segunda-feira, 26 de abril de 2021

26 de Abril

Mais uma vez, vi várias referências aos péssimos indicadores económicos e sociais do fim do Estado Novo, comparando-os com os actuais, como demonstração de que o 25 de Abril valeu a pena.


A mim parece-me um enorme equívoco, por várias razões.


O Estado Novo era ilegítimo porque a sua fonte de poder - a força - era ilegítima, e não seria mais legítimo se tivesse melhor ou pior desempenho económico e social.


Quando se critica a legitimidade de um regime em função dos seus resultados económicos e sociais, o que se faz, de facto, é legitimar a hipótese de trocar a liberdade por riqueza, justiça, igualdade, ou qualquer outro bem social que se pretenda obter a partir de regimes ilegítimos.


Pretender esquecer a base miserável de partida do Estado Novo, pretender que os resultados no fim do regime são maus por causa do regime - e não, apesar dos bons resultados económicos e sociais do regime, discussão diferente é saber se não poderiam ter sido muito melhores -, negar que o maior período de convergência económica do país com os países mais desenvolvidos é de 1956 a 1973, negar a descida do analfabetismo dos 75% para os menos de 25% do regime (sabendo que a taxa de analfabetismo é de reacção lenta porque quem for analfabeto aos vinte anos facilmente o será aos 70), e etc., que é costume, é não só errado (o que seria o menos) mas contribuir para se evitar a discussão sobre o 26 de Abril, as fontes de legitimidade do poder e o que fizemos com os instrumentos que passámos a ter na mão.


Comparar o extraordinário desempenho económico de Portugal entre 1956 e 1973 com a estaganação dos últimos vinte anos não é legitimar o Estado Novo, nem pode ser feito sem o cuidado que tem de haver na comparação de períodos e contextos históricos diferentes, mas seria uma celebração bem mais fecunda do 25 de Abril (veja-se abaixo o gráfico com base no qual Carlos Guimarães Pinto defende o valor da liberdade económica) que repetir erros históricos sobre o Estado Novo como forma de reforçar a legitimidade do regime democrático.


converg.jpg


Repito-me: a democracia é mais legítima que qualquer ditadura, independentemente de quaisquer resultados económicos e sociais, porque a fonte do poder dos governos é mais legítima.


Convém é não esquecer que a generalidade das pessoas não tem interesse nenhum em ser livre e pobre, tem interesse sim em ser livre e ter a oportunidade de se livrar da pobreza.


O que nos deveria obrigar a discutir seriamente o 26 de Abril em vez de a cada 25 de Abril torcer os factos para evitar ter de os encarar de frente e aprender alguma coisa com isso.

6 comentários:

  1. Caro Senhor





    Como lhe é habitual, explicou com clareza e urbanidade o que distingue um regime autoritário da democracia, evitando utilizar as falaciosas comparações de indicadores sociais e económicos que hoje se fazem, que, como bem observa, justificariam o regime, não só por serem feitas, mas porque até são claramente favoráveis ao Estado Novo.
    No entanto, como a sua tão feliz frase que tomei a liberdade de copiar acima, bem o expressa, a democracia não é um objectivo em si; é sobretudo instrumental para uma boa governação, de que se pretende resulte mais riqueza para o país, ou seja a liberdade de não ser pobre.
     A Liberdade é algo muito mais vasto, e também mais  pessoal, para poder ser identificado com a democracia. Por exemplo a liberdade de ter um ensino de qualidade e não doutrinário que permita que os mais desfavorecidos tenham oportunidades semelhantes aos filhos da classe média, nomenklatura política incluída, que frequenta colégios particulares .
    Os 47 anos passados de democracia infelizmente, não se podem orgulhar disso.



    Melhores cumprimentos

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  2. Rejeito liminarmente essa amálgama de Liberdade com Democracia. As democracias se falham, não é necessariamente por falta de liberdade, mas pela falência de outros factores que deviam existir "antes" da Liberdade. A "deusa" Liberdade, venerada com tanto fervor, é um conceito muito subjectivo. E, como tal, está sujeito à hierarquia de valores de cada um. Não é consensual nem considerada o Sumo Bem para uns e outros. 
    Cada um é a "sua" circunstância, portanto, prefiro, para meu uso, o "livre arbítrio", que é de livre escolha, pessoal, está ao alcance de cada um. Não  me é "oferecido" pelos ditames de uma entidade abstracta que o regula (o Estado, o "regime", etc.).

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  3. Excelente texto, vou partilhar. É,  aliás,  uma boa oportunidade para o conselheiro Louçã dizer na SIC Notícias que o Henrique está a defender o Estado Novo. É só uma ideia que estou a dar ao trotsquista-mor...

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  4. Olhando para o gráfico só me lembra dizer que os pobres e desfavorecidos são mesmo muito estúpidos. Faz-se uma revolução a pensar neles, a dar-lhes a possibilidade de elegerem um governo que defenda os seus interesses, para depois ficarem ainda mais pobres.
    Ou estúpidos ou masoquistas. 

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