sábado, 26 de março de 2011

O fulgor do silêncio

Até no silêncio há fulgor. 

Até no silêncio. Os padres do deserto tinham por hábito acolherem numa hospitalidade silenciosa, quando acolhiam um amigo que não viam há muitos anos, não lhe diziam nada. Explicavam: se o meu silêncio não te acolher, a minha palavra ainda menos. Isto para dizer que há novas ritualidades. As comunidades cristãs têm que ter fé nos caminhos humanos, até para vencerem a letargia das suas próprias gramáticas. Queiramos ou não as imagens e palavras gastam-se. Os discursos envelhecem.

Falta imaginação ao quotidiano? 

A vida simples, a vida pobre, é o grande módulo da invenção do mundo, da invenção verbal, da oração. (...)


 


Imperdível entrevista ao Padre Tolentino Mendonça por Maria Ramos Silva -  Jornal I

2 comentários:

  1. "Até no silêncio (há fulgor)".

    O Tolentino acaba por ecoar o entrevistador. Percebe-se, mas há que esclarecer.

    O silêncio está para a palavra como o mar está para o peixe. Mar e peixe fulgem, mas não de forma idêntica.

    O silêncio é condição da verdade da palavra; sem silêncio, a palavra é apenas ruído, vento que açoita as águas e leva a confundir a onda com o segredo da maré.

    O silêncio é crivo da palavra: só uma palavra autêntica é digna de romper o silêncio, de vibrar no silêncio, de habitar o silêncio; e essa é uma palavra fulgurante. Tudo o resto é uma vacuidade de sons guturais, sujidade numa folha branca, palavras que já nascem gastas e envelhecidas.

    O silêncio mostra que a novidade não está na invenção de outras gramáticas ou ritualidades, mas na descoberta do que se esconde nas regiões abissais da solidão. Uma busca a ser feita no terror e no frémito; mas com a maravilhosa suspeita de que aquilo que espera ser encontrado está para além do dizível.

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  2. Que entrevista!
    O melhor e mais poético momento é, sem dúvida, o dos caracóis.

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