terça-feira, 6 de outubro de 2020

Ainda os lares, a epidemia e os fogos

O problema dos lares, a julgar pela dimensão que atinge em todos os países europeus (penso que não só, mas não tenho muita informação sobre outros contextos) é muito mais complicado de resolver do que poderia parecer à primeira vista.


Independentemente da nossa opinião sobre o assunto e, mais ainda, dos raciocínios lógicos que possamos fazer sobre formas de evitar contágios, vamos mesmo ter de conviver com mortalidade relativamente altas no lares, que são concentrações de pessoas vulneráveis e dependentes de terceiros que, forçosamente, têm de manter contactos com o exterior.


Os lares reúnem as condições ideais para que ocorram surtos com mortalidades elevadas, por mais que pintemos a manta a tentar evitar qualquer contágio.


Fazendo a analogia dos fogos, é uma circunstância em que, com as condições adequadas, rapidamente o fogo ultrapassa o limiar de extinção.


Tal como nos fogos, é muito mais útil perceber que é assim, aceitar que é assim, e olhar seriamente para essas condições favoráveis - que suspeito que só nunca foram identificadas para as gripes porque ninguém olhou para a gripe desta forma - e procurar ir alterando as condições de contexto favorável aos surtos (isto é, gerindo os combustíveis, no caso dos fogos) que acreditar que é possível parar um fogo que está para lá da capacidade de extinção.


Por exemplo, talvez algumas famílias estivessem disponíveis, e tivessem condições, para ter os seus "mayores" em casa, diminuindo a concentração, protegendo-os melhor e com mais humanidade, se o Estado (ou a sociedade) disponibilizasse medidas de apoio ao rendimento semelhantes a outras situações. É uma medida que não daria nenhuma garantia de que, ainda assim, não ocorresse contágio e morte, mas o contexto para que tal acontecesse seria bastante menos favorável.


É só um exemplo, não acredito que uma medida destas tivesse uma grande repercussão, sobretudo no que diz respeito a quem precisa de mais cuidados de saúde ou tem menor autonomia, e com este exemplo só queria ilustrar a ideia de que, sendo esta uma doença sazonal, em que os surtos seguem o padrão das outras doenças respiratórias, como uma subida rápida, um pico que muitas vezes é um planalto e uma descida para a situação de referência, a defesa dos mais vulneráveis pode ir muito mais longe que os programas de vacinação da gripe, desenhando modelos de gestão dos lares adaptados à sazonalidade das doenças respiratórias que permitam diminuir as condições de propagação do contágio interno, em vez de investir tudo na vã esperança de evitar a entrada da infecção dos lares.


Umas dezenas de anos de política de fogos assente na ideia de que não havendo ignições não haveria grandes fogos - a ideia de estancar a actividade viral na origem que nos andou a fazer perder tempo e recursos durante todo o Verão - resultam numa enorme quantidade de informação experimental que nos poderia ser útil para gerirmos as circunstâncias em que se verificam cerca de 50% das mortes de pessoas com covid.

2 comentários:

  1. os lares, ou melhor depósitos de velhos em mau estado de conservação e dependência extrema, não estão preparados para doenças deste tipo
    quem está no governo deixa arrastar até ao infinito a propagação deste virus
    estratégia e tática erradas
    nada a fazer com este tipo de gente  gente e sua ideologia

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  2. Seria muito improvável que um idoso estivesse mais protegido do sars-cov-2 no seio da sua família do que num lar de idosos. Numa família, não haveria capacidade de todas as pessoas que entram na casa se desinfetarem, de se estar sempre a desinfetar as superfícies, de todos os membros da família que contactam com o idoso usarem máscara, etc.


    Em resumo, a proposta do Henrique apenas levaria a que os idosos se infetassem em casa, em vez de se infatarem num lar de idosos.


    O que importa é aumentar a capacidade do sistema imunológico dos idosos. Isso pode ser feito através de uma alimentação adequada, eventualmente com alguns suplementos dietéticos. E isso poderia perfeitamente ser feito nos lares de idosos.

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