 

    A título de exemplo, veja-se "Montage: Pfizer Sponsors News On ABC, CBS, NBC, CNN - "Unlimited Hangout" reporter 

    (https://www.realclearpolitics.com/video/2021/10/19/montage_pfizer_sponsors_news_abc_cbs_nbc_cnn.html)

    Relativamente às "relações públicas" com jornalistas, veja-se o título de 2010 "Pfizer -- a Pfriend of 
    Readers of this blog know that I have led the criticism for two straight years of the NPF offering all-expenses-
    (https://www.medpagetoday.com/opinion/garyschwitzer/22473)

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  13. Mesmo tratando-se de informação factual, na generalidade dos casos associa-se a ela, subrepticiamente ou de forma 

    E as pandemias vendem-se ao público como qualquer outro produto. No YT há um vídeo com uma "lição" proferida em 


    Não me parece que os eleitores actuais sejam substancialmente diferentes daqueles que entraram em pânico aquando da 


    De Pavlov até às ditas redes sociais e à actual pandemia, passando por “War of the Worlds" e por aquilo em que J. 


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  14. Estupidez por todo o lado: com cérebro ou sem ele.
    Negócio por todo o lado: sem lei nem ética.
    Crime por todo o lado: qualquer tipo vale dado as impunidades criadas à medida.


    Raros são os que se lembram de:
    «mantenha-se calado e os outros pensarão que é inteligente».

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  15. No ponto. O meu resumo da situação: estamos numa fraudemia, iniciada pelos mass media e que arrastou a política e a (pseudo) ciência. O medo da maior parte das massas desinformadas 24/30/365 validou o quadro de insanidade global. As farmacêuticas têm aproveitado.

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Equívocos

"pôr um dos membros da família no centro, em vez de pôr a família no centro", É aquilo que qualquer liberal faz: põe o indivíduo a...