sexta-feira, 17 de julho de 2020

Não é uma opção médica, é uma opção estúpida

Desta vez resolvi juntar moral aos bonecos e citações.


daily-covid-cases-deaths log.jpg


Começo então por um dos gráficos que já usei por estes dias, mas desta vez numa escala logarítmica para responder aos que acharam que eu publicar um gráfico nos exactos termos em que a OMS usa o número de casos para repetir incessantemente que a epidemia está a piorar, e o pior está para vir, era muito pouco razoável dado o esmagamento da linha das mortes diárias provocadas pela diferença de dimensão dos números de casos e mortes.


Aqui fica então o mesmo gráfico em escala logarítmica, muito menos intuitiva, mas que caracteriza melhor as tendências e é evidente a tendência de crescimento dos casos - embora não da forma como o secretário geral da OMS insiste em a caracterizar - e a tendência de estabilidade da mortalidade, que se inicia ali pela famosa semana 19 (só tem interesse para descrever surtos pulmonares da europa temperada, mas enfim, não quis perder a oportunidade de chamar a atenção para o que se segue).


Segue-se o gráfico da mortalidade europeia do Euromomo.


euromomo.jpg


Confesso que sempre que alguém me diz que não está provada a sazonalidade da covid, porque continuamos todos suspensos dela em pleno Verão - com menos de dez mortos diários associados à doença, mais ou menos 300 testes positivos dos quais a maior parte nem sequer corresponde a pessoas doentes e níveis de internamento e cuidados intensivos sem o menor sinal de estarem a pressionar os serviços de saúde, pelo menos mais que as regras que inventámos para gerir esta doença - eu mostro este gráfico, embora já saiba a resposta: isso é porque adoptámos medidas para controlar a epidemia.


Ninguém consegue estabelecer qualquer relação entre medidas concretas e evolução da epidemia, ninguém consegue estabelecer qualquer relação entre a adopção de medidas e a intensidade de ataque - alguém sabe responder por que razão nova York foi o que foi e Chicago foi o que foi? -, ninguém pode negar, de boa fé, uma variação geográfica ao longo do tempo que parece mais comandada por razões externas que pela adopção ou não de medidas - que coincidência o crescimento de casos nos EUA serem todos nos Estados do Sul neste momento, independentemente das enormes diferenças de gestão entre eles e das enormes similitudes de medidas com outros Estados de outras latitudes mas em que o número de casos não cresce da mesma maneira.


Respondem-me que nada está provado, de maneira que o melhor é ficarmos todos em casa à espera que tudo se resolva, mesmo que não façamos ideia de como e quando se vai resolver.


mortalidade diária.jpg


Mas para ficar em casa, todos separados, sem nos visitarmos, sem nos relacionarmos, sem nos vermos, tocar uns nos outros, isto é, sem nos cuidarmos mutuamente, convém olhar para o gráfico da mortalidade diária em Portugal.


2020 é aquela linha preta e começa a meio de Maio para lembrar que aquela subida da mortalidade no fim de Maio, qualquer coisa como 30 a 40 mortes diárias acima da linha base para aquela altura, foi atribuída, pela Direcção Geral de Saúde, ao tempo quente da semana final de Maio.


E o gráfico também permite ver as ondas de calor sérias de 2013 (a roxo, mais de 200 mortes acima da linha base num só dia, mas se considerarmos os seis ou sete dias à volta de 8 de Julho, facilmente estamos a falar de mais de setecentas mortes a mais, numa semana) e de 2018 (a verde, com números semelhantes), a par com o que podemos ver neste momento: mais de 100 mortes a mais no dia 14 de Julho, e 30 a 40 mortes diárias a mais desde esse dia, ou seja, facilmente acima de 200 mortes nesta meia dúzia de dias em que continuamos a olhar para o drama das menos de 20 mortes associadas à covid, no mesmo período.


Note-se que por causa destas vinte mortes, há um conjunto de regras sobre circulação de ar, incluindo ventoínhas, janelas e ar condicionado, e um conjunto de regras sobre a permanência em salas de espera que faz as pessoas esperarem na rua ao sol, tudo factores que têm um grande potencial para ampliar os problemas que estão na base das mais de 200 mortes por causa do calor e da desidratação.


E se fiz este post foi porque fiquei verdadeiramente furioso com o papel que os jornais e afins continuam a desempenhar, bem ilustrado por uma peça no Público de ontem, de Maria João Lopes, com o título "Mascaras aos seis anos no recreio e salas ventiladas entre as propostas dos especialistas".


Nesta peça surrealista, especialistas em qualquer coisa resolvem discutir os enormes riscos da abertura do ano escolar, sem que a jornalista lhes pergunte onde raio foram buscar a evidência empírica de que as escolas desempenhem um papel relevante na expansão da epidemia, em termos extraordinários "A grande medida deve ser a utilização de máscaras, na sala de aula e no recreio. É fundamental ensinar as crianças a usar máscaras, como usar e para que se usa. E é fundamental haver um regulamento a dizer que é obrigatório, ou enquadrado numa lei."


Ou seja, parte da comunidade médica portuguesa, que tem dos piores índices de infecções hospitalares porque não consegue que nos hospitais se cumpram procedimentos rigorosos de controlo das infecções - a demonstração de que é esta a razão é que as infecções hospitalares caíram a pique com os procedimentos adoptados para evitar a covid, em especial a lavagem e desinfecção das mãos - quer pôr a polícia atrás de crianças a partir dos seis anos (admitem que para idades menores é mesmo difícil, já é um progresso) para as obrigar a usar máscaras ao ar livre por causa de uma doença que não as afecta, que em lado nenhum aparece como estando associada à frequência das escolas e em que a principal origem de infecção é a coabitação prolongada.


"Se a decisão de abrir as escolas fosse apenas médica, diz (nem cito os nomes de quem diz estas barbaridades, francamente não quero envergonhar pessoas que estou convencido de que se entusiasmam a dizer coisas e nem reparam no que dizem), enquanto não se provasse que as crianças não transmitem a doença, não se abria a rede escolar".


Importa-se de repetir depois de pensar dez segundos no que está a dizer?


Há algum tempo na história em que a decisão médica sobre o que quer que seja vá no sentido de ninguém se mexer antes de se demonstrar que as acções possíveis são absolutamente seguras e conseguimos atingir o risco zero?


Quer medicamente, quer do ponto de vista global da sociedade, o que refere não é uma decisão médica, é uma decisão estúpida, profundamente estúpida.

17 comentários:

  1. Em Israel decidiram reabrir as escolas, e estão agora com um crescimento do número de novos casos tal que vão fechar o país outra vez.

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  2. As escolas reabriram a 3 de Maio, dois meses depois aumentam os casos (coincidindo com o aumento na mesma latitude em muitos sítios) e é essa abertura a 3 de Maio que provoca os aumentos de casos dois meses depois numa doença em que os sintomas se manifestam numa semana.
    Faz sentido

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  3. 1) Se atribuem a abrir as escolas o aumento de casos, porque é que vão fechar o país ?
    2) Só abriram as escolas ou abriram mais coisas?
    3) O número de casos aumentou. E o número de doentes, de internados e de mortes também aumentaram?

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  4. 1) Eu não digo que tenham atribuído o aumento do número de casos à abertura das escolas. Eu é que questiono se essa não será uma explicação para o aumento.
    2) Abriram muito mais coisas, de facto.
    3) Não sei.

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  5. uma variação geográfica ao longo do tempo que parece mais comandada por razões externas que pela adopção ou não de medidas

    Como o Henrique P. dos S. deve saber, os estudos psicológicos mostram que o cérebro humano tem uma grande atração por histórias que façam sentido, que tenham uma lógica, um fio condutor e explicações. O cérebro humano detesta factos isolados, inexplicados, incoerentes. Logo, procurar dizer a uma pessoa que a epidemia consiste numa série de focos geograficamente dispersos de forma incoerente, acendendo e apagando-se aqui e ali ao longo do tempo sem explicação possível para o seu surgimento e desaparecimento, é algo que não convence ninguém.

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  6.  O risco zero não existe. A verdade é que viver mata.


    O número de mortes é residual e está perfeitamente controlado e os casos graves também. O número de contágios é irrelevante neste contexto.


    A obrigatoriedade de máscara em Lisboa que se anda a discutir é outra estupidez. Não se consegue respirar devidamente com a máscara. Com o calor as coisas pioram.

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  7. Eu penso que a solução da pandemia está nas máscaras. 
    Agora há máscaras para todos os gostos; às cores, com logótipos, com bonecos, a fazer pandã, até para enfeitar as ruas. Temos que as usar sempre, e em todo o lado.
    E só quando o número de máscaras for superior ao número de vírus é que podemos dizer que a pandemia das máscaras venceu a pandemia do vírus. 

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  8. Como o Henrique P. dos Santos deve saber (qualquer psicólogo lhe ensinará), as pessoas anseiam por ter controle sobre a sua própria vida e fazem tudo para ter tal controle, nem que esse controle seja pura e simplesmente ilusório. (É por isso que em alguns semáforos há botões para os peões mudarem o semáforo para verde; os botões até podem não funcionar, mas o peão tam a agradável ilusão de que pode fazer algo para controlar a sua vida, especificamente para fazer com que o semáforo mude. É também por isso que a Carris instala nas paragens de autocarro painéis a dizer quanto tempo demora o próximo autocarro a chegar; esses painéis não ajudam o autocarro a desembaraçar-se do tráfego mais depressa, porém dão a quem aguarda a ilusão de ter a situação sob controle.) Como tal, perante a epidemia o governo tem que dar à população a ilusão de que todos podem fazer algo para controlar a situação, e as pessoas ficarão satisfeitas se julgarem que, por fazerem certas coisas, a epidemia parará ou, pelo menos, não as atingirá.

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  9. Graças a Deus ainda temos pessoas como o Henrique que se dão ao trabalho de pensarem e analisarem informação e que vão tentando dizer o embuste em que estamos metidos!
    Tudo em casa, sem vírus, e provavelmente dentro em breve a comer pedras...

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  10. exacto , mas fazer as pessoas perceberem isso?  é quase impossível , estão de cérebro completamente  sujo pelos merdia  -:)

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  11. Fechar os putos em casa, obrigar a malta a andar de máscara na rua e outras ilustres ideias só vêm provar que o vírus ataca gravemente o cérebro dos peritos. 
    Será que uma borrifadela na cabeça com um bom herbicida resolveria o problema?

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  12. Exacto, muito bem. O Prigogine não diria melhor!

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  13. O senhor e médico ou especialista na área? E que fala fala mas não lhe conheço nenhuma competência para isso.

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  14. Amiga.... va para as berlengas. Ha la muito espaço para pessoal como voces

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  15. deves ser ca uma perita....

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  16. Caro Luis Lavoura, terei de o corrigir: é o Governo que as controla!

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  17. Na Holanda as escolas já abriram há mais de um mês, as lojas e restaurantes funcionam na normalidade e os casos novos de infecção e o número de mortes diárias continuam baixíssimos. 
    A pandemia do medo está a matar mais e isto é muito grave. 

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