sexta-feira, 5 de junho de 2020

Uma sociedade mediocrocrática

Hoje é o dia mundial do ambiente, e eu geralmente nem ligo muito a estas datas mais ou menos simbólicas.


Aliás, sempre achei que era bem melhor que o movimento ambientalista aproveitasse o enraizamento social da quinta-feira da espiga para levar gente ao campo que os dias mundiais do ambiente e afins.


Iria por isso passar sem fazer qualquer referência ao assunto, quando vejo vários jornais a dedicarem qualquer coisa ao assunto.


Também teria passado com ligeireza sobre isso, não se desse o caso de ver várias peças com a mesma base: em vez dos jornais escolherem qualquer facto a cujas ligações com as questões ambientais quisessem dar relevo, escolhem fazer uma ronda pelas mesmas associações de sempre, falando com os mesmos responsáveis de sempre, para concluírem coisas gerais sobre o assunto.


Mas ainda assim, não seria suficiente para dedicar tempo ao assunto, se numa dessas peças não visse isto escrito: "Como a biodiversidade é o tema escolhido, este ano, para assinalar o 5 de Junho, comecemos por aí. O número que a Zero diz que é urgente mudar a este nível é o 456. É essa a quantidade de espécies ameaçadas em Portugal, entre animais e plantas. ... é urgente fazer um trabalho similar (ao que foi feito com o lince) com as restantes espécies, com destaque para "o lobo-ibérico ou algumas aves necrófagas", alerta."


E é isto: uma ONG não faz ideia sobre o que deve dizer em matéria de prioridades de conservação da biodiversidade e escolhe umas espécies bandeira, como o lobo e umas aves necrófagas, por sinal, espécies em expansão e aumento de populações e jornalistas que acharam que fizeram o seu trabalho só porque ouviram, sem qualquer sentido crítico, umas ONG.


Devo dizer que até conheço a jornalista por uma vez ter apresentado um livro seu e a acho muito simpática, tenho ideia de que faz bom jornalismo, mas a biodiversidade não é a sua área de trabalho e não saberá que o lobo está em expansão, pelo que ao ouvir estas declarações não tem base para perguntar por que razão se escolhe falar de espécies em expansão a propósito de espécies ameaçadas.


E a ONG, como não é questionada quando diz o que passa pela cabeça da pessoa que falou naquele dia com a jornalista, também não sente necessidade de estudar um bocadinho os assuntos sobre que se debruça e, com bastante razão, conclui que para quem é, bacalhau basta.


Somos mesmo pouco exigentes, não é uma questão de sermos pouco exigentes com os políticos, somos mesmo pouco exigentes connosco e com os que andam à nossa volta.


E este é apenas um exemplo sem importância, muito mais grave, por exemplo, é um programa que lida com milhões de investimento ter como principal indicador de resultado - note-se bem, não é indicador de execução, é indicador de resultado - a percentagem da despesa executada.


E é assim há anos, ministros vão e vêm, secretários de estado vão e vêm, directores-gerais vão e vêm, técnicos vão e vêm, jornalistas que cobrem essa área de governação vão e vêm e nós, como sociedade, achamos normal e adequado medir o resultado de um investimento em função da percentagem da despesa executada face ao previsto.


Não há dúvida, para quem somos, bacalhau basta.

5 comentários:

  1. Que o lobo esteja em expansão, acredito sem dificuldade.
    Já que as aves necrófagas estejam em expansão é que me custa mais a acreditar. Que bases tem o Henrique para o afirmar? Se elas estão em expansão, isso é presumivelmente porque têm mais alimento, e eu questiono, de onde lhes vem o alimento?

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  2. ambientalistas de merda ainda vão ter de envenenar os 6,5 milhões de animais de estimação
    como fizeram às gaivotas

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  3. Espiga – O pão que mata a fome e nos faz Livres;
    Malmequer – O ouro e a prata, o dinheiro, que tantas vezes nos encandeiam;
    Papoila – O Amor que é Vida e nos faz ser Gente entre Gente, com Gente;
    Oliveira – A Luz que anuncia o dia. Uma boa notícia de Esperança;
    Videira – O vinho da Alegria e da Festa;
    Alecrim – A Saúde, a Sabedoria, a Fortaleza do Espírito.



    Lembrando G. Carlin, se a espécie humana (EH) ainda não sabe tratar de si, nem os seus membros entre si, por que raio se anda a preocupar com o planeta?
    Há muito tonto à solta...
    EH — 200.000 anos. Terra — 4.500.000.000 anos

    Calcula-se que, na Terra, todos os dias desaparecem (extinguem-se) uma 10 espécies.
    Calcula-se que uns 98% de todas as espécies que viveram na Terra, estão extintas.


    Abraço

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  4. Eu tenho a impressão que o pessoal da Zero é sobretudo engenheiros do ambiente, ou seja, o ambiente deles não é propriamente o espaço rural nem a conservação da natureza. Por isso, não me admira que uma pessoa da Zero, questionada sobre o assunto, responda com genéricos como os lobos e as aves necrófagas. Pura e simplesmente, ela não está a falar de coisas que sabe.

    Não quero com isto dizer mal da Zero, estou apenas a apontar que a especialidade dela não me parece ser a conservação da natureza.

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  5. HPS.
    Parabéns por este seu pequeno apontamento. Compreendo a sua tristeza e o desabafo quanto a uma realidade crua no que diz respeito à falta de espírito crítico entre nós.
    Mas isto é o que é. Nós somos o que somos. Aqui, provavelmente há séculos. E não há remédio para a genética das populações.
    JMC.

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