No dia 31 de Dezembro, Filipe Froes, que o Observador (ou a Lusa, às vezes é a mesma coisa) qualifica como especialista, resolveu dizer que os números de casos positivos registados nos dias 30 e 31 de Dezembro “poderão ser um reflexo do período do Natal, altura em que muitas pessoas desvalorizaram as medidas de prevenção e controle, como o uso de máscara e o evitar ajuntamentos”.
Mais especificamente "Tendo em conta os números de hoje, os dois especialistas assumiram, em declarações à agência Lusa, que “os primeiros dias de janeiro vão apresentar números elevados de novos casos” e o epidemiologista prevê uma média superior a 8.000 casos diários" (o outro especialista referido é Pedro Simas, mas como nenhum deles é epidemiologista, não se percebe bem que fez esta previsão).
Estes são dos que sistematicamente se diz estarem do lado da ciência e, por isso, têm todo o crédito de uma imprensa que se demitiu de fazer perguntas básicas sobre o assunto.
No momento em que faziam estas declarações, a média a sete dias andava abaixo dos 3 800 casos e tinha havido dois dias seguidos com números muito altos, um com seis mil e poucos casos positivos e outro perto dos sete mil e setecentos, mas em Portugal nunca houve uma média de 8 mil casos. Pode vir a haver, claro, mas até ao momento da previsão, não tinha havido.
Note-se que os tais comportamentos do Natal, responsáveis por uma previsão que mais que duplicava a média que então se verificava, ocorreram a 24 e 25 de Dezembro. Contágios ocorridos nesses dias, geram sintomas por volta de cinco dias depois, isto é, por volta de 29 e 30 de Dezembro.
Os dados de 30 e 31 de Dezembro reflectem os dados registados no dia anterior, que reflectem testes feitos, maioritariamente, pelo menos dois dias antes, ou seja, na realidade são dados de 28 e 29 de Dezembro, maioritariamente, o que torna manifestamente pouco provável que se devam a contágios de 24 e 25 de Dezembro.
Acresce que a subida de casos não é uniforme dentro das diferentes regiões do país, o que sugere que um facto transversal como o Natal não pode estar na origem da evolução diferente das diferentes curvas.
Os dois dias entretanto decorridos parecem confirmar que a subida de casos a partir do Natal pode existir, mas nada permite supor que terá a dimensão prevista por estes especialistas.
E, já agora, países com medidas igualmente muito restritivas durante o Natal, como o Reino Unido, Alemanha, República Checa, Dinamarca ou Países Baixos, apresentam curvas posteriores ao Natal muito diferentes (embora seja cedo para conclusões sólidas, a verdade é que, por enquanto, as tendências não parecem ser semelhantes apesar de medidas semelhantes).
Mas podem homens de ciência errar tão estrepitosamente em matérias científicas?
Comecemos pela base: quem diz que Filipe Froes (ou Pedro Simas, ou Ricardo Mexia) são especialistas cujas opiniões são fundamentadas cientificamente?
Na verdade, os jornais, nada nos respectivos curricula os qualifica como especialistas em epidemiologia. Podem ser especialistas noutras coisas (Filipe Froes em clínica pulmonar, Pedro Simas em virologia, Ricardo Mexia em saúde pública) mas não em epidemiologia.
Como me fazia notar um dos tais que a ortodoxia garante estar contra a ciência, e que resolveu fazer uma comparação simples no google scholar entre ele próprio e David Marçal, que se assume como o guardião da ciência nesta epidemia, os números são avassaladores.
David Marçal tem 17 publicações, contra quase 300 do meu interlocutor, David Marçal é citado 305 vezes, o outro praticamente 15 mil, o artigo mais citado de Marçal tem 185 citações, o do outro tem quase 900 citações e mais de uma quinzena de artigos mais citados que o mais citado de Marçal e o ano de Marçal com mais citações, dos ultimos oito anos, tem 28 citações o meu interlocutor tem mais de mil citações em cada um dos últimos três anos, mas para a imprensa é Marçal o árbitro que é preciso ouvir quando se trata de saber o que é científico ou não.
Mais ridículo que isto, só João Júlio Cerqueira, a quem o Polígrafo recorre frequentemente para fazer a verificação de factos científicos e que é um médico de medicina de medicina geral e do trabalho cujo currículum científico se resume a ter fundado uma página de Facebook e um blog dedicada à ciência.
Não se trata de negar o interesse em ouvir estas pessoas, e menos ainda usar argumentos de autoridade para evitar a discussão do que quer que digam, trata-se, isso sim, de negar em absoluto que estas pessoas representem o saber científico sobre a epidemia e que discutir as suas opiniões seja o mesmo que negar a ciência.
Manuel Carmo Gomes, esse sim, é um cientista, mas grande parte do que tem dito sobre a evolução da epidemia não se verificou, como o efeito da abertura das escolas e outras coisas que tais. Isso não é má ciência, é o normal no processo científico e corresponde ao que é o estado actual da ciência sobre a epidemia, um estado muito inicial em que há muito pouca coisa já completamente assente e estabelecida.
É por isso natural que diferentes pessoas, incluindo diferentes cientistas, digam coisas diferentes sobre a epidemia.
E quando se passa da produção científica sobre a doença em si, para processos mais complexos como o efeito da doença na sociedade, ou seja, para a epidemiologia (que soma a complexidade da doença à complexidade da sociedade e lhe soma ainda a complexidade da relação entre a doença e a sociedade), o que se sabe e tem um largo consenso é ainda muito menos, de tal forma que apesar de um ano de convívio com a doença e do seu estudo intensivo, não existem muitas publicações científicas e meta-análise sólidas sobre que medidas não farmacêuticas funcionam no controlo da epidemia, havendo apenas correlações estatísticas (muitas vezes "astrologia disfarçada de matemática", para usar a expressão certa deste artigo que vale bem a leitura) que são, quando são, muito mal testadas para outras situações semelhantes.
Seguramente eu sei muito menos do assunto que qualquer das pessoas citadas neste texto, e de maneira nenhuma pretendo que qualquer um de nós se afaste do debate sobre o assunto, mas debater é apresentar argumentos, não é pretender eliminar o contraditório com a alegação, manifestamente falsa, de que a ciência está apenas num lado do debate e que contestar - ou sequer ter dúvidas sobre as medidas de gestão adoptadas, como é o meu caso - a visão dominante da gestão da epidemia é equivalente a dizer que a terra é plana.
Chamem o andre dias !!!!!! Sr. Henrique... chame o andre dias.... sabe quem é ?
ResponderEliminarEsse é que é epidemiologista. Alias, super epidemiologista
Dizem até que todos os paises da europa o querem contratar
E sobre o post, tem alguma coisa a dizer?
ResponderEliminarSobre o André Dias já percebi que tem, uma mentira evidente, a de que alguma vez André Dias se apresentou como epidemiologista.
Sobre o post não sei se terá alguma coisa menos rasca para dizer.
ResponderEliminarJHS, 'isto' é uma malta brava... Melhor, uma gajada.
Creio que conhece, mas deixo estes 3 links para blogs bons.
O Andre Dias e que sabe fazer ciencia com duas Gaussianas e meio...
ResponderEliminarEste texto e a versao portuguesa necessariamente mais paroquiana e ridicula do "stop the steal" Trumpiano.
Reli o que escrevi para ter a certeza e fiquei com a certeza: enganou-se, com certeza, no post a comentar, visto que este não tem qualquer referência a André Dias.
ResponderEliminarRespondendo a esta tentativa algo entre imbecil e senil de tergiversar fico na duvida entre temandar para o caralho ou, em alternativa, p'ro caralho.
ResponderEliminarHPS, podes reler o que escrevi para eu ter a certeza que nao me engano na construcao frasica?