quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ADSE

Declaração de interesses: sou beneficiário da ADSE, um fringe benefit, como lhe chama hoje António Costa (o do jornal ECO, não o outro, um dos mais lúcidos e independentes jornalistas dos que leio mais frequentemente) que é um bom complemento aos 1400 euros líquidos que me pagam ao fim de 40 anos de serviço (já agora, estes 1400 euros líquidos correspondem a 2100 euros brutos, mais cerca de 100 euros de subsídio de refeição, ou seja, a minha entidade patronal tem um custo de 2200 euros, para me entregar cerca de 1400 euros. A diferença é recolhida pelo Estado em impostos e taxas diversas, numa proporção menor que o que acontece nos privados que, ao contrário da minha entidade patronal, não consegue ficar com essa diferença de 800 euros por mês. Note-se que este valor é positivamente influenciado pelo anos de chefias que exerci, a minha mulher, até ter benefícios fiscais inerentes aos 60% de deficiência, recebia líquidos, menos de 1300 euros, apesar da carreira irrepreensível e de qualidade unanimemente reconhecida. Note-se ainda que isto não é igual em toda a função pública, os meus colegas que em vez de terem uma história profissional na conservação da natureza têm uma história profissional nos serviços florestais, as duas coisas actualmente fundidas na mesma organização, em situações profissionais absolutamente semelhantes, recebem tipicamente ordenados líquidos por volta dos dois mil euros).


Quando a Iniciativa Liberal, cedendo no rigor em benefício da comunicação da ideia, defendeu uma ADSE para todos, houve logo imensa gente que, em vez de discutir a ideia em si - e a ideia tem muito por onde discutir porque levanta questões práticas muito relevantes - resolveu atacar a ideia dizendo que era um mero expediente de pôr o Estado a financiar os privados na saúde.


Esta crítica é, em si, idiota: um hospital do Estado financia sempre privados, sejam os seus funcionários - que fazem o que querem do dinheiro que ganham e têm liberdade para reivindicar mais se acham que estão a ser pouco financiados -, sejam os laboratórios, fornecedores de bens e serviços e até o sistema financeiro, através da dívida pública e não pública associada à actividade desse hospital (já agora, o atraso nos pagamentos, uma forma imoral e ilegítima que o Estado usa, e de que abusa muito na saúde, para se financiar, pode parecer que não entra neste financiamento dos privados, mas a verdade é que isso se traduz em preços mais altos ou em degradação da qualidade dos bens e serviços adquiridos, por isso também vai entrar no financiamento de privados).


O curioso é agora ver Eugénio Rosa, logo ele, a acusar os privados de quererem destruir o sistema convencionado, recusando-se a aceitar os preços que a ADSE quer pagar por alguns actos médicos.


E atrás deles ver a direcção da ADSE e a Ministra da tutela da administração pública a tentar atirar a responsabilidade para o facto dos privados não quererem realizar actos médicos ao preço que a ADSE acha justo (senhora ministra, preocupe-se em remunerar o mérito e deixe-se de tretas), para disfarçar a incompetência negocial da ADSE, que avaliou mal a sua importância na actividade de alguns grupos privados, para além da progressiva aproximação dos seguros a coberturas mais próximas das prestadas pela ADSE.


A Ministra tem razão, a ADSE não tem tectos para o pagamento de despesas de saúde, por exemplo, na oncologia, que é uma vantagem muito relevante face aos seguros, mas também é verdade que é o conforto e qualidade dos serviços comezinhos como uma consulta familiar de rotina, fugindo de muitos hospitais estatais e de grande parte da sua ineficiência (que tem excepções, claro), que aproxima os utilizadores da ADSE.


O problema é que com uma direcção da ADSE e um Ministério da Saúde que não querem reconhecer as virtudes dos sistemas convencionados, para não expor as enormes fragilidades que existem no sistema estatal de saúde (claro que tem muitas virtudes, mas é estulto não reconhecer as suas fragilidades), dificilmente a relação entre a ADSE e os privados passa a ser uma relação contratual normalizada e sem o circo político envolvente, integrada num sistema concorrencial, tendencialmente mais eficiente.


PS: "Não vale a pena ter ilusões: nos próximos anos não nos vamos ver livres do vírus. À escala planetária está com uma circulação tremenda. É como estar a querer parar o vento com os dedos". Vem a meus braços, camarada Manuel Carmo Gomes, confesso que apesar de tudo nunca pensei ver-te a usar a metáfora que mais vezes usei aqui, no Corta-fitas, para caracterizar o objectivo essencial das medidas que sempre defendeste e que, também por tua influência, têm vindo a ser o essencial da gestão não farmacêutica da epidemia. Ficava-te bem admitir que realmente, esse objectivo sempre foi ilusório e as medidas afinal não serviram para o que foram desenhadas, mas compreendo que admitir isso é pedir demasiado.

18 comentários:


  1. Em qualquer sistema em que os preços da saúde são regulados (isto é, em todos os sistemas em vigor em países europeus), é inevitável que periodicamente ocorram conflitos entre o regulador dos preços e os prestadores dos serviços.
    Lembro-me de na Alemanha há uns anos ter havido um conflito semelhante, com as companhias seguradoras a reclamarem que necessitavam de aumentar os preços e o regulador estatal a procurar evitar esse aumento.
    Nos EUA evita-se esse problema mas cai-se noutros piores. Quando vivi na Pensilvânia, tive um seguro de saúde que só me deixava recorrer a um hospital que pertencia à própria companhia de seguros, isto é, que não me dava liberdade de escolher o prestador que me apetecesse (em hospitais, não em consultórios médicos).

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  2. socialismo de funcionário público 
    para os privados fica a joldra de sns

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  3. Não faço prognósticos sobre a evolução do Covid. Penso que ninguém adivinha. Parece que há governantes com certezas!
    Sem ser negacionista, tenho muitas  dúvidas. Se houver reverso das medalhas, quem são os responsáveis?
    Hoje ouvi que num LAR faleceram dois e que muitos não sei se todos, tinham a 2ª dose e que estavam infectados.

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  4. Está enganado, a minha entidade patronal é o Estado e o Estado não paga TSU nem seguros de acidentes de trabalho e essas coisas. Por isso, no post, digo que a minha entidade patronal tem menos custos com o trabalho que as outras entidades patronais.

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  5. Pode indicar-me um único exemplo em que eu digo ou deixo de dizer que vai haver ou deixar de haver vagas, que é a única coisa verificável do que escreve?

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  6. A ADSE é mais um reflexo do Estado a administrar. Tenho o seguro dos SAMS e, por inerência gratuita tenho um complemento da Médis que me permitiu escolher a Champalimaud para assistência oncológica (pago 10% nas intervenções com o limite de 500€ ou seja, num conjunto de tratamentos que seria de 18 mil euros, paguei 500). No entanto paguei 250€ por um exame inovador enquanto outro paciente ao meu lado, pela ADSE pagou zero.
    Quando nasceram os meus dois filhos mais velhos, cujo nascimento acompanhei no Hospital da Cruz Vermelha, logicamente escolhemos a ADSE da minha mulher. A ADSE pagou a conta do hospital, ponto final parágrafo. Isto é pagou a minha estadia de acompanhante e até um par de telefonemas que fiz. Vá lá que não havia mini-bar no excelente quarto onde ficámos.

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  7. O comentário acima não devia merecer resposta. Eu, se o publcasse, não respondia.

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  8. Não estava a discutir se devia ou não descontar, apenas a dar-lhe a informação factual de que o que escrevi no post está certo.
    Quanto ao devia descontar, é bastante discutível, porque os funcionários públicos não beneficiam de nenhum dos apoios da segurança social: as reformas são pagas pelos descontos para a Caixa Geral de Aposentações, referida no comentário anterior, e todas as despesas relacionadas com prestações sociais são suportadas pela entidade patronal (o Estado não despede, não suspende ordenados durante a doença ou o apoio familiar, etc.).

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  9. Eleitor PS = beneficiário ADSE. E agora?.

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  10. Porque não usa a ADSE a tabela de preços do SNS (em 2018 já estava reinventado)?
    http://www.acss.min-saude.pt/2016/12/15/precos-do-sns-2/ 

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  11. Não acho um bom serviço ao país pactuar promovendo através da publicação a ordinarice "tuga" terceiro mundista, ao não publicar seria pelo menos mais um que poderia vir a perceber como funciona isto de viver numa sociedade civilizada. O que os pais não tiveram a capacidade de ensinar deve a sociedade tentar colmatar.

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  12. Muito apreciaria que comparassem os descontos para a ADSE (3,5% sobre o vencimento bruto) com um seguro de saúde. Eu estou desvinculada da Função Pública Pública, ou seja, recebo zero de remuneração e mantenho a ADSE, o que perfaz um gasto superior a 900€ anuais. O meu filho, com um seguro de saúde paga 400€ anuais. Acham normal?
    Apenas há cerca de 5 anos comecei a dar despesa à ADSE (acontece...) mas durante toda a minha carreira de FP não lhes dei um cêntimo a perder, apenas a ganhar (felizmente, porque tive saúde). Acham que compensa? Claro que se soubesse o que sei hoje, teria feito um seguro de saúde, mas adivinhar é proibido. O meu marido tem ambos: ADSE e seguro, não foi mais esperto, apenas está sindicalizado, algo que também tem caído em desuso, são os tempos...
    Apenas para concluir que não me considero uma beneficiada, paguei muito e durante muito tempo para apenas agora (é a idade) beneficiar de alguma coisa.
    PS: não tenho fontes, mas sempre me referenciaram que a ADSE dava lucro. Alguém bem informado poderá dizer-me se é falso ou verdadeiro? 

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  13. Sem querer polemizar, li isto em dgaep.gov.pt: 

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  14. Tem razão, eu estava desactualizado.
    As coisas mudaram (pelo menos na lei, não tenho a certeza de quando e se mudaram na prática) em 2009, numa altura em que eu já estava fora (ou quase) da função pública e por isso nunca mais me actualizei nesse aspecto em concreto.

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