domingo, 30 de outubro de 2016

A emigração, a academia, os jornais e a demagogia

"Alguns dos nichos de actividade da sociedade portuguesa estão moribundos, o que fez com que houvesse outra vez uma emigração massiva de quadros qualificados. E aqui entramos na questão da confiança. São pessoas com uma massa crítica enorme. Isto é muito fácil de entender. Se temos 100 pessoas de alturas diferentes e eliminarmos os mais altos, a média baixa. Na massa crítica e no conhecimento técnico e académico, acontece exactamente a mesma coisa. Se os mais qualificados zarparem, os que ficam são pessoas com qualidade, mas a nossa média de capacidade técnica claramente vai baixar. E isso está a acontecer."


Isto dizia o então candidato do PS e actual Ministro da Educação. E, para a grande maioria das pessoas, é um dado adquirido que tem havido uma emigração de pessoas qualificadas que diminui a qualificação média da população portuguesa.


"Entre os portugueses emigrados em 2010/11 mais de metade (61%) continua a ter apenas o nível básico de escolaridade. Os portugueses com o ensino superior a procurar trabalho lá fora representaram 10% do total naquele período, quando dez anos antes representavam 6%. Considerando que a percentagem de diplomados na população portuguesa passou de cerca de 8% em 2001 para quase 14% em 2011, ou seja, aumentou cerca de 80%, o relatório sublinha que "a qualificação da população portuguesa mantém-se superior à da população emigrada, pelo menos à que reside em países da OCDE". Logo, "o aumento da qualificação daquela população emigrada é mais um resultado do aumento da qualificação portuguesa do que de uma maior incidência da emigração nos sectores qualificados". Uma constatação que não surpreende José Carlos Marques: "É verdade que os emigrantes altamente qualificados são hoje mais do que no passado, mas exagerou-se no destaque dado à emigração qualificada, porque a nossa emigração continua a ser marcada pela saída de pessoas pouco ou nada escolarizadas, o que se compreende porque um dos sectores que mais sofreu com a crise em Portugal foi a construção civil"."


E isto é o que dizem os relatórios do Observatório da Emigração, que não demonstra grandes simpatias pelo governo anterior.


Se é um facto que o aumento da qualificação dos que emigram é mais um resultado do aumento da qualificação da população de origem (na emigração o aumento de qualificação é menor que o aumento de qualificação na população de origem, no mesmo período de tempo), se esse facto está perfeitamente identificado nos estudos sobre o assunto, por que razão é tão fácil produzir tiradas demagógicas como a citada em primeiro lugar e se instalou a ideia de que as actuais correntes migratórias são maioritariamente constituídas por pessoas qualificadas e que Portugal está a perder qualificação por via da emigração?


É a combinação de dois velhos problemas do debate público em Portugal:


1) A academia produz informação científica em obscuros relatórios, mas demite-se de defender os factos que reporta quando no espaço público aparece um demagogo qualquer a vender uma banha da cobra que sirva as inclinações políticas da maioria da academia que intervém no espaço público;


2) Grande parte do jornalismo que deveria intermediar a passagem de informação dos produtores para os consumidores, demite-se de verificar os factos, seguindo o velho princípio de jamais deixar os factos influenciarem as ideias dos seus leitores, na medida em que isso servir as ideias certas, claro (basta ver a quantidade de vezes que resolvem verificar os factos contidos nas afirmações dos políticos de que gostam por contraste com o permanente escrutínio das afirmações dos políticos de que não gostam).


Portugal é, do ponto de vista da qualidade do debate público, o paraíso dos demagogos de esquerda (os outros têm mais trabalho, mas o ambiente também não lhes é desfavorável de todo).

20 comentários:

  1. O nosso jornalismo está ao nível dos Baldaias que pululam pelos vários órgãos de comunicação social. 

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  2. Este anónimo deve ser um dos que ficaram sem emprego com o fecho do Câmara Corporativa, o blogue dos fretes ao Sócrates, um ex-primeiro ministro a contas com a Justiça por ser muito "sério" nas suas contas.

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  3. E sobre o post, tem alguma coisa a dizer? Alguns argumentos racionais para ajudar à discussão?

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  4. Não consigo avaliar os dados estatisticos apresentados como corretos ou incorretos. Tenho a minha estatistica pessoal. O que eu sei é que, desde 2009, do meu grupo de amigos, cerca de uns 20, 12 sairam de Portugal, e sim são pessoas qualificadas , alguns com doutoramentos e não não trabalhavam nem em câmaras corporativos nem para o estado ,mas sim no setor privado, em bancos e outras empresas que foram dilapidadas por gestões danosas. E seriam pessoas que nao teriam saido do pais se tivessem oportunidades trabalho.   O que eu tenho a comentar a alguns dos comentários e ao post, podem olhar menos para as estatisticas e mais para o que nos rodeia, ainda que a vossa realidade, no vosso grupo de connhecidos , seja diferente. Porque se olharem em volta, percebem que sim está a acontecer, tem acontecido esta saida de pessoas qualificadas. E francamente, eu atá agora , ainda não consegui ver bem a parte positiva para o país. Porque para quem sai, em alguns dos casos , foi a melhor opção de vida que podiam ter tomado, e estes , não , não pensam em voltar.

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  5. Não tem?
    Tem as mesmas informações que o 1º post... Tal & qual.

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  6. Sabe qual é o seu problema? O senhor é sempre, sempre do contra - e de maneira tão dramática - que já ninguém liga ao que diz e ao que escreve!

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  7. Gosto sempre de ver um anónimo a justificar-se... Pensa que é levado a sério. Normalmente diz o que não é...

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  8. Não entendi muito bem: o seu critério é se pode ou não avaliar a qualidade das estatísticas de entidades que as recolhem ao mesmo tempo que defende que o uso de estatísticas é menos fiável que as suas impressões pessoais?

    Por exemplo, se no seu grupo de amigos não há um hindu, ou um crudivorista, devemos todos concluir que não existem em Portugal, é isso?

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  9. Posso sugerir que leia com mais atenção?
    O que quer dizer esta frase: "Se temos 100 pessoas de alturas diferentes e eliminarmos os mais altos, a média baixa." se não que são os mais qualificados que estão a sair e isso diminui a qualificação geral do país?
    O resto do comentário não o percebi, não entendi o que quer dizer ou a sua relação com o post.

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  10. Agradeço-lhe bastante a ilustração que faz do que eu digo no post: parte da academia produz uma informação nos obscuros papers que garantem as suas carreiras académicas, o que implica algum rigor, e depois faz afirmações politicamente orientadas no debate público que distorcem o que antes escreveram enquanto académicos.
    É por isso que, ao contrário do que diz, eu uso os dados do observatório, mas não ligo nenhuma às declarações políticas dos investigadores envolvidos na produção dos dados, prefiro ser eu a interpretar os dados, ser manipulado é uma coisa que me chateia.

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  11. Não entendo em que é que essas afirmações são relevantes para o post, excepto como ilustrações da forma como parte da academia aceita fazer o papel de contribuir para torturar os dados até que eles digam o que se pretende que digam.

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  12. E questões sobre o post, tem? É que discutir-me a mim não interessa a ninguém.

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  13. Isso quer dizer o quê? Errado. Considere a média de altura de um grupo de 80 pessoas com 1,30m e 20 pessoas com 1,80m. Retire o último grupo, a média baixa.
     

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  14. Exactamente. O que está errado é o facto de se considerar que foram retiradas as pessoas do último grupo.

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  15. Exatamente? A frase que citou não significa o que pensou, era isso que eu estava a dizer. Eu estou a pensar no seu raciocínio lógico, o caminho que levou para concluir que aquela frase significa que a maioria dos que saíram foram os mais qualificados. Vou explicar-lhe de outra maneira: num grupo de cem emigrantes, 80 são pouco qualificados e 20 são altamente qualificados. Reparou que a maioria  dos que saíram eram pouco qualificados? Exatamente. Mas isto também significa que baixou a média de qualificação geral do país. Percebeu agora? É a mesma coisa com as alturas, ou qualquer outra coisa.

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  16. Também não gosto de ser manipulado, é por isso que gosto de ver as coisas bem explicadinhas, até à exaustão, género pica miolos 😉 O Henrique acha que os do Observatório são meio esquizófrenicos: desonestos naquilo com que não concorda, honestos naquilo com que concorda. Vamos então continuar nós? Diz que não é verdade que tenha havido o que normalmente se designa "fuga de cérebros", uma expressão comum. Mas isso é dito pelas próprias universidades, centros de investigação, etc. O mesmo para algumas classes profissionais, de que lhei apenas o exemplo dos enfermeiros (há mais...) Quem diz isso é também desonesto e manipulador? Ou estão, pelo menos, na sua fase desonesta e manipuladora, que surge com a lua cheia?

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  17. Não vale a pena torcer o que está dito. O que está dito é que estando a sair os mais altos, a média baixa. E o que eu estou a dizer é que o que os dados dizem é que é verdade que hoje saem mais altos do que saíam antigamente, mas isso é porque há muitos mais altos nos que estão.
    Ou seja, não é porque saem mais altos que a média baixa, é porque a média subiu muito que há mais altos nos que saem.

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  18. Não são desonestos, são politicamente orientados.
    Sim, os outros também. É exactamente o que diz o post: esses todos dizem uma coisa que os dados não confirmam: se hoje saem mais cérebros que antigamente, é porque a percentagem de cérebros na população portuguesa aumentou, e aumentou mais que aumentou na emigração.

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  19. Claro, um diretor de um centro de investigação que se queixa de que está a ficar sem quadros de investigação é politicamente orientado. Já o Henrique não é politicamente orientado; apenas relata factos. 


    Mas eu acho que o Henrique ainda não entendeu. Vou tentar explicar de outra forma ainda. Se saírem dez por centro dos pedreiros com o nono ano de escolaridade e trinta por cento dos investigadores com doutoramento, a capacidade técnica média do pais baixa. 
    Fazer de conta que não entende uma coisa tão simples, que respeita a matemática básica, não o beneficia em nada, Henrique, antes pelo contrário. 

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  20. A percentagem de licenciados na população emigrante subiu de 6 para 10%.
    A percentagem de licenciados na população residente subiu de 8 para 14%.
    Ou seja, o aumento de qualificação na emigração não se traduziu numa diminuição da população residente.
    Parece-me que quem não está a querer entender não sou eu.

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