Esta semana foi apresentado o European Green Deal.
É uma definição de políticas ambientais interessantes, tem muita coisa útil, um bocado de metafísica a mais para meu gosto e, como é normal em documentos estratégicos, o que interessa é o que vier depois disto, ou seja, a forma como cada uma das frases bonitas e correctas da estratégia se transforma em coisas concretas.
Há, no entanto, um aspecto que não gostaria de deixar passar em branco.
"Para atingir o nível de ambição fixado pelo Pacto Ecológico Europeu, são necessários investimentos significativos. A Comissão estimou que a realização dos atuais objetivos em matéria de clima e energia para 2030 exigirá um investimento anual suplementar de 260 mil milhões de EUR, ou seja, cerca de 1,5 % do PIB de 2018. Este fluxo de investimento terá de ser sustentado ao longo do tempo. A magnitude do desafio de investimento exige a mobilização dos setores público e privado."
Este parágrafo (é relativamente fácil encontrar parágrafos destes nos documentos mais globais sobre políticas ambientais e de conservação) retrata bem a forma como os privados (isto é, nós todos) são encaixados neste tipo de estratégias: fala-se neles quando chega a altura de discutir quem paga a conta.
É razoavelmente normal que documentos destes, feitos por entidades públicas, se centrem no que é suposto que essas entidades públicas façam mas, e essa é a questão, o ponto de vista adoptado é, de maneira geral, o de ignorar o facto da vida ser das pessoas e não dessas entidades públicas.
É só quando as contas ao dinheiro necessário para executar as políticas definidas aparecem, que alguém se lembra de dizer que é uma pipa de massa e os Estados não têm recursos suficientes para comandar a vida das pessoas e a economia das sociedades.
Nessa altura, e não antes, na definição de políticas como deveria ser, é que alguém se lembra de dizer que a participação dos privados é fundamental.
É pena, porque provavelmente seria possível chegar a soluções muito melhores para todos se desde o primeiro minuto se compreendesse que sem as pessoas comuns, sem as empresas, sem a filantropia, sem a liberdade destes todos fazerem o que melhor lhes aprouver, as políticas públicas tendem a reflectir mais o que os burocratas (como eu) pensam sobre a realidade que a realidade propriamente dita.
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