
O Instituto Nacional de Estatística publicou na sexta feira este gráfico com mobilidade em Portugal desde o início da epidemia Covid.
Com todos os defeitos e limitações que este gráfico possa ter como retrato dos contactos, parece-me incomparavelmente mais sólido que os modelos esquisitos e inescrutináveis que têm sido usados por alguns investigadores para defender a tese de que a evolução da epidemia é sobretudo o resultado dos nossos contactos sociais e, consequentemente, se queremos controlar a epidemia, o que temos de fazer é ter medidas de restrição de movimentos.
Desta ideia por demonstrar nascem medidas de restrição directa de movimentos, como proibir a circulação entre concelhos, e medidas indirectas que visam restringir movimentos, como fechar escolas ou fechar restaurantes à uma da tarde ao fim de semana (o uso da primeira com este objectivo é simplesmente imoral, o uso da segunda é melhor, é só estúpido).
Agora olhemos para a evolução do número de casos da epidemia (tenhamos em conta que até ao Verão do ano passado o número de casos é fortemente condicionado pela escassez de testes) e tentemos estabelecer um paralelismo entre os dois gráficos.

Exactamente, não há, essa é a conclusão a tirar e não há maneira de fazer qualquer ligação lógica entre o grau de confinamento e o número de casos, mesmo dando o desconto de uma semana a dez dias entre uma coisa e outra, como será normal para integrar o tempo entre o contágio e o registo de um caso positivo.
Mais rigorosamente, até há uma ligação lógica, mas é a inversa: quando as pessoas se apercebem de aumentos relevantes de casos (estou convencido que até é mais com o aumento de mortes) as pessoas resguardam-se mais, independentemente das medidas tomadas, quando sentem os casos a descer, mesmo que as medidas restritivas não sejam levantadas, as pessoas resguardam-se menos (isso é muito evidente com o facto da mobilidade começar a crescer de novo na segunda semana de Fevereiro e as medidas de desconfinamento só começarem a ser tomadas a 15 de Março).
Resumindo, as medidas coercivas de confinamento parecem razoavelmente inúteis: as pessoas confinam por si quando se sentem ameaçadas, desconfinam por si quando sentem a ameaça a diminuir e os governos tendem a ir atrás desses sentimentos, acabando por tomar medidas de confinamento em cima dos picos de incidência e tomar medidas de desconfinamento muito depois das pessoas já estarem na rua.
Ou seja, as medidas coercivas são largamente inúteis para o controlo da epidemia e, da forma como são tomadas, agravam os efeitos secundários negativos sobre a economia e sociedade.
Agora para os que pretendem dizer que o pico de Janeiro em Portugal não pode estar ligado à anomalia meteorológica que começa a 24 de Dezembro, porque em Manaus estava calor e também havia um pico (alguém faltou às aulas de filosofia em que se estudou a lógica formal) conto uma pequena história.
O Paulo Fernandes fez uma brincadeira simples mas útil, uns gráficos de vários em que a curva de evolução de casos ou de mortes (fez com os dois indicadores) de 2020 e 2021aparecem na mesma base temporal, e o resultado para a Suíça (no caso das mortes) é este.

Podia ter escolhido vários outros países, mas ao olhar para este gráfico fiquei com curiosidade em ir ver o boletim mensal de monitorização do clima dos serviços meterológicos suíços para Outubro (neste gráfico a subida é do fim de Outubro mas é mortalidade, portanto fui ver o que aconteceu aos casos e há uma súbita subida em Outubro) e, sem surpresa, o que lá está escrito (aquilo está em alemão, portanto usei a tradução automática do google para o ler) é isto: "Na Suíça, outubro foi extremamente frio e muito difundido chuvoso. Várias vezes houve neve fresca até camadas médias. A duração do sol permaneceu abaixo da norma na maioria das áreas. No início do mês caiu no lado sul dos Alpes e nas áreas adjacentes precipitação maciça e pesada, localmente em quantidades recordes."
A tradução é o que é, mas dá para perceber, tal como dá para perceber este mapa, desde que eu diga que se trata da anomalia da temperatura face à normal 1981/ 2010.

É certo que evidências contingentes como estas não demonstram nada, são meras hipóteses, mas ao menos há correlação entre uma coisa e outra, ao contrário do que acontece entre mobilidade (e, mais ainda, medidas coercivas que pretendem condicionar a mobilidade) e epidemia, em que nem correlação séria existe.
A hipótese de ter actividade viral relacionada com as condições ambientais pode estar totalmente errada, mas evidentemente não se rebate dizendo que no mesmo Outubro em que isto acontecia na Suíça havia um país ou região qualquer nos trópicos em que havia um surto e estava calor.
Confundir, ou misturar, regiões de clima temperado/frio no hemisfério norte com outras de clima tropical/equatorial, ainda por cima situadas no hemisfério oposto, como é o caso de Manaus, é como alguém ir à loja das proximidades comprar um quilograma de batatas e levar um garrafão de água vazio de 5 litros para as trazer.
ResponderEliminarNem a beira da estrada se pode confundir com a Estrada da Beira, nem o quilograma é igual ao litro, se bem muitas pessoas não se apercebam das diferenças e não consigam distinguir, nuns casos por pura ignorância, noutros por crença e ainda noutros por uma confluência de ambas.
Dito isto, se bem que não descarte a "hipótese do frio", sobretudo porque sei o que condições de stress térmico acarretam em termos de mortalidade, não podendo colocar de parte eventuais efeitos sinérgicos por essa via que induzam maior mortalidade pela COVID-19, mantenho que a variável meteorológica que me parece mais importante (mas não a única) é a irradiação solar (potência por unidade de área), o que vem ao encontro das conclusões do único artigo científico que conheço onde se estuda a influência de um conjunto extenso de factores meteorológicos:
E não nos podemos esquecer que é a variação da irradiação solar que determina (é a causa) a variação da temperatura e não o contrário, encontrando-se obviamente ambas correlacionadas.
No que se refere aos confinamentos e a outras medidas não-farmacêuticas, como o uso de máscara, as evidências científica e empírica já se encarregaram da demonstração à saciedade da sua ineficácia. Qualquer cepo com apenas um olho e mais de dois neurónios funcionais chega facilmente a essa conclusão, tendo em conta "experiências naturais" com verdadeiros grupos de controlo, como sejam os casos de Dakota do Sul (sem confinamento, sem mácaras obrigatórias e com tudo aberto) e Dakota do Norte (com confinamento, máscaras obrigatórias, escolas e estabelecimentos não-essencias fechados), ou da região dinamarquesa da Jutlândia do Norte, onde 7 municípios implementaram confinamento rigoroso e 4 permaneceram abertos.
As imagens seguintes são de todo elucidativas e apenas quem é destituído de princípios científicos ou eivado pela crença pode contestar essa conclusão.
http://prntscr.com/10bfmrd
(colhida do artigo científico "Lockdown Effects on Sars-CoV-2 Transmission – The evidence from Northern Jutland", https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.12.28.20248936v1.full);
http://prntscr.com/10elvsp - Dakota do Sul vs. Dakota do Norte, "casos"
http://prntscr.com/10em0aq - Dakota do Sul vs. Dakota do Norte, óbitos
(fonte: worldometers).