quarta-feira, 17 de março de 2021

Aprendizes de feiticeiro, versão 1327

Já tinha pensado fazer um post com este título a propósito da confusão com a vacinha da Astra/ Zeneca, eu que praticamente nunca escrevi sobre os programas de vacinação (embora me faça a maior das confusões haver tanta gente acima de setenta anos não vacinada, e tanta gente abaixo de setenta vacinada, consigo perceber que o assunto pode ser bem mais complicado do que me parece a mim, que me limito a pensar (e reconheço a limitação deste ponto de vista) que deveria haver uma opção base muito clara: vacinamos para controlar a doença, ou vacinamos para diminuir a mortalidade?).


Entretanto Eduardo Rêgo disse o essencial do que eu gostaria de dizer, e com bastante mais propriedade do que eu o iria fazer, pelo que é preferível citá-lo, encurtando o texto, e depois escrever o meu comentário.


"...Finalmente, um ano depois, vemos nos noticiários alguma pedagogia estatística e de avaliação de riscos.


Que os casos verificados de trombos não têm relevância estatística relativamente ao número de vacinados com a AZ; comparação do risco com o de outras incidências relacionadas mais que conhecidas - como as associadas à pílula contraceptiva - e com que toda a gente vive, com cuidados e consciência (os riscos da pílula existem!) mas sem alarmes e com decisões racionais de escolha entre o risco menor e consequências maiores (ter filhos), etc.


Estranho é ver algumas pessoas a fazer agora esta "pedagogia estatística e do risco" em favor da vacina (e bem hajam) mas que durante um ano inteiro nunca hesitaram em publicitar mais um "estudo" fresquinho a especular sobre os malefícios terríveis da doença, como as possíveis sequelas neurológicas, até em crianças e assimptomáticos! Estudos sem qualquer estatística robusta (até por falta de tempo para ter sido feita), sem comparação com as sequelas análogas de doenças próximas como as pneumonias e gripes (e sem referência às estatísticas desses casos, que certamente existirão, sendo estudos com anos de existência ) e, ainda por cima, contra-intuitivos no caso das crianças e jovens em que a gravidade da doença é... Estatisticamente irrelevante!


...Mas bem vindos, agora!".


A mim parece-me que, finalmente, os que durante um ano consideraram o medo um aliado para salvar vidas, na medida em que condiciona comportamentos e aumenta a aceitabilidade de medidas coercivas para limitar contactos, tiveram um vislumbre dos riscos associados a uma imprensa histérica com factos fora de contexto, desde que alinhados com a ideia que se quer inculcar nas pessoas.


De repente apareceu a primeira fractura entre o interesse político, o interesse da imprensa e o interesse das autoridades de saúde, que têm estado alinhados ao longo de toda a epidemia.


O interesse a imprensa é seguir as emoções - e como o medo é poderoso na sua manipulação -, o interesse dos políticos é gerir a percepção das pessoas e o interesse das autoridades de saúde é gerir os efeitos da epidemia, seja em mortalidade, seja na pressão dos serviços de saúde.


Os gritos de "vem lobo, vem lobo", de que a imprensa se tornou caixa de ressonância, deixaram de dizer respeito à evolução da doença, para se virar para os potenciais efeitos secundários da vacina.


E governos fracos, assentes na ideia de que se o governo for perfeito é capaz de nos defender de tudo e nos tornar imortais, não têm margem para deixar de responder emocionalmente às consequências do "vem lobo, vem lobo", mesmo sabendo que não há lobo nenhum.


E por isso montam esta coreografia, uma batida ao lobo inexistente, mesmo que o efeito real nos programas de vacinação seja bem pior que os riscos eventuais da existência do lobo, não apenas pelos atrasos imediatos de vacinação, como sobretudo pela criação de uma desconfiança na vacinação que potencia o valor emocional de cada morte de uma pessoa vacinada, seja qual for a razão para essa morte.


E, de repente, as autoridades de saúde foram deixadas no mato sem cão, a ter de lidar com as dificuldades acrescidas nos programas de vacinação.


Não é que se possam queixar muito, andaram um ano a cavalgar o medo e usar as emoções para obter poder de condicionamento das pessoas, mas como as vítimas somos nós, não me serve de consolação a flagelação dos aprendizes de feiticeiro que, de repente, se vêem na necessidade de fazer o que, desde o princípio, deveriam ter feito: dizer, alto e bom som, que o medo é o principal inimigo a combater numa epidemia.

6 comentários:

  1. Bom texto. Subscrevo na íntegra. 

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  2. deveria haver uma opção base muito clara: vacinamos para controlar a doença, ou vacinamos para diminuir a mortalidade?


    Há montes de outras opções disponíveis, por exemplo, vacinamos para controlar o medo da população, ou vacinamos para permitir a reabertura de certas atividades.


    Sendo que uma epidemia é primariamente um fenómeno social, o maior interesse pode ser precisamente o de controlar e acalmar esse fenómeno social.

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  3. 0,01 % por milhão mete confusão
    «porra? dizia a velha marquesa ...»

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  4. Excelente texto! Muito bom.

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  5. Caro Henrique,
    Subscrevo o texto na íntegra. Esse é (sempre foi) o ponto. O risco real não corresponder à percepção que a sociedade tem desse risco. 
    Por vezes sinto-me numa nave de loucos, onde a lógica, o conhecimento e o mais puro bom senso (ou senso comum, como quiserem) desapareceu. Só espero que os esforço que tantos fizeram para estabelecer a confiança nas vacinas não se esfume. Eis no que dá o medo, seja do vírus, da doença ou da vacina: descrédito, desconfiança e mais medo.
    Não sei quem esteve pior. Se a "comunicação" social, com a sua ignorância e exploração obscena desta situação que dura há mais de um ano (e dura, dura, dura, ... até à náusea), se a soberba ou vaidade (não sei bem), de alguns "especialistas" que, alegando ter descoberto pólvora seca no fundo do mar, usaram despudoradamente o medo (para "ficarmos em casa"). 
    Tantas vidas interrompidas, adiadas e destruídas, de modo cego ao invés de proteger os mais susceptíveis - os velhos e os doentes. Há 3 semanas, os pais de 2 pessoas conhecidas, ambos na casa dos 70, suicidaram-se. Um deles deixou uma carta, onde dizia que viver sem poder sair de casa, sem abraçar ninguém não era viver. O meu irmão e a mulher, trabalhadores independentes na área do turismo, não trabalham há um ano. Do estado receberam 99 euros! Têm 3 filhos. É a família quem ajuda. 
    Acabo de ouvir (Ursula Leyen que se está a formar uma nova vaga da pandemia - até onde isto vai parar?

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  6. Tudo para casa! E é já!18 de março de 2021 às 14:52

    Desde o início da primeira vaga (não do vírus, mas) do pânico covideiro que eu digo: se este é o tipo de racional que justifica estas decisões, como é que ainda não se proibiu o trânsito automóvel e aeronáutico apesar das quantidades de gente que morre em acidentes? Porque não se proibe o tabaco!? E o açúcar? E as pessoas de viver, já agora?


    É que se formos a ver bem, a única verdadeira causa de morte é estar-se vivo!...

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Um comunicado

Tencionava (na verdade, tenciono, o que nem sempre se materializa depois), ainda voltar à discussão sobre a prevalência das opções individua...