terça-feira, 3 de agosto de 2021

Evidências contingentes

Sinto a minha amiga Cristina Nobre Soares por cima do meu ombro a perguntar-me por que raio uso um título que é largamente incompreensível, em vez de escrever e falar claro.


Pelo menos foi o que me perguntou quando num artigo, penso que para o Expresso, resolvi falar na função coproiética dos rebanhos.


A Cristina tem razão, se se quer dizer ou escrever alguma coisa, o melhor é escrever e dizer de forma a que os outros compreendam, de outra maneira é inútil. E a Cristina leva isto tão a sério, que fez disso o seu trabalho e dá cursos de comunicação, sobretudo para as pessoas da área das ciências naturais, para ver se se consegue que os investigadores, os jornalistas, e muitos outros tipos de intelectuais, como eu, dizem o que têm a dizer de forma clara e acessível, em vez de imitarem as bulas dos medicamentos que, de tão rigorosas, tão rigorosas na terminologia e forma de expor, não servem o seu objectivo de informar o público porque ninguém as compreende, mesmo a pequena minoria que se dá ao trabalho de as ler, os outros já desistiram (sinto a Cristina por cima do ombro a perguntar-me por que razão não parto o parágrafo por ideias, uma frase para cada ideia, cada frase com não mais de X palavras, cada parágrado com não mais de Y palavras organizadas por frases completas, curtas e com uma ideia exposta de forma clara).


Como se vê, faltei às aulas todas do curso e por isso já vou no quarto parágrafo sem dizer ao que venho:


"Segundo estes dados, a maioria dos doentes hospitalizados com vacinação completa (74%) tinha mais de 80 anos. Além disso, dos 107 doentes internados, nem todos foram hospitalizados por causa da Covid-19: 71 tinham a doença como diagnóstico principal, mas outros 36 tinham outra complicação que os levou ao hospital (além da Covid-19)".


Uma das minhas insistências na discussão sobre a epidemia tem sido a de procurar entender qual a dimensão da epidemia que resulta da alteração de critério base para a definir - passámos da mortalidade excessiva para o resultados de testes de laboratório -, isto é, qual é a dimensão fantasma da doença que juntámos ao que verdadeiramente é a epidemia (por favor, não misturar esta pergunta com falsos positivos, manipulação de certificados de óbito e outras questões em que não me meto, umas por não saber o suficiente do assunto, outras por ter uma verdadeira alergia a teorias de conspiração).


Por várias vias, declarações de médicos, análise dos números do surto de Janeiro/ Fevereiro, e coisas que tais, tenho admitido que cerca de 30% da mortalidade dificilmente se pode atribuir à covid em si mesma (no caso do surto de Janeiro/ Fevereiro, penso que a percentagem será maior, mas não passa de especulação), mas resulta das pessoas ficarem doentes, ou morrerem, por outras razões, ao mesmo tempo que testam positivo para o vírus.


Ora o que a DGS vem agora dizer é mais uma evidência contingente de que assim é: cerca de um terço das pessoas totalmente vacinadas que são internadas, são internadas por outras razões, mas contabilizadas como internamentos covid porque testam positivo.


Note-se que não faço a menor crítica a este procedimento, o que me custa é ver tanta gente, e muita dela com responsabilidades que as fazem não poder ignorar este facto, que omitem esta questão na avaliação do que está em causa, e recusam-se a discutir seriamente esta questão (que está associada à questão da esperança de vida da maioria dos mortos covid, muitas vezes tratadas matematicamente comparando a esperança média de vida de pessoas da mesma idade, o que é uma amostra que mistura mais e menos frágeis, com a esperança de vida desta amostra concreta, que é essencialmente formada por pessoas muito frágeis e em má condição de saúde).


Quanto aos jornalistas, escrevem um parágrafo como o citado sem sequer perceberem as implicações do que acabaram de copiar do relatório que estão a ler.

6 comentários:

  1. Penso que parte disto se deve ao facto de se internar os doentes portadores do vírus em enfermarias especiais, separadas das outras. Por via deste procedimento, aquilo que é importante para os hospitais é saber quantos doentes é que estão nessas enfermarias especiais, e não propriamente saber se esses doentes estão com covid-19 ou com outra sintomatologia qualquer.

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  2. Poderá ser distração minha, mas ainda não tinha visto até agora esta menção e detalhe em relação a casos positivos que foram admitidos por outros motivos. 
    Porque é que isto acontece agora, não tendo acontecido antes? É óbvio que é porque aqui nesta ocasião se trata de casos com vacinação completa, sendo por isso estatísticas seleccionadas oportunamente e com um fim: proteger o processo de vacinação. Muito haverá a dizer acerca da comunicação em tempos de pandemia, acerca do dito e do não dito, sobretudo o porquê, as razões pelas quais certos detalhes, certos assuntos, certas estatísticas são ou não comunicadas.

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  3. Saiu anónimo não sei porquê, mas a autoria é minha. 

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  4. Para se tirar dúvidas não são precisos relatórios nem números.
    Basta passar e ver o Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria ou quaisquer das suas enfermarias de Medicina. Às moscas.

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