domingo, 2 de outubro de 2016

Soluções mágicas

Paulo Fernandes é das pessoas que em Portugal mais sabem de gestão do fogo, tem um doutoramento no assunto, tem dezenas de papers científicos, é um investigador proeminente do Laboratório de Fogos Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, é normalmente ouvido quando se discutem políticas florestais relacionadas com o fogo e, episodidamente, a imprensa pede-lhe comentários sobre o problema da gestão do fogo.


Mas, em termos práticos, ninguém liga nenhuma ao que diz - essencialmente duas coisas, espero não estar a atraiçoar o que pensa, que o fogo se gere com fogo e que é fundamental integrar prevenção e combate - sendo um quase desconhecido fora dos meios especializados.


Agora, durante uns dias, teve uma exposição mediática pouco habitual, como se pode ver nesta peça da televisão, porque fez um post com um fait divers mais que conhecido (o próprio Paulo já escreveu consistentemente sobre o assunto) e falou da "árvore bombeira" a propósito dos vidoeiros.


Ao que me parece, o interesse no que o Paulo disse (muito menos importante do que tem dito noutras circunstâncias) decorre de uma circunstância: gostamos de soluções mágicas e, na cabeça de quem não pensou muito no assunto, o problema dos fogos resolve-se espalhando árvores bombeiras em todo o lado.


É mais uma das ideias mágicas sobre fogos, a juntar ao rol dos aviões das forças armadas, de pôr os incendiários no meio do fogo, de diminuir o número de ignições, do ordenamento florestal, da limpeza das matas, da melhoria do dispositivo de combate e por aí fora.


Assim evitamos discutir se as condições de solo e clima permitem essa solução, se existem recursos para a plantar em larga escala, se o retorno económico é compatível com o custo de gestão, como se gerem essas plantações entre o momento em que são feitas e o momento em que a sua sombra controla o matos, como se pretende, etc., etc..


Se a dívida pesa, reestrutura-se, se os offshores dão problemas, extinguem-se, se é preciso dinheiro, vai-se buscar a quem o acumula, se falta dinheiro nos hospitais, reforça-se o orçamento, são tudo ideias mágicas que resolvem facilmente todos os problemas e que só não são postas em prática porque "eles" têm interesses e não querem alterar a situação.


Eu compreendo; entender o problema, seleccionar as soluções exequíveis, mobilizar os meios que as tornam possíveis, gerir eficazmente a inevitável escassez dos meios, falhar e refazer um bocadinho melhor e tudo o que é preciso para gerir um problema complexo de forma óptima não só dá uma trabalheira, como me responsabiliza a mim.


É muito melhor ter uma solução mágica que só os responsabiliza a "eles".

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