domingo, 8 de dezembro de 2013

Por caridade

O universo dos blogues recuperou um extraordinário texto do ordinário (no sentido não pejorativo do termo) Paulo Pedroso, antigo ministro da Solidariedade. O texto, velho de um ano na prática e de décadas na teoria, é um excelente exemplo dos argumentos por detrás do ódio ao Banco Alimentar (BA) em geral e à sua presidente, Isabel Jonet, em particular. (...)

Talvez seja altura de questionar o dr. Pedroso sobre se a energia que dedica e as perguntas que se faz já deram frutos e respostas. Aposto que não deram: pensar "estruturalmente" a pobreza é tarefa de uma vida e, à semelhança de matutar acerca do destino desta, não leva a lado nenhum. Ou leva a cargos em governos, universidades, fundações, observatórios e empresas "públicas" empenhadas em não suprir as necessidades de nenhum desgraçado até que se possa satisfazer todos os desgraçados da Terra em simultâneo. A "caridade" que tanto repugna o dr. Pedroso compõe a barriga de mil, dez mil ou cem mil famintos, mas isso de nada serve quando não se resolve os problemas que tornam a fome possível, ainda que o processo demore séculos. E se, no entretanto, o pessoal continua à míngua, trata-se de um pormenor que não afecta a cósmica generosidade do dr. Pedroso, corajosamente indiferente a casos individuais e apenas interessado no "conceito". Em tempos, os ricos tinham, e alimentavam, o "seu" pobrezinho. Gente como o dr. Pedroso chama a si os pobrezinhos em peso - desde que não precise de alimentar nenhum.

Não acredito na bondade "pura". Não me custa aceitar que Isabel Jonet também se mova por ambições íntimas, incluindo desejos de notoriedade ou outros. A questão é que, no processo, há pessoas que infelizmente precisam do trabalho da senhora e dele aproveitam. Em contrapartida, abro uma excepção para o dr. Pedroso e similares, que possivelmente são guiados pelas melhores intenções e pelo mais cristalino altruísmo sem que daí resulte qualquer benefício para alguém - excepto, vejam lá a ironia, os benfeitores. (...) 


Alberto Gonçalves no Diário de Notícias

4 comentários:

  1. A maravilha é que esses benfeitores nunca têm fome.Não precisam das sopas públicas,alimentam-se geralmente bem e mandam os famintos calar o estômago
    com revoltas.Está bem assim.

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  2. Pelos comentários parece que a Isabel Jonet passa fome.
    A caridade é necessária neste mundo. E isso está mal. Não a existência da caridade mas a necessidade dela.
    O que me faz confusão nisto tudo são as pessoas que acham que é um dever dar de comer a quem tem fome, mas acham que não ter fome não é um direito.
    Aquelas que acham que devemos alimentar as crianças famintas, mas defendem que a existência de crianças famintas faz parte de uma desejável seleção dos mais capazes.
    É difícil para mim conciliar a existência de ordenados de 200 € mensais em Portugal, o corte dos abonos de família o corte de apoios sociais, a defesa da abolição do ordenado mínimo, e outras tropelias do género com o apoio a famintos através de cantinas sociais.
    O que diriam os defensores da caridade se dentro do saco das mercearias estivesse um papel a dizer: "não há dinheiro - o que é que não percebe?".

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  3. Há um fosso que divide quem já alguma vez passou fome de quem nunca na vida teve essa traumática experiência.

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