Ia no carro e ouvi umas cinco ou seis pessoas que trabalham em informação a malhar forte e feio em Eduardo Cabrita, escolhendo cada um o ponto de vista que queria reforçar, desde os que falam na possibilidade de violar a centralina do BMW para impedir o apuramento da velocidade a que ia ao carro, aos que falavam da desumanidade do Estado perante as vítimas, passando pelas coisas do costume.
Todas elas tinham razão, o que se passou depois do acidente com o carro de Eduardo Cabrita é indecoroso.
Chegaram ainda a falar em Marcelo, mas naquela quase meia hora, que eu desse por isso, nem um falou de António Costa.
Foi com certeza por acaso e com certeza será fácil encontrar comentadores que resolvam pegar no assunto do atropelamento em que esteve envolvido Eduardo Cabrita partindo do que ele revela sobre a nossa cultura institucional, mas confesso que não tenho visto.
E, no entanto, o mais útil socialmente é mesmo falar deste assunto a partir da posição institucional de António Costa (reforço, da posição institucional de António Costa, não a partir de António Costa ele mesmo, que para o caso tem muito pouco interesse).
É escusado andarmos com muitas discussões sobre a velocidade a que ia ao carro - admito, do que conheço sobre a forma como se deslocam os governantes em Portugal que o carro pudesse circular, por exemplo, a 204 km/ h, é uma especulação sem nenhuma base concreta neste caso, mas com base na cultura institucional geral sobre o assunto - porque é por demais evidente que ia em excesso de velocidade, como é habitual e costume nestas circunstâncias (já agora, por que razão ia na faixa da esquerda, violando o código da estrada, se não existisse nenhum carro na faixa da direita?).
A cultura institucionalizada de que os governantes estão acima das pessoas normais, não acima da lei porque a lei institucionaliza a excepção, é da responsabilidade do primeiro ministro em exercício, não há volta a dar: o primeiro ministro tem poder para deixar claro aos seus ministros que não quer ninguém a circular acima dos limites de velocidade ou, ao menos, ultrapassando-os dentro de limites razoáveis.
Se não o usa e dá o exemplo inverso, é evidentemente responsável pela cultura institucional dominante e que não quer contrariar.
Politicamente, eu compreendo, só ia arranjar chatices com os ministros e os motoristas, com os chefes de gabinete que controlam agendas impossíveis de cumprir em circunstâncias normais, quando mantendo o que está pode simplesmente sacudir a responsabilidade para os motoristas ou, se o caso ficar muito feio, para o ministro.
Fechada a questão da velocidade, vamos ao que se passou depois do acidente.
Vamos admitir que a responsabilidade do acidente terá sido integralmente da vítima e que o carro seguia a uma velocidade normal (na matemática este tipo de coisas chama-se reduzir ao absurdo para benefício da demonstração subsequente).
Se o ministro não manifestou publicamente, até hoje, qualquer empatia e solidariedade para com a família da vítima, a responsabilidade é do primeiro ministro que aceita a falta de carácter do ministro (claro que o ministro poderá ter feito tudo o que podia no apoio à família da vítima de forma discreta, como recomenda a Bíblia, mas a dimensão pública e política do assunto não se esgota nas atitudes pessoais de Eduardo Cabrita, tem uma dimensão institucional do governante que não pode simplesmente ser omitida).
Se o ministro põe o seu gabinete a dizer que não havia sinalização e a Brisa diz que havia (e há uma visão benigna para esta dissonância, o ministro e o seu motorista estarão a falar de sinalização junto ao sítio onde se dá o acidente, junto ao separador central, e a Brisa está a falar da carrinha de sinalização que está na berma), é responsabilidade do primeiro ministro não dizer ao seu ministro que este tipo de dúvidas não podem persistir.
Se o ministro não assume imediatamente a responsabilidade pelo que se passa no carro onde é transportado, apoiando-se na letra da lei para atirar eventuais discussões de responsabilidade para uma discussão entre responsabilidades da vítima e do motorista, é responsabilidade do primeiro ministro explicar o bê à bá da decência institucional: quando se perde uma guerra, a responsabilidade é sempre dos generais, nunca dos soldados.
Se o ministro entende que não tem explicações públicas a dar - depois de dois comunicados da sua responsabilidade a sacudir a água do capote - é responsabilidade do primeiro ministro manter em funções, ainda que a prazo à procura da solução politicamente menos onerosa, um ministro que não sabe o que é serviço público e a responsabilidade de ser ministro, isto é, servidor.
Tal como Berardo, ou Santos Ferreira, ou Sócrates são menos importantes que a discussão das responsabilidades institucionais e as regras das instituições que permitiram o assalto ao poder do Estado, da comunicação social e da banca pelo PS, executado por Sócrates, sempre apoiado por António Costa e toda a estrutura dirigente do PS - o que só foi possível com a complacência da imprensa e dos eleitores -, também aqui Eduardo Cabrita é muito menos importante que o caldo institucional que permite a desresponsabilização de quem tem o poder objectivo de escolher agir assim ou assado em cada momento.
Dir-se-ia que discutir o dedo que aponta a lua, para não ter de olhar para lua, é uma das deficiências institucionais mais graves da nossa democracia e a responsabilidade dessa deficiência é, em primeiro lugar, de uma imprensa muito incompetente (e, por vezes, venal).
O condutor pode ter-se desviado para a faixa da esquerda para se afastar dos trabalhos que decorriam na berma.
ResponderEliminarQuanto ao resto subscrevo totalmente.
Subscrevo de uma ponta à outra toda a sua análise. Mas não tenha ilusões, poucos o compreenderão. Ultimamente dou por mim a interrogar-me se terão estes governantes uma ideia (ainda que ténue) do que seja uma Democracia? Duvido, duvido muito. Mas, aplicando a mesma redução ao absurdo, se têm uma ideia do que seja uma verdadeira cultura democrática e não agem em conformidade (voluntariamente), então atingiram o zénite do cinismo mais indecoroso, mais descarado e ofensivo que devia causar escândalo e indignação colectiva. O Sr. descreveu mito bem a situação que estamos a viver e que configura uma desordem institucional, em roda livre de enorme gravidade. É quase diária a demonstração de total desprezo pelas normas da civilidade ou por aquilo que convencionalmente se considerou serem as "boas práticas" políticas, sociais e morais. Os efeitos deletérios desta barbárie instalada, deste viver "acima da lei", só veremos demasiado tarde. E, como diz, todo este caldo institucional acontece com a permissão dos eleitores mas «também» pela complacência de alguma comunicação social muito venal, que compreendendo muito bem a situação, optou pelo silêncio conivente, por puro oportunismo.
ResponderEliminarST
ResponderEliminarNão é apenas um acidente com uma vítima mortal como tantos outros que, infelizmente, acontecem nas estradas. Porque há um tratamento descarado de excepção para se proteger E.Cabrita, uma vez que estão a ser impedidas análises e perícias ao carro do ministro e à velocidade a que este circulava. Configura, portanto, uma situação gravíssima de obstrução à Justiça. Além de ser um caso escabroso de desumanidade, de mentira, de cobardia e de imoralidade.
O comportamento execrável destes políticos (todos "acima da Lei") mancha e avilta a Democracia, sendo também revelador da estatura moral de quem nos governa. E foi tudo isso que contribuiu para que o "caso" se transformasse (também) numa análise política: a de saber a que espécie de gente estamos entregues e a quem confiamos as nossas depauperadas instituições democráticas.
Aos poucos vão despertando a nossa aversão, embora eles não tenham essa noção nem disso se apercebam _ tal é o seu distanciamento da vida real e a sua indiferença pelas pessoas concretas, como este caso demonstrou (e tantos outros).
Brilhante a sua análise à decadência das instituições e à anarquia reinante sob a desresponsabilização do nosso esvoaçante 1º Ministro. Nada de novo, afinal! É essa a imagem de marca deste "timoneiro" bambeante e sem bússola que nos calhou...
O termo "esvoaçante" que é dado aqui ao P.Ministro assenta que nem uma luva. É a palavra certa. Ele esvoaça sempre que alguém lhe pede explicações seja do que for, principalmente se, de algum dos seus assistentes responsáveis, (gente nomeada por ele para cargos). Esvoaça como a tal da vaca??!!
ResponderEliminarQue comandita...
pelos comentários acima dá para perceber que os " reizinhos " andam a ficar com a careca à mostra...já não era sem tempo.
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ResponderEliminarA mim parece-me errado que o Henrique peça ao ministro que faça mais ou que faça diferente daquilo que qualquer cidadão faz. Se todos nós fazemos as coisas de certa forma, que moralidade temos para exigir aos ministros que as façam melhor? Ora:
(1) No dia-a-dia quase toda a gente circula nas autoestradas alentejanas em velocidade excessiva.
(2) Regularmente são atropelados peões, e os automobilistas quase sempre mentem descaradamente em tribunal para ocultar a sua culpa.
(3) Regularmente são atropelados peões, e os automobilistas que os atropelaram nunca comparecem no funeral para apresentar os seus pêsames.
Se todos os automobilistas portugueses atuam desta forma, que raio de moralidade têm eles para pedir ao ministro que atue diferentemente?
Temos, sim, toda a moralidade para lhe pedir contas. E precisamente porque é ministro e tem responsabilidades, deve ser exemplar pelas funções governativas que desempenha. E tem contas a prestar-nos, uma vez que os seus proventos e regalias são pagos por todos nós (com os nossos impostos) para nos servir e por isso se lhe exigia que fosse melhor e "diferente daquilo que qualquer cidadão faz" (usando a sua expressão).
ResponderEliminarEle não devia ser um "automobilista" comum conforme afirmou, se tivesse sentido de Estado. Mas já agora, devia ter prosseguido o seu raciocínio: se acha mesmo que ele é um cidadão como outro qualquer, porque não questionou a razão de ele se fazer transportar de motorista? Como o Balio afirma, "no dia a dia toda a gente circula nas autoestradas alentejanas em velocidade excessiva" mas que se saiba ... nenhum tem um motorista cujo salário e carro de Estado são pagos por todos nós!
E mais ainda: E.Cabrita tutela as autoridades policiais e a Segurança Rodoviária, i.e., aqueles que precisamente deveriam fiscalizar o carro sinistrado, o local e o aparato do acidente. Como sabe, foram impedidos de actuar, porque receberam ordens para que não o fizessem. Acha este um procedimento usual? O sr. Balio sabe perfeitamente que actuaram "diferentemente", sabe que este não é o procedimento "normal" nem habitual com os outros cidadãos que circulam nas estradas. E no entanto, isto não lhe mereceu nenhuma crítica, tendo em conta que, segundo o seu raciocínio, o sr. ministro não deve ter tratamento diferenciado, é um "automobilista" como os outros.
Se for coerente, tenho a certeza de que o Balio achará que este tratamento de excepção _ por ser ministro_ também nunca devia ter acontecido, pois pelos seus critérios, E.Cabrita é só mais um cidadão. Certo?
Mas há um ponto em que concordo consigo: na sua mediania, Cabrita não se diferencia da vulgaridade que se vê no dia a dia. Na verdade não lhe encontro nenhuma daquelas qualidades que distinguem os Homens de excepção.
Naquele momento, quem viajava não era o automobilista ou o cidadão Eduardo Cabrita no seu carro pessoal e em viajem particular, mas sim o Ministro da Administração Interna em exercício de funções.
ResponderEliminarCom esta pequena diferença exigia-se mais do sr. Ministro da segurança rodoviária.
Querer ter as regalias do cargo, mas não ter encargos nem responsabilidades... ou só ter Direitos e não Deveres, isso é que era bom!
Bem sei que reina o pagode e isto é um arremedo de democracia.. Vivemos na república das bananas, mas cuidado! nem todos somos bananas para aparar todos estes apparatchiks sem préstimo e sem vergonha. Chega uma altura em que estamos todos já muito cansados e começamos a estar fartos disto.
Votamos em maus gestores, se nem a própria agenda conseguem gerir para evitar este tipo de acontecimentos. Já agora, estamos em ano de eleições, altura em que os políticos gostam de andar de comboio, porque não aproveitam.
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