
Ontem, Parque do Alvito.
À entrada, um solícito e bem educado funcionário manda-me pôr uma máscara porque é obrigatório o uso de máscara. A explicação é a de que a capacidade do parque é de mil pessoas - número que suponho que ninguém controla verdadeiramente - e portanto, se estiver cheio, não se consegue manter o distanciamento e, por isso, o uso de máscara é obrigatório (felizmente às crianças deixam-nas em paz e andam normalmente por ali, aos adultos é que se exige o uso de máscara).
Note-se que não há nada de anormal nisto: em todo o lado se passou a considerar normal impôr regras absurdas sem dar grandes explicações e sem ponderar adequadamente a proporcionalidade da regra em relação ao objectivo pretendido. Aliás, sem grande esforço de cumprimento das regras, na verdade, depois da admoestação à entrada, nunca mais apareceu ninguém a dizer às dezenas de adultos que não usavam correctamente a máscara, para usar um eufemismo.
Hoje Rui Tavares volta a insistir na ideia de que Portugal confina bem, mas desconfina apressadamente (sem surpresa, explica que a responsabilidade é dos tabloides que moldam as opções do eleitorado conservador), sem perder tempo a explicar o que considera desconfinar apressadamente.
As bebidas alcoólicas passaram a poder ser vendidas até às nove da noite e dever-se-ia ter mantido o horário anterior, até às oito da noite? O comércio passou a poder estar aberto até às sete da tarde aos fins de semana e deveria ter mantido a obrigação de fechar à uma da tarde? Os parques infantis deixaram de estar fechados (não sei bem, no Parque o Alvito, o bloco dos mais pequenos estava fechado, sem grandes explicações, será que seria por razões de segurança, ou é mesmo por causa da covid?) e deveriam ter continuado fechados? Os restaurantes passaram a poder servir refeições no interior, mas deveriam continuar a só servir nas esplanadas, mesmo quando não têm esplanadas?
Confesso que tenho dificuldade em entender esta ideia, bastante popular, de que estamos a desconfinar apressadamente, atendendo a que não existe mortalidade excessiva no país desde o fim de Fevereiro (lembram-se? Naquele fim de semana em que esteve um tempo magnífico e que foi toda a gente para a rua e o resultado se iria ver quinze dias depois, quando a mortalidade excessiva deixou de estar em valores normais para estar abaixo dos valores normais, como tem acontecido desde então?) e continuamos a ter de pôr máscaras para frequentar parques ao ar livre cheios de espaço.
Na quarta-feira eram um virologista Celso Cunha que se entretinha, no Contra-corrente do Observador, a perorar sobre o objectivo de ter um Verão economicamente relativamente mais próximo do que era antes da epidemia (matéria que se estuda profundamente em virologia, como se sabe) e, por isso, defendia que era preciso garantir que não incomodávamos o governo britânico aumentando a incidência da covid, independentemente de isso não ter a menor relevância sanitária, para garantir uma actividade turística razoável vinda do Reino Unido, por isso era preciso ser muito prudente - "as medidas são sempre as mesmas e as únicas eficazes" -, evitando novas aberturas, para as quais é muito cedo avançar (como se sabe, a ponderação do peso económico do turismo britânico, versus o peso económico de manter as restrições que existem, é uma matéria central na formação de um virologista).
Aparentemente, o governo do Reino Unido ter-se-á servido da variante nepalesa para equilibrar a concorrência dos diferentes destinos turísticos britânicos, protegendo o mercado do turismo interno e até há uns quantos cientistas britânicos a explicar que há uma responsabilidade dos britânicos no sentido de não espalhar as suas variantes pelo mundo, segundo diz o Público, de maneira que Portugal saiu de uma lista verde e foi para outra lista qualquer.
As variantes, aliás, são um caso interessante: sempre existiram, como existem sempre neste tipo de doenças, desde o início, mas só se tornaram preocupantes quando outras preocupações desapareceram, como sejam a falta de uma vacina ou a sobrecarga dos serviços de saúde ou a mortalidade.
Esqueçam a racionalidade camaradas, o principal problema de uma epidemia é a irracionalidade induzida pelo medo, e por mais qualificações académicas ou institucionais que se tenham, nada nos livra dos efeitos do medo generalizado, muito menos quando são os principais responsáveis por saber disso que cavalgam o medo e o potenciam, porque o acham uma ferramenta útil de gestão da epidemia.
Os delírios são delírios, e não é possível combatê-los com a racionalidade (toda a gente sabe que dizer a alguém que está em pânico para ter calma só agrava o descontrolo emocional), vamos ter de conviver com isto por muito tempo, seja sob a forma de regras absurdas, seja sob a forma de avisos sobre variantes, seja sob a forma de conversas paternalistas sobre a prudência necessária para não afectarmos o turismo.
o da Serafina tem estado fechado
ResponderEliminardeve ser da 'avariante' nepalesa
Mas será que é só agora que os vírus têm mutações? Toda a vida houve mutações de vírus e nunca houve esta histeria.
ResponderEliminarE qual é o problema de haver 300 ou 700 pessoas infectadas? Fizeram por acaso testes na altura das gripes normais para poderem comparar?
A festa do Sporting já passou, onde estão os números catastrofistas que os profetas da desgraça andaram aí a apregoar?
Sejam honestos, deixem de fazer as pessoas idiotas e sobretudo falem verdade.
A irracionalidade tomou conta dos decisores.
ResponderEliminarOntem, numa paróquia da margem sul, foi efetuada ao ar livre, a cerimónia da primeira comunhão a 22 crianças e jovens.
O padre pediu autorização às entidades normais e à DGS.
De entre a miríade de avisos e recomendações, das mais óbvias, às mais absurdas, a "melhor" foi a proibição dos presentes de se ajoelharem !!!!!!
Tomaram-lhe o gosto (às medidas absurdas) e agora vai ser difícil voltar à normalidade. Ontem no parque da Belavista, que é enorme e está quase sempre vazio, havia um aviso à entrada a avisar sobre o uso obrigatório de máscara (largamente ignorado pela maior parte das pessoas).
ResponderEliminarA contribuição dos dois médicos no Contra-corrente do Observador foi verdadeiramente deplorável. Já não há paciência para tanto disparate e sobranceria. Gostei da sua intervenção. Curta certeira. 👍
Que parte do significado palavra Pandemia custa tanto a perceber aos responsáveis políticos portuguêses?. Cataventos?.
ResponderEliminarInvestiu-se, demsiada e exclusivamente, no turismo: hotelaria, alojamento, restauração, bebidas, Fátima, TAP.... Algo não controlável, tal como o proverbial ovo da galinha. Vai ter que se aceitar a realidade e reformular estratégias políticas, económicas e sociais. Este governo terá capacidade para isso?.
A culpa não é dos outros.
ResponderEliminarQuem investiu no turismo não foi o Estado, foram os particulares. São eles que vão ter que, eventualmente, mudar a forma de ganhar a vida. Não peça ao Estado que elabore "estratégias": são os privados quem decide em que investir.
Gostei, parabens
ResponderEliminarLi até ao fim o seu texto em busca do principal: obedeceu ao solícito e bem educado funcionário ou respondeu-lhe que ao ar livre não é obrigatória a máscara?
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