quarta-feira, 1 de abril de 2020

A escolha pela liberdade não é fácil

Sabemos muito pouco sobre o que querem dizer os números da covid em cada país (como são registados, que parte da realidade traduzem, que relações de causa/ efeito existem que não sejam meras correlações estatísticas, etc.).


Por isso todas as comparações entre países, devem ser muito, muito, muito cautelosas.


A ideia de que são as medidas que estão a ser tomadas que estão a ter os efeitos diferenciados que se possam ver nos números é um salto no escuro: podem ser, ou podem não ser.


Existem bastante artigos científicos e de opinião que discutem esta questão, mas todos os que li que demonstram o efeito das medidas de contenção social (muito longe de serem todos os que existem, claro) assentam em correlações estatísticas cuja interpretação se baeia num raciocínio circular: as medidas são eficazes, todas as diferenças entre os modelos teóricos e os números reais se devem às medidas, logo, as medidas são eficazes.


O que parece certo é que a partir da manobra de propaganda da ditadura chinesa - derrotámos gloriosamente o vírus com a nossa acção firme e decidida -, com a conivência do silêncio da OMS (que deveria ter dito que essa é uma hipótese, embora pouco provável, e que o conhecimento de cem anos de epidemiologia permite admitir que a curva epidemiológica tenha seguido o seu curso natural, tendo sido o vírus a derrotar-se a si próprio, com mais ou menos influência das medidas na contenção dos seus efeitos sociais), as opiniões públicas ocidentais exigiram aos seus governos que actuassem como ditaduras para derrotar este inimigo, antes que o inimigo nos derrotasse a nós.


O resultado é que em todo o lado, o medo e a emoção, a matéria base de que se sustentam as ditaduras, se têm sobreposto à racionalidade na definição do problema e na adopção das medidas razoáveis em cada momento.


"É possível, porque tudo é possível" que não fosse possível ter sido outra a forma de lidar com o problema dada a pressão das opiniões públicas, mas que isso nos vai custar muito, muito caro, isso é garantido.


O impacto da epidemia talvez não seja muito diferente do que seria o impacto de um ano mau de gripe, em número de mortos, com ou sem medidas, isso não é garantido, mas é cada vez mais provável.


O que me perturba nisto é a facilidade e rapidez com que as opiniões públicas ocidentais aceitaram prescindir da sua liberdade - uma coisa é apoiar os governos nas campanhas de distanciamento social, aceitar recomendações para diminuir contactos sociais, promover activamente o isolamento social de grupos de risco, outra coisa é apoiar a adopção de uma política coerciva do Estado para obter os mesmos resultados - para exigir aos seus governos e aos seus jornais que actuassem com os instrumentos das ditaduras: condicionamento da opinião, silenciamento social da divergência, estado de sítio, etc..


Sendo real, imaginária ou, ainda mais perigoso, com um fundo de realidade empolada por uma imprensa acrítica e elites muito informadas mas pouco cultas, bastou uma ameaça externa ser sentida como suficientemente grande para que tenhamos ido a correr para os braços das lideranças fortes, das medidas musculadas e para a ostracização social da divergência.


Uma boa demonstração de que as democracias não são um dado adquirido e muito menos o estado natural das comunidades, bem pelo contrário, a democracia e a liberdade são contra-intuitivas e exigem um esforço permanente de racionalidade que as defenda.

18 comentários:

  1. https://zap.aeiou.pt/texto-seculo-xvi-eficacia-quarentena-316311 (https://zap.aeiou.pt/texto-seculo-xvi-eficacia-quarentena-316311)

    Este texto português do séc. XVI prova a eficácia da quarentena. Muito interessante.

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  2. Muito bem. Excelente post.

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  3. Convém não confundir a quarentena, no seu contexto original, que é o isolamento de uma comunidade inteira onde grassa uma epidemia, com a ideia peregrina que dentro da comunidade, isolando os indivíduos, se consegue conter uma epidemia.

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  4. Antonio Maria Lamas1 de abril de 2020 às 10:39


    Para ajudar a perceber a "pandemonia" da pandemia


    https://off-guardian.org/2020/03/30/covid19-yet-to-impact-europes-overall-mortality/?fbclid=IwAR3OTchuKLZcZiUu9I30erD8fZOogPP1sWw6Y_bMtVHwf_3kGc_quIcS7so (https://off-guardian.org/2020/03/30/covid19-yet-to-impact-europes-overall-mortality/?fbclid=IwAR3OTchuKLZcZiUu9I30erD8fZOogPP1sWw6Y_bMtVHwf_3kGc_quIcS7so)

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  5. Se as pessoas estiveram isoladas não são foco de contágio certo?

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  6. Sim, se todo o mundo se isolar completamente e ao mesmo tempo em todo o lado durante quinze dias, isso acontece

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  7. https://www.spectator.co.uk/article/how-to-understand-and-report-figures-for-covid-19-deaths-

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  8. quando começarem a ver também os seus empregos em perigo , suponho que não pensaram nisso quando deram início a mais uma escandaleira para venderam comunicação épatant , vão querer voltar atrás , mais será tarde .

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  9. Se é necessário, para já, conter e cortar este mal, o vírus da China, é verdade que, para se não cair noutra, convém conhecer a génese do deste mal, o vírus  da China.


    A OMS tem um líder completamente nas mãos da elite política da China. O líder da OMS apareceu repetidamente em público a louvar a conduta do governo chinês quanto a esta epidemia.

    Constatou-se depois que o governo da China esteve um (decisivo) mês a esconder a existência do vírus da China e a sua virulência por contágio, contra aregras da OMS.
    Aqui e acolá já se fala em promover processos judiciais ao governo da China "por assassinato" (killing)....
    Entretanto este anda atarefado numa muito discutível "acção psico-social".

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  10. Antonio Maria Lamas1 de abril de 2020 às 20:15

     Quanto mais testes fizerem, mais vai diminuindo a percentagem de mortos até chegarem à conclusão que é irrelevante e portanto levantam as restrições.
    Nesse dia vamos assistir à maior cambalhota mundial que há memória a ver tanta gente a tentar explicar como se chegou à miséria. 

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  11. Vasco Silveira,
    O senhor tem nível. Este seu último comentário é uma lição para infantes. E boa!
    ao

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  12. Brilhante post. Aliás como é normal.

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  13. Interpretou mal.  Mas pode crer que não chegarei ao ponto de afirmar que se trata de um "ligeiro" problema de iliteracia... uma vez comprovada a sua capacidade de ironizar... Contudo, lamento dizer-lhe, caro Sr., que foi um desperdício do seu tempo, posto que se enganou "rotundamente": também leio, também conheço bem  a História, também sei  que a Humanidade já sofreu a devastação de muitas outras pandemias de dimensões e consequências catastróficas. É como diz, não começaram hoje, pois "já cá andamos há um bocadinho mais de tempo", de facto. 


    Simplesmente referia-me literalmente a "nós", ao "nosso"  Tempo  colectivo. ESTA  é   "a"  nossa comum experiência  directa, nova e impreparada, que está a ser vivida neste exacto momento, conjuntamente no seu , meu, nosso tempo Presente conjugado por todos quase simultaneamente, porque no mesmo contexto histórico único e irrepetível . É  o    "aqui   e   agora"    da    SUA   e   da    MINHA   geração. Todos / na Totalidade / no Todo - ( Pan ).

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  14. Só mais uma acha para a fogueira


    https://youtu.be/9t8THBMluws (https://youtu.be/9t8THBMluws)

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  15. (Après chaque catastrophe, il y a un changement...)
    Reinos, fronteiras, Impérios, cidades se desfarão, "hélas!" em pó e nada... e diremos, como Stephen ZWeig, "o Mundo de Ontem". 

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  16. Nao concordo com a liberdade ser contra intuitiva. Penso ser inerente á totalidade
    das formas de vida

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