terça-feira, 15 de setembro de 2020

O eterno retorno

Paulo Fernandes, numa discussão sobre fogos no Soajo (e, mais genericamente, nas serras do Parque Nacional, ou, mais genericamente ainda, nas serras de Portugal): "Abandonar o pastoreio e as queimas associadas significa acabar com o mosaico de recorrências do fogo e passar a ter nas montanhas do norte os incêndios que temos no pinhal interior e na serra algarvia (ou equivalentes, porque a orografia é demasiado quebrada para ter incêndios tão grandes)".


Traduzido em miúdos, ou temos muitos fogos, menos intensos e em mosaico ao longo dos anos, ou temos menos fogos, mais intensos e extensos.


O primeiro padrão de fogo dificulta a recuperação das matas autóctones, visto que os carvalhos, embora bastante adaptados ao fogo, precisam de intervalos seguramente maiores que quatro anos, entre fogos, para que os carvalhinhos novos não morram com o fogo.


O segundo padrão de fogo é o que conhecemos do actual fogo de Proença-a-Nova e Oleiros, mas também dos fogos de 2017 e 2003, nos xistos centrais, ou 2004 no Caldeirão, ou 2016 na serra da Freita, ou Monchique, em vários anos.


O primeiro padrão de fogo permite alguma produção económica, quer porque os rebanhos produzem riqueza, quer porque é mais fácil a um proprietário defender-se isoladamente de fogos menos intensos e com menor continuidade de combustíveis. E, de maneira geral, não provoca perdas sociais tão elevadas, em mortes, infraestrutras e casas ardidas.


O segundo padrão de fogo provoca tragédias cíclicas, com intervalos em torno dos 12 a 15 anos, com mortes, casas e infraestruturas ardidas e grande destruição em mega operações, inevitavelmente ineficientes, de protecção civil.


Perante estes factos, a sociedade divide-se.


Há os utópicos - o que é preciso é esmagar a actividade viral, desculpem, a actividade do fogo, prendendo incendiários, mesmo que a maior parte da área ardida não tenha nenhuma relação com o fogo posto, ensinando as pessoas a comportar-se como deve ser, mesmo que 1 a 2% das ignições sejam responsáveis por 90% da área ardida, equipando e treinando o sistema de combate para a detecção precoce e a supressão de qualquer início de incêndio, mesmo que isso potencie as condições para as tais tragédias cíclicas, gastando rios de dinheiro a procurar alterar a estrutura de propriedade, mesmo que o problema seja a competitividade da actividade, fracamente ligada à estrutura da propriedade e fortemente dependente dos mercados, afundando recursos em mudar os povoamentos de pinheiro e eucalipto em carvalhais, mesmo que os carvalhais ardam como o resto e o fogo seja comandado pelos combustíveis finos e não pelas espécies de árvores que lá estão.


E há os pragmáticos - se o primeiro padrão tem problemas mas é uma base de partida que demonstra algumas vantagens, e se o segundo padrão tem mais desvantagens que vantagens e mais dificuldade de evolução porque destroi o capital necessário à sua transformação, vamos lá olhar para o primeiro padrão de fogo e ver como podemos gerir a paisagem no sentido de optimizar os seus benefícios e minimizar as suas desvantagens.


Nós, os pragmáticos, temos a generalidade da ciência (a ciência, felizmente, não é monolítica) e do conhecimento do nosso lado.


Eles, os utópicos, controlam o dinheiro e os recursos.


Resultado final: estamos feitos, não apenas nós, os pragmáticos, mas também os agnósticos que em Oleiros e Proença-a-Nova se viram nestes dias em palpos de aranha para prevalecer.

7 comentários:

  1. Santa ingenuidade...claro que tem de ser a segunda opção, caso contrário como iamos comprar Kamovs e outros que tal.....

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  2. Os partidos, o poder político hiper-centralizado, prefere e  negoceia com quem?. Óbviamente que os "utópico", cientistas ou não, todos a mexer nos dinheiros e que têm muitos votantes por toda a infindável industria do apagar fogos. (Pa)ciência.

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  3. A maior parte da área ardida não tem relação com o fogo posto?!? A maior parte da área ardida nem sequer tem causa atribuída! 

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  4. Se os rebanhos produzem riqueza, porque é que os abandonam?


    https://www.tvi24.iol.pt/amp/sociedade/chamusca/rebanho-abandonado-morreu-a-fome-e-a-sede

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  5. Quando diz que tem a generalidade da ciência do seu lado, refere-se a avençados das papeleiras como o auto-intitulado guru do fogo Paulo Fernandes?

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  6. O seu comentário é difamatório. E, por cima disso, anónimo.
    Só pessoas sem a menor sobra de espinha usam a difamação anonimamente.
    A senhora ou o senhor é simplesmente uma canalha ou um canalha.

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  7. Boa tarde, 


    Os fogos em Portugal acontecem naturalmente (devido a fenómenos climatéricos ou químicos) ou devido à mão humana? 

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Um comunicado

Tencionava (na verdade, tenciono, o que nem sempre se materializa depois), ainda voltar à discussão sobre a prevalência das opções individua...