sexta-feira, 17 de abril de 2020

A Suécia e o Imperial College

No essencial, para a gestão política da epidemia é quase irrelevante a base científica com que se está a trabalhar, o que verdadeiramente conta é a gestão do medo que decorre da percepção pública.


Calculo - não sei porque nunca estive nessa situação - que seja difícilimo tomar decisões que afectam profundamente terceiros paralisados pelo medo, num contexto de incerteza muito grande.


Li algures que quando saiu um livro que se chamava "Cem cientistas contra Einstein" o próprio terá respondido: "Cem? Se eu estiver errado, basta um" e cito esta história só para lembrar que o argumento da maioria de opiniões é um argumento politicamente central, mas cientificamente absurdo.


Por isso vou tentando perceber a forma como os diferentes políticos vão gerindo o medo (manhosamente, como Merkel, que diz uma coisa e faz outra, cedendo completamente à sua opinião pública, como Johnson - Costa está no meio, entre as duas coisas -, sacudindo responsabilidades, como o primeiro ministro sueco que tem a vantagem de poder dizer que não é ele que toma as decisões ou enfrentando o medo de caras, como Marke Rutte), mas tenho-me ficado pela discussão do que fazem os promotores do medo, porque é nos promotores do medo que está o problema.


Dentre os maiores promotores do medo está a equipa do Imperial College que desenhou uns modelos muito influentes com previsões catastróficas, por exemplo, meio milhão de mortos no Reino Unido e 2,2 milhões nos EUA (aplicando os mesmos critérios, 400 mil em Itália).


Face à evidente discrepâncea entre a realidade e estas previsões, o principal responsável por estes modelos argumentou que com as medidas tomadas no Reino Unido, afinal o meio milhão de mortos seriam apenas 20 mil. (correcção: esta previsão de 20 mil mortos consta de um quadro do relatório inicial)


Resumindo, as medidas provocam uma redução na mortalidade de 25 para 1.


Esta tem sido a argumentação usada genericamente para dizer que se não houve catástrofe nenhuma, isso é apenas porque foram tomadas medidas.


eua.jpg


Por exemplo, o gráfico acima, que mostra claramente que até à semana 14 (a que acabou em 4 de Abril) o número de mortes atribuíveis à covid está abaixo de vários picos de gripe (subirá, com certeza, na semana quinze, para começar a descer na semana 16, aproximando-se ou ultrapassando ligeiramente o pico de 2017-2018), é explicado pela gestão da crise nos EUA (normalmente acrescenta-se, apesar de Trump, depois de muitas vezes se ter dito que Trump iria provocar um desastre sem memória com as suas opções de gestão da crise).


Tal como tem sido repetido, até à exaustão, que as opções da Suécia na gestão da crise provocaram o dobro dos mortos dos seus vizinhos nórdicos, sem atender a dois aspectos relevantes para interpretar os dados (esquecendo o pequeno pormenor da Dinamarca também ter o dobro de mortos da Noruega, em mortes por milhão de habitantes).


O primeiro é geográfico: a covid, tal como a gripe, não tem padrões geográficos homogéneos de incidência. Tem variações geográficas muito acentuadas, ainda não sabemos por que razões, como se vê na figura abaixo, para Espanha, em que seguramente não são as medidas tomadas, que são homogéneas, a explicar as diferenças geográficas de incidência (olhando para o mapa percebe-se o ridículo de pretender que a incidência da epidemia em Portugal foi determinada por medidas políticas e não pelo vírus).


espanha.jpg


O segundo aspecto relevante é o que liga os modelos catastrofistas aos dados da Suécia: o que esse modelos prevêem é um rácio de 25 mortos sem medidas para um morto com medidas, ou seja, ao contrário do que tem sido abundantemente repetido, o facto da Suécia ter o dobro de mortos dos seus vizinhos escandinavos não demonstra o erro de não se tomar medidas, o que demonstra (ou melhor, indicia, demonstrar, demonstrar, temos de esperar pelos dados dos testes serológicos) é precisamente o contrário.


De acordo com os modelos com base nos quais se deu livre curso ao medo e suporte aos governos para demonstrar firmeza na gestão da epidemia, a Suécia deveria estar a ter um número de casos e mortos cerca de 25 vezes acima dos que tomaram medidas mais drásticas.


Vá lá, admitamos que mesmo não tomando medidas mais drásticas, a Suécia tomou algumas medidas, esqueçamos que o pressuposto dos modelos é que é preciso tomar medidas radicais e o mais cedo possível, e aceitemos que as medidas suaves tomadas pela Suécia tiveram algum efeito relevante na evolução da epidemia, cortando para metade o efeito da epidemia, ainda assim deveria estar a ter casos e mortalidade pelos menos dez vezes acima dos outros.


Mas não, não está.


Temos duas hipóteses de conclusão: ou os modelos estão errados, ou a realidade anda enganada.

20 comentários:

  1. feliz-mente temos o milagre dos Rosa ou ratos vorazes.
    até Karl Gauss foi dar uma curva

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  2. Dentre os maiores promotores do medo está a equipa do Imperial College

    O Henrique acha?

    A mim parece-me que o povo em geral ligará pouco a umas previsões de um grupo de cientistas. A maior parte do povo, aliás, nem conhecerá tais previsões. (Eu, por exemplo, que não sou uma pessoa mal informada, nunca tinha ouvido referir essa equipa do Imperial College nem as previsões que ela fez.)

    O Henrique diz ou sugere que os políticos somente gerem o medo, do qual não são os promotores. Eu diria que os políticos estão entre os grandes promotores do medo. O medo é proporcional à atuação dos políticos. Por exemplo, os suecos divertem-se sem medo em bares e restaurantes, precisamente porque os políticos suecos lhes dizem que não é preciso ter medo. Idem, os holandeses não têm medo porque os políticos deles enfrentam o medo.

    Eu diria que muitos políticos instilam o medo nas suas populações porque estão interessados em aproveitar o estado de crise. Alguns estão interessados na crise para promover uma maior intervenção dos Estados nas economias, ontros estão interessados nela para tomarem medidas repressivas sobre a população, outros para se autopromoverem eleitoralmente, outros para incentivarem a adoção de novos estilos de vida como o teletrabalho. (Eu sei que isto são tudo teorias da conspiração, mas avento-as mesmo assim.)

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  3. De que valem os jogos de palavras sobre modelos matemáticos quando se vê in loco que não estamos num surto normal de gripe? Vejam esta reportagem do New York Times:
    https://www.nytimes.com/2020/04/14/magazine/coronavirus-er-doctor-diary-new-york-city.html?campaign_id=52&emc=edit_ma_20200417&instance_id=17713&nl=the-new-york-times-magazine&regi_id=33168120&segment_id=25373&te=1&user_id=36810663323316fe17749768e09c9e4a

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  4. Uma pergunta se souber responder.
    Não ouvi ou li qualquer referência aos números da Grécia.
    Têm as dificuldades económicas e e calhar de saúde como nós, estão muito dependentes do turismo e nºao têm nem de longe nem de perto os números da Europa. Porquê?
    E uma outra, esta indirectamente relacionada com o C19.
    Como vai ser este ano a época de fogos, sem qualquer limpeza?

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  5. Teria também sido mais correcto actualizar esse gráfico. Só nos últimos DOIS DIAS morreram 7030, quase tantas pessoas quantas as que morreram na SEMANA de gripe mais mortífera dos últimos anos. Tendo em conta que isto acontece com o país parado, é extraordinário que o Henrique continue a sua série de posts. 

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  6. Suponho que está a falar dos EUA.
    Sugiro que leia a informação sobre a reclassificação das causas de mortalidade que fez reportar no dia 14 de Abril todos os mortos desde 11 de Março que antes estavam noutra categoria, o que faz com que nesse dia os EUA reportem mais de seis mil mortos.

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  7. O facto de apresentar as curvas e ver como a recta (há-de ser uma curva) do covid entra bruscamente (parece um impulso Dirac) devia fazer soar uma campaínha... mas quando se constrói um relatório construindo a argumentação a partir da conclusão escolhida não dá efectivamente para mais. Mudando de assunto, continuamos sem acesso aos dados dos recuperados: idade pelo menos. Abraços a todos e saúde.

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  8. 1) Não sei, ninguém sabe e não faz sentido fazer comparações de países sem saber quais os factores que condicionam a actividade viral e o seu impacto diferenciado;
    2) Igual às outras: será o que a meteorologia ditar.

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  9. Supõe? Bem, se o seu gráfico é sobre os EUA, queria que eu falasse de outro país? 


    Sugiro que aprenda a contar ou que releia o que lê porque a sua precipitação começa a ser cómica. Eu disse nos "últimos dois dias", ou seja, 15 e 16 de Aril, precisamente para evitar o dia 14 de Abril. 


    Não acerta uma. O seu estado de negação é um verdadeiro caso de estudo. 


    E sobre a Espanha e a Suécia, Henrique, já pescou os dados da gripe? Vai mostrá-los? 

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  10. se calhar? não sei, a geografia ajuda? não?

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  11. https://internewscast.com/coronavirus-us-death-toll-hits-33524-as-2524-die-in-a-day/


    16/4 4491
    https://www.publico.pt/2020/04/17/sociedade/noticia/eua-quatro-mil-mortes-24-horas-wuhan-reve-alta-numeros-pandemia-1912687



    É verdade que o número de 16/4 também traduz uns acrescentos que correspondem a outros dias (pensei que essa correcção tinha sido feita só a 14/4). Ponto para si. No essencial, não muda nada. Nos últimos TRÊS DIAS, morreram quase tantas pessoas de COVID nos EUA do que na SEMANA de gripe mais mortífera. Esta simples comparação, sobretudo tenho em conta o esforço de isolamento social sem precedentes, prova quea equiparação da COVID-19 a uma mera gripe não faz qualquer sentido. A única forma de escapar a esta conclusão é desprezar o impacto do confinamento social, mas fica com o problema de explicar as curvas. E como a imunidade na população está abaixo dos 10% (na Holanda será 3%, já com base em dados e não estimativas), o potencial de letalidade da COVID-19 permanece altíssimo. No caso da gripe já teria desaparecido. 


    E os números de Espanha e da Suécia, já os tem?

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  12. E facto dos vizinhos terrestres (também) não apresentarem (muito) maus resultados... não?

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  13. Outros para ver se conseguem que outros paguem o inevitável colapso das suas economias, mesmo sem Covid-19, considerado o seu raquítico crescimento, colossal dívida público, insustentável despesa estrutural, absoluta dependência de ciclos económicos favoráveis e actividades voláteis (como o turismo) e repúdio de qualquer política reformista (só uma achega para as suas 

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  14. Ainda a propósito do gráfico que apresenta, devemos concluir que em 2016/17 houve mais de 3000 x 52 mortes por gripe? É uma pergunta genuína, porque segundo a mesma fonte e para o mesmo período as mortes devidas à gripe variaram entre 12 mil e 61 mil. Da leitura do gráfico e do seu texto parece que morreram mais de 150 000 pessoas em 2016/17 e nem sequer foi o pior ano. Tem alguma boa razão para agrupar a gripe e a pneumonia numa comparação com outra doença e não referir no texto que os picos não são de gripe mas de gripe e pneumonia? 

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  15. Penso que aqui encontra explicações suficientes
    https://www.cdc.gov/flu/weekly/overview.htm
    Se quiser uma coisa mais recente, que faz uma estimativa de infecções com covid, e que também tem informação sobre como essa informação é tratada, pode ler isto (são apenas inferências a tentar tirar dos dados o que eles ainda não podem dar de forma directa, enquanto não há testes serológicos).

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  16. É evidente que não pode somar as mortes por pneunomia às mortes da gripe e continuar a falar em picos de gripe, sobretudo quando a argumentação é quantitativa. A menos que o seu argumento agora seja o de que a COVID-19 não mata mais do que as outras doenças respiratórias combinadas. E não me afogue com links irrelevantes, nem traga mais confusão  Os números da gripe que referi são os do CDC. Manipule a informação como entender para continuar a ajustar a realidade às suas ideias. Os leitores tirarão as devidas conclusões. 


     Podemos fazer como nos discos pedidos? Pode escrever sobre a gripe em Espanha e na Suécia? E já agora, escreva sobre a imunidade de grupo na gripe e na COVID-19. É que o Henrique deixa as discussões a meio e não se percebe se é capaz de integrar as críticas e reconhecer os erros ou está mesmo convencido da sua infalibilidade. Eu reconheci logo que me enganei nos números de 16 de Abril. Não é difícil e é libertador.

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  17. Não conheço o Henrique, nem tenho nenhuma procuração para o defender, mas o que ele escreveu e os links que citou são todos baseados em informação científica.
    O senhor “Eremita”, para além de agressivo, dá a nítida sensação que perceber tanto disto como eu de lagar de azeite, e comenta papagueando o que ouve nas televisões.
    Carlos T

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  18. Acaba de demonstrar que é outro papagaio que nem consegue distinguir um assunto sem se certificar do cv de quem o profere.


    Para o caso nem imagina a figurinha estúpida que acaba de fazer. 
    E mais não digo porque também ninguém me passou procuração alguma.


    Bastava ir ao Google para se poupar ao riso.

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  19. Curiosamente, não tenho visto televisão, as minhas crianças monopolizam o aparelho. Se começasse a papaguear o que vou ouvindo da televisão, talvez só saísse a Guarda do Rei Leão. Mas se quiser discutir algum assunto, lance o tema para vermos se a sua "nítida sensação" desaparece ou sai reforçada. Não tenho é grande esperança, pois se acha que o HPS está a desenvolver um raciocínio baseado em informação científica não há mesmo base de entendimento possível. O HPS replica a informação de uns cientistas heterodoxos, embora com umas lacunas que não consegue preencher, e manipula os dados de uma forma grosseira, mas aqui toda a gente lhe bate palmas porque acham que é original e, como mostra uns gráficos, é científico. 

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...