Esta frase completamente absurda é escrita, com o evidente orgulho, por Rui Tavares, um político que nas horas vagas é historiador.
Não é o único, o mais vocal e conhecido representante desse conjunto de políticos que usam uma historiografia de treta como caução académica para a sua propaganda política até é Fernando Rosas, embora haja outros menores, como Pacheco Pereira e Manuel Loff, por exemplo, e alguns menos políticos e mais respeitáveis do ponto de vista da historiografia, como Irene Pimentel.
Mas a todos, em diferentes graus, se aplica o princípio de que são políticos que usam a fraude historiográfica como gazua para contrabandear ideias políticas mascaradas de conhecimento científico.
Neste caso concreto há uma ironia adicional: na Quarta-feira passada Rui Tavares escreve um artigo em que defende a necessidade de aumento da cultura científica como mecanismo de defesa face aos populismos e outras crenças assentes no preconceito, hoje, Sexta-feira, faz a demonstração prática da falta que lhe faz uma cultura científica sólida para se livrar dos seus preconceitos ideológicos.
A frase que dá título a este post, independentemente de ser absurda em si, é explicada por Rui Tavares para defender um modelo de desenvolvimento do país assente no conhecimento e não na mão de obra barata. E Rui Tavares, o político, não se incomoda nada de torcer a história para melhor defender as suas ideias políticas.
Começa por misturar a diminuição do custo do trabalho, que Passos Coelho e a troika procuraram como forma de amortecer os efeitos da austeridade no desemprego, com as questões de educação, uma evidente palermice: nem eram as questões de educação que estavam em causa, nem era a remuneração dos trabalhadores que se pretendia reduzir, mas sim o custo do trabalho para as empresas, que inclui a remuneração do trabalhador, com certeza, mas, no caso de Portugal, inclui uma taxação de pelo menos um terço do custo para as empresas que é desviada para o Estado, sob a forma de impostos e taxas sociais.
Depois esquece que independentemente do que Passos Manuel tenha defendido no papel, o facto é que a política de educação dessa época não teve qualquer resultado na qualificação dos portugueses, portanto, se Rui Tavares quisesse contrapôr responsáveis por políticas de educação com efeitos reais na qualificação de portugueses, teria de escrever: "Menos Marquês de Pombal e mais Salazar", visto que o primeiro reduziu a população escolar em 90% - estritamente por razões ideológicas que Rui Tavares perfilha - e o segundo escolarizou a totalidade da população em idade escolar.
Claro que, por razões políticas estritas, Rui Tavares nunca usaria essa formulação que é historiograficamente correcta (embora continue a ser absurda porque nenhum dos dois homens citados se pode reduzir ao que fizeram na educação).
Aliás, neste seu artigo, Rui Tavares volta a torcer a história, tal como fez recentemente Fernando Rosas, usando o argumento clássico da importância das colónias para a economia da oligarquia que, opinião de Rosas, Tavares e outros de que o jornalismo gosta muito, investia na mão-de-obra barata: "um novo-velho modelo de negócios para o país baseado na mão-de-obra barata ou mesmo forçada, matérias-primas pilhadas e mercados coloniais cativos - modelo esse tão essencial à nossa sobrevivência que Salazar tentou agarrá-lo até ao fim ao custo de uma guerra absurda em três cenários diferentes no continente africano".
Não vale a pena perder muito tempo a rebater a quantidade de preconceitos políticos que Rui Tavares pretende fazer passar por historiografia deste parágrafo porque Nuno Palma, a propósito de uma entrevista de Fernando Rosas a que o Público deu destaque recentemente por razões que a razão desconhece, já explicou bem aqui como a ideia do peso económico das colónias na economia do regime é uma ideia sem qualquer base nos números que se conhecem.
Como diz Nuno Palma, as afirmações feitas por Rui Tavares poderão ser fundamentalmente verdadeiras em relação ao ouro do Brasil, mas são essencialmente falsas durante o resto do período colonial, seja antes, seja depois dessa época, incluindo durante o salazarismo.
Ao contrário do que pretende Rui Tavares (e grande parte da vulgata historiográfica que é usada politicamente e a que o jornalismo dá uma cobertura incompreensível), o Estado Novo investiu fortemente na educação - essencialmente na educação básica, é certo, mas no fim do regime, mesmo ainda com Salazar, e sobretudo depois, o alargamento do secundário e do ensino superior era uma realidade que se movia lentamente, por exemplo, a meio dos anos sessenta são fundadas universidades em Angola e Moçambique -, o pib per capita aumentou substancialmente a partir dos anos cinquenta, a dieta do país começou a mudar das leguminosas secas (feijão, grão, fava) para alimentos mais ricos, como leite, ovos e carne e a convergência com os países desenvolvidos nunca foi tão grande, nos últimos duzentos anos, como entre meados dos anos 50 e 1973.
E isso não se deveu à exploração das colónias, tanto mais que a guerra colonial absorvia cada vez mais recursos do Estado.
Historiadores de esquerda e direita, como Jaime Reis, Luciano do Amaral, Pedro Lains ou Nuno Palma, escrevem coisas mais ou menos semelhantes sobre história contemporânea.
Rosas, Tavares e afins, escrevem coisas diferentes, mas convém não esquecer que a sua proeminência no espaço público não tem nenhuma relação com a qualidade académica do que produzem, mas sim com a sua actividade política a que se aplica bem a irritação de Caetano Veloso perante a enorme vaia de que estava a ser alvo: "Vocês vão sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem".
O facto da imprensa dar permanentemente cobertura a este tipo de políticos comentadores, como se a sua produção intelectual justificasse a atenção que lhe dedicam, é um fortíssimo sinal de como temos instituições fraquíssimas, esse sim, um problema sério para o país, o que ajuda a explicar como ainda hoje um homem que reduz a população escolar em 90% seja apresentado nos livros escolares como um grande renovador da educação no país.
ResponderEliminarO último parágrafo resume tudo.
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ResponderEliminarRevejo-me inteiramente no seu texto. Bem-haja por desmascarar esta cáfila que tomou conta do espaço público.
"Instituições fraquíssimas" que vão sendo demolidas uma a uma pelo rolo compressor destes propagandistas, apaniguados do regime, uns aproveitadores como os Tavares, os Rosas, os Pachecos e afins. Estes biltres, a quem o país está entregue, tudo hão-de desmantelar, apadrinhados por uma CS falida, corrupta e cada vez mais «comprometida». E nós, os anónimos sem voz, assistindo a tudo, reprimidos e impotentes! Se ao menos estes patifes não atropelassem a História e a estudassem sem se atolarem no seu próprio veneno!
Não se consegue perceber como os portugueses não se livram destes oportunistas! Como diz hoje o Alberto Gonçalves, talvez padeçam de uma espécie de «síndrome de Lisboa»
Não sei quais foram as "razões ideológicas" do Marquês de Pombal para ter reduzido a população escolar em 90%. Segundo leio num livro recente sobre a história de Portugal, essa redução não foi propriamente um desígnio do Marquês, mas tão-somente um subproduto da expulsão dos jesuítas, que se tornara conveniente por outros motivos - e, aliás, os jesuítas em breve acabariam por ser expulsos de toda a Europa, por ordem papal.
ResponderEliminarOu seja, não me parece que a redução da população escolar pelo Marquês se tenha propriamente devido a "razões ideológicas".
Tens razão Luís, nem sei o que me passou pela cabeça para admitir que a questão dos jesuítas fosse, grandemente, uma questão ideológica.
ResponderEliminarE também não sei o que me passou pela cabeça para responsabilizar o Marquês pelas consequências das decisões que tomou, era como se agora quisesse responsabilizar os comunistas pela miséria criada pelos seus regimes, apesar da miséria não ser o seu objectivo.
ehehehe
ResponderEliminarDigamos que o Balio tem uma característica muito peculiar... ou seja, refere os factos, mas depois não estabelece um nexo entre eles de causa/efeito ou consequência. Um amigo meu, quando se vê perante pessoas assim, costuma dizer: "Que se lhe há-de fazer?! Não relaciona!".
ResponderEliminarO Balio pode informar-se melhor sobre a expulsão dos jesuítas pelo Papa. Não é como julga! Comece por procurar o que foram o "Regalismo" e o "Galicanismo" que criaram o ambiente propício a essa expulsão, pois constituíram lutas políticas que possibilitavam formas de os monarcas controlarem a autoridade eclesiástica e até mesmo de subjugarem o Vaticano limitando o poder papal. Vários motins pela Europa (o Motim de Esquilache em Espanha) e um ambiente de pré- revolução francesa, assim como, em Portugal, um atentado a D. José, foram o cadinho onde se forjou o bode expiatório: culpas atribuídas aos Jesuítas por influência do Marquês de Pombal. Assim como o Rei Carlos III (Espanha) teve um papel decisivo no Vaticano, influenciando o Papa na questão da supressão dos jesuítas. De França nem vale a pena sublinhar como a Rev. Francesa extinguiu todas as ordens religiosas! Foi uma espécie de "onda" gigantesca profundamente anticlerical que varreu a Europa. O Papa, é claro que, muito limitado nos seus poderes, cedia e submetia-se a todas as pressões políticas, temendo o mesmo Cisma na Igreja que ocorrera com a Igreja anglicana.
ResponderEliminarEmbora muito sinteticamente, a wikipedia consegue dar uma ideia (resumida) do ambiente geral que se vivia e que está na génese da expulsão dos jesuítas em vários países por influência dos respectivos monarcas.
Pode ler-se em:
Zazie, jacobinos e, acrescento, maçons estão metidos nisto tudo até ao pescoço. Abrem portas secretas, entram e invadem o espaço público, dele se servindo para fazerem circular "as" ideias que se destinam a influenciar a sociedade, manipulando e doutrinando as mentes, destruindo os valores onde outrora se alicerçava a cultura ocidental e impondo a sua visão da História. Bata estar de olhos abertos e atentos e Ver à volta...
ResponderEliminarEstamos, enquanto Civilização, capturados por essa espécie de seita. `
Jacobinos, no sentido de esquerda revolucionária e ateia que derivou do espírito jacobino da Revolução Francesa
ResponderEliminarO Marquês de Pombal era maçon mas esse critério que referiu é de agora e não da época.
O que o Marquês fez foi uma perseguição religiosa aos mais eruditos que tínhamos e que levou ao encerramento de escolas e a um retrocesso do ensino que só o Estado Novo conseguiu superar (como bem se diz no post e como os estudos do Henrique Leitão têm vindo a comprovar)
O Balio é ateu militante mas não sabe nada daquilo que fala. Papagueia ideologia ateia, eugenia e utiliatrismo malthusiano com matança a velhos (para ele velho é tudo o que não tem 40 anos (deve estar a tratar de dar o exemplo).
Referi esse critério, porque é assim que hoje as coisas funcionam. Não é ele o "facilitador" que abre todas as portas?
ResponderEliminarNo fundo, uns e outros, todos iguais. Todos têm feito militância pela causa anticlerical até aos nossos dias. Mais pragmáticos e com espírito mais científico, os jesuítas eram menos manobráveis e por isso foram uns adversários difíceis e temíveis para o Pombal. Por isso os "exterminou", liquidando o ensino / as escolas, e consequentemente o número de alunos à entrada nas Faculdades como se sabe. Os números não enganam pois não desmentem essa realidade, uma vez que tudo está documentado e estudado. E Isso é que lhes dói, a estes jacobinos impenitentes que obstinadamente insistem no erro com intenção de enganar, sabendo que é uma fraude o que propagam nos livros escolares. E não enganam só nisso. O ensino está pejado de mistificações e embustes contada a papalvos e ignorantes como fazem estes "historiadores" da treta, esses tais Tavares e tais Rosas e quejandos, mais "doutrinadores" de ideologias verrinosas que outra coisa. O próprio ensino do Português idem, aspas. Insistem há anos na leitura e exploração de textos de temática marxista, seleccionando obras e autores enquistadas no tempo, ressuscitando um neo-realismo serôdio, propício ao tema repisado da exploração e dos explorados. E como isso "dá pano para mangas", pode-se facilmente imaginar o aproveitamento do tema para se fazerem livremente extrapolações relacionadas com as "agendas" e doutrinas que estão na ordem do dia.
Muitos pais desconhecem a lavagem cerebral que a escola faz aos seus petizes, mas é mais ou menos assim que estamos, não é verdade, Zazie?
Sim- nunca no Estado Novo se doutrinou como agora se doutrina na Escola.
ResponderEliminarO Tavares é um jacobino fanático e ateu militante que uma vez, lá no Barnabé de onde saltou para os jornais e partido, disse que se mandasse mandava tirar o brasão de Évora porque era um insulto a qualquer mouro que pudesse ir a passar.
E no dia dos Pastrinhos de Fátima adorava fazer post de parabéns pelo aniversário do seu adorado Pombal.