sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Como bois para o matadouro


Épocas de crise aguda como a que vivemos em Portugal têm por vezes um lado positivo: despertam uma certa inquietação criativa entre artistas, intelectuais, gente dos negócios, das profissões liberais ou da política, que procuram novos caminhos perante a constatação do esgotamento de um modelo. Sem perder tempo com a mesmice da esquerda marxista, a verdade é que no espaço não socialista português também não se vê nada de novo.
Com o PSD tomado por um aparelho que não vê um palmo adiante dos seus interesses pessoais (dou de barato que Passos Coelho é melhor do que esses apoiantes das “bases”, mas é verdade é que lhes deve a sua tomada de poder interna e dificilmente poderá deixar de lhes retribuir) e com um CDS sempre dependente do seu líder e sempre obcecado pela “sobrevivência” e pela necessidade de se distinguir dos sociais-democratas, seria natural que surgissem novas formações e movimentos com propostas para o País.
Não há dia em que não surja alguém na Comunicação Social a lamentar que a classe política tenha descido tanto de nível, que os partidos já não conseguem atrair os melhores entre nós (eu diria até que os repelem) que estão tomados por interesses e gente sem categoria. E é verdade, neste momento a sociedade portuguesa é melhor do que os políticos que a deveriam representar e não é difícil encontrar em diversos sectores pessoas que pensam bem, que têm boas intenções, carreiras profissionais brilhantes (algumas até fora de Portugal), que estão muito actualizadas com as tendências políticas internacionais, que poderiam romper com o estado das coisas e mostrar que há futuro para o país.
No entanto, se tentarmos puxar essas pessoas para a acção concreta, para a formação de um partido político ou de um movimento, vêem-nos falar, fatais e superiores, do PRD (!) ou do Movimento da Esperança, de Rui Marques (!!) como exemplos de que é impossível alterar um sistema partidário com mais de 35 anos que reconhecem anquilosado e mesmo nefasto. Nuns é nítido que se estão a guardar para a perspectiva, cada vez mais próxima, de o PSD (provavelmente coligado com o CDS) tomar o poder, e aspiram sobretudo a serem “éminences grises” de Passos Coelho, de serem influentes sem darem a cara nem meterem a mão directamente na política, numa demonstração surpreendente de que preferem ser “serviçais” do poder a serem os protagonistas que a sua inteligência e estatuto fariam supor. Noutros, o brilho fácil das intervenções nos blogues ou na Comunicação Social é suficiente para satisfazer a noção de que estão a contribuir para o bem da Nação. Noutros ainda, a resposta é mais do género “tenho dois filhos a estudar, uma casa para pagar e tenho é que trabalhar”. Acham que se desempenharem bem a sua profissão e pagarem os impostos já estão a dar um bom contributo para a nossa sociedade. São os que compreendo melhor e o que fazem seria realmente suficiente se a desastrosa situação portuguesa não exigisse muito mais.
E assim vamos marchando como bois para o matadouro, sem reagir, incapazes de passar das palavras para os actos, maldizendo os políticos e o povo que os elegeu, mostrando que a geração (que é a minha) que hoje está na força da vida, que deveria estar a solucionar os problemas do país, não só é muito pior do que a anterior (que apesar dos excessos de alguns durante o período revolucionário era muito mais empenhada e consequente) como deixará um Portugal tenebroso para os seus filhos. A nossa falência não é só financeira.

23 comentários:

  1. Nem mais. Perdemos tudo e somos todos culpados.
    Temos o que merecemos, somos incapazes de levantar o traseiro, do sofá, e reunir com alguém, sobre o futuro.
    Vergonha

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  2. Compreendo o que diz, Luísa, mas só confirma que as pessoas mais válidas deste país apenas conseguem dizer que "não há nada a fazer". Os partidos políticos, em si, podem ser excelentes meios de promover as mudanças necessárias, desde que reúnam boas competências. Basta ver o que está a acontecer noutros países europeus que não têm um décimo dos nossos problemas.

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  3. Porque não se absteve?

    Eu não partilho dessa culpa....

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  4. Da culpa de não conseguir «levantar o traseiro do sofá»...parafraseando o leitor supra. Por isso, não tenho o que mereço.

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  5. Sabes que eu estou pronto para a luta, Duarte. 
    Abraço

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  6. Duarte, eu já não tenho «idade, nem condição social» ( ;-D ) para me meter em aventuras. Mas se o Duarte resolver formar um partido, garanto-lhe, sem uma hesitação, todo o meu apoio, traduzido, no mínimo, num voto muitíssimo entusiástico nas urnas. :-)))))

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  7. Quem se absteve nas últimas eleições é quase tão culpado da situação actual como quem reelegeu Sócrates.

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  8. Vamos a isso, Luísa e João? Não pode é ser Partido Corta-fitas, porque PCF soa mal e dá origem a equívocos francófonos.

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  9. Não! De todo. O voto presume que exista algo em que se votar. Havia algo em que votar nas últimas eleições? Não dei por isso....Não me parece que carecesse de visão!

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  10. Acho lindamente. Metade do outdoor já está, aliás, feito. (Guimarães) É só dar umas pinceladas e fazer um ou outro acrescento no photoshop. Podem contar com o meu voto.




    Marquesa de Carabás
     
     
     

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  11. O síndrome de Valupi chegou.

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  12. Se realmente não deu por isso, não há mesmo nada a fazer.

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  13. Em nome do Comité Central do PCF, agradeço a preferência, cara Marquesa.

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  14. Cara amiga, olhe que eu não, por mim voto no Partido Democrático, Liberal, Socialista, Libertário Anti-Abrantes!

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  15. Obrigada Duarte.
    Um bom fim de semana. 
    É preciso aproveitar que não tarda já estão em "congresso".



    Marquesa de Carabás

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  16. Caro Rés,

    Esse não vale a pena. É melhor considerá-lo como exinto.  Senão é muita confusão nos boletins de voto. Concentremo-nos no PCF. Esse sim, um grande e promissor partido.


    Marquesa de carabás

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  17. Cara amiga, isso não, o PCF tem comité central, não gosto de partidos de comité central, eu cá sou mais de partidos de presidente, não de comité!

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  18. Não, efectivamente não dei. Nem o caro Duarte. Basta de resto, atentar no seu texto - aquele que nos dá a comentar!


    «Com o (dou de barato que Passos Coelho é melhor do que esses apoiantes das “bases”, mas é verdade é que lhes deve a sua tomada de poder interna e dificilmente poderá deixar de lhes retribuir) e e pela necessidade de se distinguir dos sociais-democratas, seria natural que surgissem novas formações e movimentos com propostas para o País»

    O que acha, meu caro? Nada a fazer, não é? Sem dúvida!

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  19. Caro Duarte,
    Revendo-me em muito do que escreves (não tudo, claero está...), discordo mais do que se segue ao post, e que, a concetizare-se e a ter alguma expressão, apenas beneficiaria o PS.
    A Direita tem gente séria e precisa de gente séria que lute com o maior empenho pela regeneração de Portugal, o que passa, desde logo, por correr com a máfia que presentemente ocupa o poder. E aí, meu caro, com todos os defeitos, insuficiências, mesmo amiguismo - que sempre haverá onde poder existir - sabes bem que só há um partido capaz de correr com o PS. Ficar à espera da perfeição apenas nos condenará ainda mais ao buraco no qual o País já se encontra bem enterrado.
    Abraço

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  20. Duarte,
    Tenho andado a pensar no que escreveu. Mas o sistema politico está todo inquinado. Há dois partidos do arco do poder. Os que aparecem fora dessa lógica "estão à procura de protagonismo" e são esmagados pela lógica partidária que domina a comunicação social.
    E o pior da politica neste pais é o clientelismo. As concelhias e distritais onde tudo começa e que depois exigem "o tacho", a "cunha". São as tais bases que exigem com juros os apoios na campanha eleitoral. Uma verdadeira teia enrola os eleitos.
    O resto são lógicas de oposição sem qualquer interesse em construir. Veja os últimos anos do próprio CDS, com um discurso carregado de demagogia. Já nem falo no PCP e no BE que contam só para a gritaria.
    Veja o que aconteceu ao MMS. Alguém quis saber o que eles diziam nas últimas eleições? E o problema era deles ou da lógica do sistema que não dá margem?
    Nesta lógica a comunicação social, pretensamente independente é instrumentalizada. Completamente.
    Aprenderam com os jornais desportivos.
    E agora não querem outra coisa.
    Também estou irritado com isto tudo e apetecia-me tentar qualquer coisa...
    Porque com estes é certo que não vamos lá.
    Cumprimentos,

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  21. Meu caro,
    O MMS era dirigido por um individuo que tomava decisões sozinho e nem sequer ouvia a opinião da Comissão Política. O mesmo individuo que parece - eu não vi - chamou à inscrição no PSD, através de vídeo no You Tube. Todavia, o MMS tinha pessoas com experiência que podiam, sem dúvida, promover uma mudança. Também é verdade que a Comunicação Social não se interessou nada pelo referido Movimento, o que, acredito, se tenha ficado a dever à figura que o encabeçava. Nada se perdeu. Creia.

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