Há quem afirme que Artur Baptista da Silva, académico impostor, cadastrado titulado, doutorado pela imaginativa Milton Wisconsin, investigador em economia social, ex-deputado constituinte, ex-secretário de Estado, consultor do Banco Mundial, funcionário da ONU, Artur Baptista da Silva, com p, sendo tudo isto e o resto mentira, é a grande figura do ano que termina. Pois se foi este um ano que não teve grandes figuras, um ano de figurões, de Baptistas da Silva que transitam para o ano seguinte, como não proclamar 2012 o ano de Artur Baptista da Silva? Nós passaremos, se passarmos, para 2013. Já Baptista da Silva ficará, se ficar, em 2012.
Mas é preciso, em abono da justiça, encontrar-lhe um lugar na História que não se resuma à fraude épica de que ele foi autor e principal vítima. Que dizer sobre Baptista da Silva agora que regressou ao seu posto de origem? Esta não foi uma fraude qualquer. E não foi por ter sido enganada a imprensa, que sim, também se deixou enganar. A "fraude" foi colectiva.
Durante escassas semanas, Baptista foi a emanação de um sonho. Tão bom que poucos viram que era só isso mesmo: um sonho. Um indivíduo delirante contagiava uma sociedade crédula, sem vontade para verificar os delírios. Estávamos sedentos de Baptistas, ávidos da boa nova. Este Baptista desembarcava vindo da ONU directamente num país deprimido. Ao menos parecia limpo e imaculado. Abriu ele portas, contactando jornalistas, padres, movimentos políticos, associações. Era o profeta que vinha aliviar o nosso sofrimento. Para uns, um técnico que debitava números ao serviço do bem; para outros, um Baptista "Robin Hood" que mentia aos ricos para acudir aos pobres; para outros ainda, uma espécie de Kruglitz, mescla de Krugman e Stiglitz, e com a ONU na lapela. Trazia estudos, logotipos, explicações e informação interna que não podíamos confirmar.
Recebido em todos os cenáculos, não demorou a chegar aos jornais e às televisões. É fácil perceber porquê. Vejam e revejam os vídeos mais recentes. Aquelas técnicas não se treinam em casa. O domínio perfeito da pausa, o modo como enfrenta a situação, a entoação em "Ainda bem que levanta esse problema, dr. Pires de Lima", o seguríssimo e repetido "nós, Nações Unidas".
Agora perdemos tudo. Nada de Baptistas, nada de ONU e dos seus miraculosos planos. Não existem estudos, economistas empolgados com o nosso destino ou Observatórios para a Europa do Sul. Até o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o famoso PNUD, visa afinal países em vias de desenvolvimento e não países em vias de subdesenvolvimento como nós. Estamos por isso sozinhos. Queríamos tanto a ONU contra a Merkel. Por breves instantes pudemos acreditar que sim. Onde está Baptista da Silva, o prémio Feelings Awards, agora que precisamos dele?
É verdadeiramente absurdo que SIC, TSF e Expresso pensem em processar Artur Baptista da Silva. Se o fizerem, não deveremos nós processar também a SIC, a TSF e o Expresso? Acima de tudo: não deveremos processar-nos a nós mesmos, ou os que não acreditaram contra os que acreditaram em Baptista da Silva? Que todos se processem uns aos outros! Em 2012, como escreveu o António Araújo, do extraordinário Malomil, Baptista da Silva foi "espelho de nós, síntese do colectivo pátrio." Se apareceu Baptista, foi porque ansiávamos por um Baptista. Um cometa. Um bárbaro. Um charlatão justo. E é como diz o filósofo, nós não temos vontade de verdade. A nossa vontade é de mentira. E esta mentira fugaz, mentira colectiva, chamou-se, por instantes, Artur Baptista da Silva.
Teoria Geral de Baptista da Silva - Pedro Lomba hoje no Público.
Não te rales. Não perdemos tudo.
ResponderEliminarAinda ficamos com o Passos, o Relvas, o Gaspar, o Lambreta e mais uns quantos.
Além de numerosos e sábios comentadores que sabem sempre explicar qualquer disparate ou qualquer aleivosia.
"contagiava uma sociedade crédula"
ResponderEliminar"Estávamos sedentos de Baptistas, ávidos da boa nova"
Tirem-me desses plurais! Vi esse Baptista uma vez, no Expresso da Meia Noite e perguntei-me "mas um funcionário da ONU falar de um modo tão hostil e malcriado da Chanceler da Alemanha?" Achei estranhíssimo e mudei de canal.
Que ninguém se tenha apercebido disso - quando tinham a obrigação profissional de o fazerem - , eis a medida da nossa simpleza de país atrasado que não deixámos de ser.
E ainda temos o falso rei das Pampas. Um consolo.
ResponderEliminarO pouco que conheço das Nações Unidas ainda dá para saber que um funcionário da dita, usasse a língua que usasse, nunca diria uma frase como "nós, nas Nações Unidas"... Vi logo que o senhor nada tinha a ver com essa venerável entidade.
ResponderEliminarAh, e esqueci-me do Paulinho que depois de ter comprado uns submarinos tem andado um bocado desaparecido.
ResponderEliminarÓ Pampas, agora começo a perceber porque é que não o deixaram entrar para as Nações Unidas.
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