domingo, 2 de agosto de 2020

O medo

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A menos que eu me tenha distraído, penso que nunca terei escrito nada a desvalorizar o papel do medo numa epidemia.


Bem pelo contrário, as minhas críticas mais fortes à Organização Mundial de Saúde prendem-se com a sua opção de gerir uma epidemia promovendo o medo.


Uma das minhas irmãs dizia-me, se bem percebi, que o que eu dizia que era promoção do medo era apenas uma maneira, muito pedagógica, de fazer a gestão de uma epidemia em dois ou três anos, até que o vírus se tornasse endémico.


A verdade é que o medo é uma coisa bem real e tem consequências individuais e sociais que não devem ser desvalorizadas.


O artigo que está no princípio deste texto é uma ilustração muito boa de como mesmo uma pessoa bem treinada para lidar com as emoções acaba enredado numa teia tecida pelo medo, mesmo tendo absoluta consciência do absurdo do que sente face aos riscos que realmente corre, mantendo a capacidade de análise racional da situação e, ainda assim, o medo permanece.


O relevante aqui é que o texto ilustra o que é normal, não vale a pena desvalorizar o que está descrito, todos nós tendemos a reagir assim e as comunidades, perante uma ameaça que as pessoas sentem como podendo atingi-las individualmente, reagem assim.


Este aspecto, aliás, tem sido usado como argumento de que não são as medidas tomadas que deprimem o PIB, haveria sempre uma descida acentuada do consumo, por causa do medo das pessoas, faz parte das consequências normais de uma epidemia.


É verdade que não está nas mãos dos governos, nem mesmo da coligação governos e jornais, controlar o medo das pessoas e das sociedades.


Tem estado nas mãos das pessoas, em especial das elites que são capazes de racionalizar o seu medo, e está nas mãos dos governos, e está nas mãos dos jornais e, mais que todos, está nas mãos da Organização Mundial de Saúde, adoptar uma doutrina de gestão da epidemia que considera o medo um aliado para que as pessoas adoptem comportamentos de defesa em relação à doença, e para que as pessoas pressionem os seus governos para que adoptem medidas coercivas maximalistas - cabe tudo no princípio da precaução e da definição do pior caso possível - e consequentemente cavalgar o medo, promovendo-o.


Em alternativa, pode-se adoptar uma doutrina de gestão da epidemia que considera o medo como um dado adquirido que, acima de determinado nível, é bem mais perigoso que a doença em si, e por isso todas as decisões são pesadas em função do seu contributo para o reforço da confiança, a racionalização do medo e o controlo dos efeitos mais perniciosos do medo social.


Manter, como acontece em Lisboa, parques infantis vedados e fechados, ou vedar com fitas todas as mesas e cadeiras do Jardim da Parada, onde habitualmente se juntam velhotes a jogar, tem um efeito absolutamente marginal na protecção dos grupos de risco - pensar que os amigos deixam de se juntar porque alguém põe umas fitas de plástico no sítio habitual é desconhecer por completo a natureza humana - e tem um efeito devastador na confiança das pessoas, por exemplo, para a abertura das escolas.


Já seria tempo de pôr a discussão onde deveria estar: o que podemos fazer para ajudar a normalizar a vida das pessoas, ao mesmo tempo que protegemos os grupos de risco?


A alternativa que continua a ser defendida por vários profissionais de saúde, e que consiste em caçar gambuzinos, para além de irracional, é uma alternativa que mata, como sugerem os dados da mortalidade do mês de Julho, mesmo descontando o que resulta de termos tido bastantes dias de calor seguidos.

2 comentários:

  1. promovem a venda de ansiolíticos nesta
    'sociedade à deriva', como dizia Castoríades.
    dirigidos por  lixo humano

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  2. Se os meios de merda social, o presidente da farsa república, os [des]governantes e os deputados começarem a fazer relatórios diários apenas e só das mortes por doenças do foro respiratórios a MAIORIA DA MANADA DE BOÇAIS TUGA suicida-se colectivamente no santuário de Fátima!
    Apreciem a REALIDADE...


    https://i.postimg.cc/TP8bMKPM/Pneumonia-2020.png


    (mais do dobro!)

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Gente desonesta

Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...