terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Tretas aritméticas

Houve um atraso na minha partida para Pasárgada motivado por um comentário a um post anterior:


"Verificou-se desde dia 24 dezembro, de forma consistente, uma situação de frio generalizado com valores da temperatura máxima e mínima do ar inferiores ao valor da normal climatológica 1971-2000. Nas últimas três semanas apenas no dia 28 de dezembro, o valor médio da temperatura mínima foi próximo do normal.
O dia 9 de janeiro 2021 foi o dia mais frio neste período, com 2.98°C de média da temperatura média do ar, sendo que os valores da temperatura máxima do ar, nas estações de Guarda, Aldeia do Souto, Lousã e Portel foram os mais baixos registados nos últimos 20 anos. De referir ainda que nos dias 5, 6 e 8, os valores médios de temperatura média do ar foram inferiores a 4°C. No dia 11 foi registado o 4º valor mais baixo da média da temperatura mínima do ar do território.
...
Embora se tenha registado a ocorrência da onda de frio relativamente localizada, o carácter prolongado deste episódio (cerca de 3 semanas), a persistência de vários dias consecutivos com temperaturas negativas (>10 dias consecutivos em 1/3 das estações), em particular no interior, e a abrangência territorial constituem aspetos importantes nos previsíveis impactos que terá tido na população."


Isto é o Instituto Português do Mar e da Atmosfera a falar da anomalia meteorológica das últimas três semanas.


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Isto é o Instituto Ricardo Jorge a calcular aqui o R(t) nacional e a relacioná-lo com o que acha relevante na sua evolução.


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Isto é a equipa de Manuel Carmos Gomes a projectar mortalidades à lá Buescu, ou seja, projectando tendências sem compreender a natureza do fenómeno que estão a analisar.


O que está aqui não é nenhuma modelação matemática, tal como as previsões de Manuel Carmo Gomes sobre números de casos que lhe servem para a campanha para o encerramento das escolas que mantém desde sempre também não resultam de modelação matemática, são apenas tretas aritméticas, brincadeiras com números sem ligação com as realidades que os números pretendem traduzir.


É por isso frequente haver atribuições de variação de número de casos ao início das aulas, por exemplo, mas raramente ouvi qualquer coisa a explicar como as férias de Natal dos alunos impactaram a evolução da epidemia.


Lá em cima, o Instituto Ricardo Jorge destaca a véspera de Natal, mas não faz qualquer referência ao facto do dia 24 de Dezembro ser o início de uma anomalia meteorológica que toda a literatura sobre doenças infecciosas respiratórias permite supôr que tem alguma relação com a brusca subida do R(t).


Aliás, o Instituto Ricardo Jorge nem sequer acha estranho que sendo o Natal um fenómeno nacional, ele se traduza num aumento do R(t) substancialmente maior na região de Lisboa e Vale do Tejo (A média do R(t) para os dias 30-12-2020 a 03-01-2021 foi de 1,21, estando o seu verdadeiro valor compreendido entre 1,2 e 1,22 com 95% de confiança) que no Norte (A média do R(t) para os dias 30-12-2020 a 03-01-2021 foi de 1,15, estando o seu verdadeiro valor compreendido entre 1,14 e 1,16 com 95% de confiança).


Na interpretação da evolução de uma doença infecciosa respiratória ignorar as condições meteorológicas que a literatura reconhece inequivocamente influenciarem a sua evolução (quer por afectarem a actividade viral, quer por afectarem a resposta do hospedeiro ao ataque do vírus, quer por afectar a forma como as pessoas se comportam) é simplesmente má ciência (admitindo que é ciência) e a complexificação matemática do tratamento dos dados sem ter em atenção esse aspecto não é mais que uma espécie de sudoku da epidemia: um entretenimento com números, sem qualquer relação entre a abstracção dos números e as entidades físicas reais associadas à evolução da epidemia.


Já vou tarde para Pasárgada, até mais ver.

12 comentários:

  1. Tem toda a razão! Em 2018 um dia de Janeiro teve 500 mortos por frio!
    Agora é tudo Covid! Todas as infeções respiratórias são covid!!! Toda a vida em Janeiro e Fevereiro foi o mês de mortes por gripe! E nos hospitais um caos! Talvez agora ainda seja pior mas com este governo desgovernado outra coisa não seria de esperar...

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  2. Uma tristeza esta "ciência" dos "especialistas". Dá ideia que eles só o fazem para justificarem mais  poder Político sobre as pessoas.

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  3. Como poderá ter ocorrido?



    Noticia de hoje...

    https://www.timesofisrael.com/israel-passes-10000-daily-infections-for-1st-time-since-start-of-pandemic/

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  4. O tempo ficou frio a 24 de dezembro e a 28 de dezembro começou a subir o número de infeções.
    Amanhã 20 de janeiro o tempo vai aquecer e ficar húmido. A minha aposta é que a 24 de janeiro (ou até antes) o número de infeções detetadas vai ter uma descida brusca.
    É claro que, quando essa descida ocorrer, ela será atribuída pelos jornalistas e pelos políticos ao confinamento e ao excelente comportamento dos portugueses.

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  5. Como o compreendo, também me apetece fazer o mesmo.




    (...)

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  6. É do frio. E quando não é do frio é do calor. E quando não é nada disso, é um azar do caraças. Qualquer dia lá chegará a ser mesmo do vírus ser lixado. Uma bíblia isto. Dá para vários volumes.

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  7. É melhor salientar que na Australia é verão porque este pessoal adora ignorar certas subtilezas.

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  8. Foi o Natal, naturalmente. Os 2% de cristãos da população israelita fizeram a ceia, e infectaram os 98% de judeus e muçulmanos.

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  9. Subtiliza foi ouvir ontem o Nicolau Santos a dizer (cito, e quem quiser ouvir, vá a RTP Play) que, "há um ano, ninguém imaginaria que este vírus iria matar quase dois mil milhões de pessoas em todo o mundo".

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  10. Bem, quando isto estiver para estourar, ( mas estourar a sério e não tardará muito) e quando já não houver saída, há um que já se terá posto ao fresco. Ou seja, já deu à sola. Sabemos todos quem é assim, não sabemos? Já deve estar a aprontar uma "narrativa" e a preparar-se para outros voos.

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  11. E também é subtileza ignorar que a Suécia, que continua a ignorar a tese "confinadora" (que, em termos de irracionalidade, pede meças aos malucos que dizem que não há Covid), converge para números globais semelhantes aos do resto da Europa (salvo, claro, os dos países do "milagre" da primeira vaga, como Portugal ou a República Checa, que agora - provavelmente por causa disso - têm o dobro, ou mais, de novos casos de Covid por milhão habitantes que tem a Suécia).  (https://www.thelocal.se/20210119/a-cautious-downturn-but-still-significant-spread-as-sweden-passes-146000-covid-19-vaccinations)

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  12. Eles estão em lockdown logo nem pode ser o Natal.

    É simplesmente o facto que os lockdowns não funcionam grande coisa quando as condições são propícias para o vírus. Só com equipamento NBQ provavelmente.

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