"E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém"
José Afonso canta isto, no lindíssimo "Quanto é doce".
Uma psicóloga resolveu dizer mais ou menos isto, num tom normativo e sem a ponta da beleza do texto, da voz e da música de José Afonso: qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o que faz, pensa ou sente um filho, deve-se acolhê-lo como tal, sem que seja preciso considerar como bom o que faz.
O azar foi dizer isto a propósito de um tabu: há pessoas que não sentem a homossexualidade como natural. Tal como há outras que se incomodam com diferenças raciais, outras que acham que as diferenças de sexo (detesto a mania de chamar género ao sexo) determinam diferentes capacidades, outras que acham que nas terras onde vivem os que lá vivem devem ter mais direitos que os que chegam, etc..
O que me interessa fazer notar nesta história não é nada que diga respeito à psicóloga em causa (que se defenda do que disse e defenda o que pensa, não tenho nada com isso) mas sim o que diz respeito aos indignadíssimos que imediatamente a destrataram de besta para baixo e, sobretudo, apresentaram queixas na ordem dos psicólogos para que fossem tomadas medidas para pôr a pessoa em causa na ordem estabelecida: a homossexualidade é perfeitamente natural e quem pense ou sinta de forma diferente deve ser proibido de o manifestar, mesmo que em abstracto e não sob a forma de uma acção discriminatória contra alguém em concreto.
Das mais que justas guerras contra as discriminações várias que negam, a algumas pessoas, direitos iguais aos de toda a gente, independentemente das suas opções que não afectam directamente terceiros, passou-se para o dever de condenar ao ostracismo todos os que defendem essas discriminações no plano das ideias, ou simplesmente que têm sentimentos errados sobre o assunto, isto é, sem tomarem decisões que sejam a concretização prática de discriminações ilegítimas.
Do combate ideológico às ideias que achamos erradas ou estranhas no espaço público, quer-se passar para a ilegalização, tal como fazemos à proibição de defesa do nazismo, ao mesmo tempo que convivemos, sem dramas, com os estalinistas, a quem damos carta de alforria para defender Estaline.
É absolutamente legítimo considerar a psicóloga em causa como uma besta (se é ou não, eu não discuto neste post) por defender qualquer coisa que parece aberrante (o que também não discuto neste post), mas na verdade ser uma besta é um direito básico de todos.
O direito à asneira é um direito quase absoluto.
Procurar varrer para debaixo do tapete o facto da maior parte de nós ser, pelo menos numa coisa ou noutra, ignorante, preconceituoso, imbecil e todos termos, numa coisa ou noutra, sentimentos "errados", proibindo os sentimentos de terceiros como tão indignos que não podem ser expressos, é fazer uma auto-estrada para que um dia um populista qualquer tenha votações astronómicas, simplesmente normalizando o que deveria ser sempre normal:
admitir que não somos perfeitos e que os sentimentos errados não se gerem reprimindo-os com retórica e decretos mas com a tolerância de os trazer, sem dramas e indignações, para o espaço público.
Começando, naturalmente, por lembrar
"Quanto é doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe
Vai-se a tristeza o desgosto
Põe-se a um ponto na tormenta
Quando a mãe nos dá um beijo
Quando a mãe nos acalenta
E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém"
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ResponderEliminarDe facto não tenho a menor simpatia por corporações, nelas incluindo as ordens, que acho razoavelmente inúteis.
Mas admitindo que servem para alguma coisa, servem para avaliar a prática profissional, não para patrulhar o pensamento dos seus membros.
É uma estupidez falar de orientação sexual natural quando se fala de seres humanos. Existem pulsões sexuais que são organizadas pelo sujeito de acordo com muitas contingências e que podem resultar numa variedade de orientações, digamos assim, por vezes até na mesma pessoa. O que se pode dizer é que a heterossexualidade é a orientação mais comum mas meter a natureza é uma estupidez até porque depois ninguém sabe bem dizer o que é a natureza e como é que ela se mete nestas coisas.
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ResponderEliminarO post não é sobre isso, é sobre as pessoas que acham que pensar diferente delas é uma estupidez que deveria ser proibida
ResponderEliminarTem toda a razão, como é que se pode omitir a natureza absolutamente bárbara do regime britânico face à normalidade do regime soviético depois dos desvios estalinistas corrigidos no XX congresso do PCUS
ResponderEliminarMas o que quer dizer isso? Que temos que aceitar qualquer coisa como válida só porque há gente que o diz ou gosta de dizer. O seu raciocínio é do mesmo tipo daqueles que face a posições deduzidas de trabalho científico ou de pensamento sistemático julgam puder contrapor com opiniões feitas no momento ou de preconceitos que nunca foram submetidos aos rigores de um (trabalho científico) ou de outro (pensamento sistemático).
ResponderEliminarSe alguém fala em orientação sexual natural esse alguém fala em nome da natureza e eu, por mim, quero saber o que é a natureza e como é que alguém pode presumir falar por ela.
Se diz que houve uma normalização é a sua opinião. A mim não me vincula.
ResponderEliminarSe a opinião é válida ou não é irrelevante para o direito de alguém dizer o que quiser. Sim, e claro que se podem deduzir opiniões completamente infundadas, ou mesmo preconceitos, face ao conhecimento científico, nem percebo que haja dúvida sobre isso.
ResponderEliminarMas alguém impediu alguém de falar? Se alguém com responsabilidades públicas (que não começam e terminam em trabalhar para o Estado), como um médico ou um psicólogo dá um testemunho público controverso e que tenha impacto na sua profissão é natural que o público se interrogue se alguém com tal ideia está em condições de exercer a profissão. Que um pedreiro ou um engenheiro diga uma barbaridade sobre a subjectividade humana isso com certeza não implica questionar a sua habilidade profissional que um psicólogo o faça, aí já é outra música e podem ser pedidas explicações, nomeadamente sustentação científica ou conceptual, para tal posição.
ResponderEliminarPois, pois, as queixas à ordem são mesmo só para discutir o assunto, não visam impedir a pessoa de dizer o que entende no futuro. Está bem, abelha.
ResponderEliminarSe um advogado fizer declarações públicas contrárias ao Direito a meu ver também cabe uma queixa à ordem. A Ordem apreciará. Parece-me que você é mais uma reprodução da tendência de direita de desprezar a ciência e o pensamento sistemático, aquela tendência que por exemplo coloca lado a lado ciência e gajos quaisquer da blogosfera a discutir o aquecimento global. Vi muito isso no Insurgente.
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ResponderEliminarVeja lá que até estou bloqueado no Insurgente à conta de uns comentários sobre alterações climáticas. Por aí se vê que o seu paralelismo talvez seja um bocado coxo.
E acho que um advogado tem todo o direito a fazer declarações contra a lei (aliás, acontece amiúde, a própria ordem se insurge contra alguma legislação).
Acho lamentável que se queira fazer das ordens (já que não as querem extinguir, que era um bem que faziam) a patrulha do pensamento de terceiros.
Não é do pensamento de terceiros mas do pensamento que tem directamente a ver com o saber de uma profissão de cuja são a ordem. Eu acho normal que haja queixas. E depois a ordem não silencia ninguém, do que se trata é que a ordem se prenuncie sobre as ideias da psicóloga. Qual é o problema. Se a psicóloga dissesse por exemplo que apenas os prevertidos vão para padres eu acharia normal que houvesse queixas e pedidos de esclarecimento. Acharia normal que ela fosse chamada pela ordem a explicar que teses, que conceitos, que experiência serve de base a essa ideia. Você não?
ResponderEliminarNão, é exactamente isso. Aliás se a ordem dos médicos resolvesse actuar da mesma forma, teria de pôr na ordem todas as pessoas que defendem a homeopatia, o que provavelmente acharia mal, não é?
ResponderEliminarA ordem dos médicos não tem nada a ver com todas as pessoas que defendem a homeopatia apenas com os médicos que o fazem.
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