Na sequência do meu post anterior, aproveito em primeiro lugar para corrigir a citação que fiz, a pergunta não era sobre as próximas acções mas sobre as próximas fases, o que é uma abordagem mais alargada.
Este novo post resulta de uma pequena troca de comentários, noutro contexto que não este blog, e que acho que me permite ser mais claro do que fui sobre a utilização do fogo enquanto instrumento de gestão do capital natural.
Em primeiro lugar gostaria de esclarecer um mal entendido que, pelos vistos, terá existido: ao falar dos efeitos do ensombramento do giestal denso não pretendia fazer uma declaração contra o ensombramento, estava apenas a constatar que aquele ensombramento em concreto tem um efeito concreto.
O ensombramento tem um efeito geral que é o de diminuir a produtividade primária, isto é, diminuir a velocidade de crescimento das plantas porque intercepta a luz, diminuindo a actividade fotossintética e, consequentemente, a captação de energia e, consequentemente, a actividade fisiológica da planta e, consequentemente, a criação de novos tecidos. O que, bem entendido, não quer dizer que não beneficie muitas espécies que exactamente se especializaram em explorar nichos ecológicos caracterizados por menor luminosidade.
Ao ensombramento também se aplica o célebre princípio que Paracelso estabeleceu na química: a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.
Uma coisa é ter um ensombramento de um giestal muito denso, de folha perene e com copados a um ou dois metros do chão, outra coisa é o ensombramento de um carvalhal maduro dominado por espécies caducifólias e com copados a quatro ou cinco metros do chão.
Sabendo nós que a generalidade dos nossos matos são dominados por plantas heliófilas, isto é, que gostam do Sol, parece claro que aumentar o ensombramento acima do copado dos arbustos é uma maneira eficiente de fazer controlo de matos.
Por essa razão, a Montis, quando faz plantações, faz plantações muito densas, com árvores de metro a metro, com o objectivo de obter ensombramentos relevantes no mínimo tempo possível. As árvores, individualmente, teriam com certeza melhores desenvolvimentos com compassos mais alargados, é aliás por isso que nas matas de produção ninguém usa compassos com árvores de metro a metro, mas como os objectivos da Montis não são de optimização da produção de valores de mercado, mas de optimização de valores de biodiversidade - o que implica aumentar a diversidade e o mosaico de nichos ecológicos - as plantações podem ser feitas com algum prejuízo do crescimento das árvores se, em troca, houver, mais rapidamente, alguns bosquetes que fazem ensombramentos relevantes. Dessa forma limita-se a competitividade das plantas heliófilas dominantes, criando oportunidades melhores para a concorrência, de maneira geral mais rara.
A questão que se levanta, depois de esclarecido este ponto, é a de saber se os efeitos de bloqueio da sucessão ecológica associado ao fogo recorrente não é mais negativo que "esperar pelo fogo", como também se advogava na troca de argumentos sobre o post anterior.
O resultado não é o de desproteger o solo, aumentar a secura, destruir o horizonte biológico do solo, aumentar a susceptibilidade à erosão, destruir toda a fauna, etc.?
Não seria preferível plantar "água por todos os cantos úteis que a morfologia nos dê. Rete[r] essa água com raízes e sombra das plantas que ... com essa água se fazem grandes ... Recuperamos e recriamos linhas de água nas valadas e criamos aceiros nas cumeadas, sem mato, com cereal que suporte ainda as linhas arbóreas bombeiras que ali se plantam. Acrescentamos biodiversidade, nas plantas do estrato arbóreo ao herbáceo, nos fungos micorrízos e nos decompositores, nos microorganismos efectivos, nos habitats que trazem as avibrigadas e parasitóides pesticidas, os propagadores, os fertilizantes herbicidas. E todos os pedaços de matos, sem sombras, que não temos capacidade de plantar e gerir, deixamos a fazerem o seu serviço de babyssiting a novas árvores, que em anos posteriores iremos libertando na lei da roça. Isto cria mosaicos onde chegando o fogo, com centenas de projecões hora, irá queimar as ilhas de matos e parar nas ilhas arbóreas, que são podadas para crescer e têm um sorgo verde e que se corta com enorme facilidade, criando um importante mulch para o verão. ... [é que] eu não consigo gerar espontaneamente água, nem vento, nem terra" (ao contrário do que acontece com o fogo, interpreto eu).
Todo este comentário é interessantíssimo e parte de um preconceito largamente difundido e profundamente arreigado: o de que o fogo é o resultado de uma acção, de maneira geral humana, não sendo da mesma natureza que os outros elementos naturais, a água, o vento e a terra.
A verdade é que não é assim, Paulo Fernandes fez uma síntese admirável que responde a este preconceito: o fogo, muito antes de ser um instrumento nas mãos dos humanos, é um processo ecológico fundamental para a esmagadora maioria dos ecossistemas terrestres.
É muito interessante como acima se descreve uma pesadíssima e caríssima - no sentido mais geral de consumo de recursos, mas também do estrito ponto de vista financeiro - manipulação da água e da terra, ao mesmo tempo que se recusa aplicar os mesmos princípios à manipulação do fogo.
Na base desta recusa, para além do preconceito já referido sobre a natureza do fogo, há um claro défice de conhecimento sobre a ecologia do fogo, muito bem expresso pela ideia de que é igual fazer um fogo em condições escolhidas ou "esperar pelo fogo".
Milhares de anos de conhecimento tradicional no uso do fogo têm sido desprezados a favor de uma série de teorias new age, com alguns pontos interessantes, mas profundamente erradas sobre o fogo como processo ecológico.
Um fogo de baixa intensidade, isto é, que ocorre em condições de humidade do solo, humidade atmosférica, temperatura e vento escolhidas para controlar os seus efeitos não tem o mesmo efeito que um fogo pelo qual se espera e que, provavelmente, vai ocorrer em condições meteorológicas extremas, isto é, com índices de secura do solo e da atmosfera mínimos e com ventos fortes, ou seja, em condições que maximizam a sua intensidade.
Um fogo muito intenso é um fogo que irradia muita energia e, ao mesmo tempo, um horizonte orgânico do solo como baixo teor de humidade é um horizonte orgânico que precisa de menos energia para carbonizar ou arder, ou seja, enquanto num fogo de baixa intensidade, isto é, que irradia menos energia, que ocorre em condições de humidade de solo elevadas, não há sequer afectação do solo, nem sequer aquece, num fogo de elevada intensidade toda a matéria orgânica presente, mesmo em alguma profundidade, desaparece ou é fortemente afectada, incluindo toda a vida associada a esse solo.
E o que é verdade para o solo é verdade para toda a biodiversidade: as tais árvores bombeiras - termo inventado como piada por Paulo Fernandes e que é usado de forma séria por muita gente -, que até podem comportar-se de forma diferente de outras num fogo de baixa intensidade, não servem para rigorosamente nada em fogos de elevada intensidade, ardem como o resto (as partes da planta mais finas, os troncos com mais de dez centímetros de diâmetro raramente ardem, mesmo em fogos muito intensos com elevada severidade).
Argumentar que se segue a ordem natural, esperando pelo fogo, é razoável quando se está disposto a pagar o preço da perturbação provocada pelos fogos de Verão de elevada intensidade, incluindo a destruição do horizonte orgânico do solo - e eu defendo essa opção de gestão em algumas circunstâncias - mas como opção regenerativa de sistemas naturais profundamente degradados, é uma opção ineficiente e com pouco valor social.
Um fogo controlado cujo resultado, no próprio momento do fim do fogo, é o que mostra esta fotografia da parcela queimada na Terça-feira, também o dia em que a fotografia foi tirada, criando diversidade e abrindo oportunidades de gestão, que incluem a possibilidade de salvaguardar do fogo pequenos núcleos cujo desenvolvimento poderia ser mais prejudicado que beneficiado pelo fogo, como técnica regenerativa do capital natural, é incomparavelmente mais eficiente que a descrição idílica transcrita acima e que, em qualquer caso, qualquer gestor consegue ver que não tem aplicabilidade em terras marginais como esta.

Claro que era melhor poder dispor de mais técnicas, em especial a integração dos animais neste proceso de reconstrução do capital natural, como se pode ver no projecto notável da Terra Maronesa, mas isso depende da possibilidade de dispor de recursos estáveis que permitam manter um rebanho, o que ainda não foi possível.
Manipular o fogo é tão útil como manipular a água ou a terra (o ar é mais difícil, pelo menos em larga escala) e igualmente legítimo, podendo as diferentes técnicas "iluminar-se mutuamente" para criar paisagens mais equilibradas, com maior diversidade biológica e com melhores oportunidades para os grandes mamíferos selvagens que podem substituir parte das funções ecológicas que hoje conseguimos obter a partir do gado ou do fogo.
O que implica, naturalmente, saber mais e persistir na procura da "longa experiência com honesto estudo misturado" que é a base das boas decisões que podemos fazer na gestão do nosso território.
Mais uma vez, uma explicação tão clara e simples sobre o que é um bocadinho da ecologia do fogo aqui em Portugal. Posto isto não se percebe porque repudiamos o fogo controlado....
ResponderEliminarCaro Henrique
ResponderEliminarFogo e Água. Esta questão leva-me a levantar uma questão que tenho visto ser insuficientemente ou mesmo nada considerada.
Os modelos relativamente às alterações globais apontam no sentido de os regimes de precipitação passarem de frequentes chuvadas de média ou baixa intensidade para uma predominância de chuvadas de média a alta intensidade.
Esta modificação determina que haverá menos infiltração (a taxa de infiltração da água no solo é muito mais reduzida do que a quantidade de água de uma chuvada normal) e logo mais e mais intenso escoamento superficial e erosão.
Consequências directas e bem visíveis: aumento da frequência e intensidade das cheias, colmatação das linhas de água contribuindo tb para esse maior risco de cheias, além de ao cobris os solos das várzeas vir a comprometer a sua produtividade. Consequências indirectas e não tão perceptíveis: A redução muito significativa da infiltração vai reduzir o volume de recarga das águas subterrâneas as quais garantem que, nos meses sem chuva haja água a fluir nos rios e ribeiros. Havendo menos quantidade de água subterrânea por insuficiente recarga muito mais linhas de água secarão no verão com perdas dramáticas em termos de biodiversidade.
Como evitar isto? com um coberto vegetal denso (em particular arbustivo e herbáceo que garantam um amortecimento da energia da chuvada e uma menor capacidade erosiva da gota de água impedindo-a de destruir a estrutura superficial do solo - o que ainda reduz mais a capacidade de infiltração. Em segundo lugar esse coberto denso determina que boa parte da água em vez de cair sobre a superfície do solo (mesmo com a sua energia reduzida) logo, fluirá ao longo dos ramos e dos troncos e chegará mais lentamente ao solo e poderá infiltrar-se mais facilmente pelas microfissuras nas bases das plantas.
No que respeita ao escoamento superficial e à erosão causada por ele, quanto mais se consiga reduzir a velocidade desse escoamento, menos energia erosiva ele terá e mais prolongado no tempo será a sua afluência às linhas de água reduzindo o volume dos caudais máximos de cheia, logo a área inundada e a destruição causada.
Temos, portanto de, no quadro da prevenção e gestão das consequências hidrológicas e hidrogeológicas destas alterações previsíveis do regime pluvial de encarar a necessidade de densificar radicalmente a densidade do coberto arbustivo das nossas montanhas.
Contudo, este coberto arbustivo é aquele que apresenta maior susceptibilidade à ignição, logo maior risco de incêndio.
Penso que este é um desafio da maior importância que se nos coloca no curto prazo em termos de investigação e gestão do território, não só para salvaguardar e recuperar, como referes no teu post, a biodiversidade que estamos a perder com a ausência de uma gestão mínima do coberto florestal e dos ciclos de fogo, mas agora também dos sistemas hidrológicos, e dos riscos resultantes em termos dos usos humanos e da preservação e recuperação da biodiversidade, nomeadamente dos ecossistemas fluviais.
Um abraço
João Paulo Fernandes
ResponderEliminarIsto parece-me verdade. Eu diria que cá em Portugal muito raramente haveria fogos a não ser por ação do Homem. Trovoadas secas são muito raras em Portugal, creio. Se não fosse a ação do Homem, quase não haveria ignições.
Não vejo nenhuma dificuldade na gestão do problema: mais fogo de menor intensidade, mais construção de obstáculos ao escoamento nas zonas côncavas do território, mais animais a acelerar a regeneração dos solos e aumentar a capacidade de retenção da água.
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